OPINIÃO

Instituto Lula: sobraram questionamentos, faltaram respostas

Democracia tem imperfeições, mas não há nada melhor que tenha sido inventado na humanidade; é como ar que a gente respira

“Venta nas Ruas um ar frio
Cheio de medo.
Venta nas ruas um ar pesado
Cheio de pranto.
Venta nas ruas, frias ruas
Um cheiro de morte…
Venta nas ruas, frias ruas
Onde vivem de joelhos
Venta nas ruas, onde morre o horizonte
Venta nas ruas, tristes ruas
Onde floresce a morte…
A morte…
A morte…”
Música “Venta nas Ruas”. Cortejo de João Guilherme Ratcliff — líder revolucionário da Confederação do Equador, condenado à morte na cidade de Recife.

Quando eu cheguei ao Instituto Lula nesse domingo (16/8), fui positivamente surpreendido por uma multidão de umas 5 mil pessoas. Imaginei que seria uma apenas uma pequena concentração simbólica de militantes. Mas ao contrário. As pessoas chegavam de vermelho, principalmente do movimento sindical, sorrindo. Uma festa. E as entidades que chamaram o ato usaram todo o aparato necessário para reproduzir esse clima. Os balões dos sindicatos marcavam a forte presença dos movimentos: Apeoesp, CUT, Sindicato dos Bancários e outros. O ato foi chamado por entidades, como o Instituto Lula, a Central Única dos Trabalhadores e a Central dos Movimentos Populares.

O ataque ao Instituto na semana retrasada deu um peso ainda maior ao evento. Finalmente eu pude ver o local onde a bomba estourou, a porta ainda estava toda perfurada, mostrando os fragmentos do projétil.

Os debates da Jornada pela Democracia complementaram a função política do ato. Foi como uma enorme aula pública, que a multidão acompanhava atenta. A mesa de que participei era composta pela secretária nacional de Juventude da CUT, Léa Marques, e pelo padre Zé Geraldo, com a mediação da jornalista Katia Passos, também dos Jornalistas Livres.

Mas quem eram as pessoas de relevância política que estavam lá? Muitos jornalistas, médicos, intelectuais, professores. Muitos militantes históricos que foram tentar dialogar com alguém. A mobilização do PT foi concentrada na Grande São Paulo e região do ABC. Alguns deputados e alguns vereadores marcaram presença, mas, no geral, a representação do partido foi fraca.

Qual era a cara das pessoas que estavam lá? Era a da indagação na busca de respostas e orientação. Houve isso? Muito pouco, muito pouco. Isso, apesar de, no mesmo final de semana, a revista “Veja” trazer um relatório sigiloso do Coaf (Conselho de Controle de Atividades) abrindo todo o sigilo bancário de Lula e do Instituto, colocando sob suspeição toda a biografia do Lula. Como é que um documento sigiloso do Governo Federal foi parar nas mãos da revista, sem que o ex-presidente estivesse a par da situação?

As pessoas queriam saber: “O que Lula fala sobre isso?” Logo ficou-se sabendo que Lula tinha ido no próprio domingo de manhã a Brasília, para conversar com Dilma. “O que foi fazer lá?” Aceitou a indicação como ministro para ter o foro privilegiado? Ou preferiu a dignidade de não se acobertar em um cargo de ministro?

Ele não aceitou o cargo de ministro. Mas quem estava lá não sabia disso. Não sabia também se havia chance de ele ser preso. E não era só isso que não sabiam.

Veja a situação: de um lado milhares de pessoas no Brasil inteiro, paramentadas de amarelo, em um nacionalismo exacerbado; do outro 5 mil militantes sinceros querendo saber o que estava acontecendo e por que estava acontecendo.

E qual era o único encaminhamento que havia na única mobilização que fez o enfrentamento ao golpe no dia 16: a perspectiva de organizar bem o dia 20.

Organizar bem o dia 20 para quê? Como? Qual a orientação? Um verdadeiro exército sem generais.

Mais uma vez a militância de esquerda e a base petista se mostravam prontas para o embate de ideias e as ações políticas, mas estavam órfãos e atônitos.

Esperava-se uma grande representação partidária e dos governos do PT da Grande São Paulo. Esperava-se também uma maciça participação de parlamentares, secretários de governos; respostas a tantas infâmias. Dentro daquele público tão diversificado e qualificado, tão pouca gente para orientar, responder e alimentar as esperanças. Apenas a direção do Instituto Lula, que deu todo o suporte e estava lá, enfrentando as dificuldades.

São Paulo jogou toda a sua energia de mobilização no ato do dia anterior na Arena Corinthians. Milhares de pessoas foram em busca da regularização de seus terrenos. Mas e a mobilização, e o repúdio ao ataque ao instituto? E a resposta ao que acontecia com pessoas enlouquecidas com as mentiras assacadas contra tudo de bom que aconteceu no país nestes últimos 12 anos?

Desde a época que antecedeu a ditadura não víamos manifestações tão agressivas e tão antipopulares. Desde a época que antecedeu o golpe de 1964 não víamos um congresso tão conservador e tão anti-democrático.

Mas era um exército sem generais.

Uma tribo sem caciques.

Uma nação sem dirigentes.

Diante de tantas indagações, pouquíssimas respostas.

Talvez naquele dia, na porta do Instituto, as pessoas pudessem se perguntar livremente: cadê os nossos aliados? Cadê os nossos coligados? Cadê os partidos que fazem a base de sustentação a nossos governos? Estavam lá ou estavam na Paulista de verde-e-amarelo, batendo bumbo e chamando o golpe?

Qual foi o erro que cometemos e por que os cometemos nesses 35 anos de vida? Por que não explicamos mais e melhor o que foi a Ditadura? Por que não contamos direito o que foi a tortura, as prisões e os desaparecimentos dos adversários do regime dos militares? Por que esquecemos os atentados a bomba contra bancas de jornais, contra o Riocentro, contra sede da OAB do Rio de Janeiro… E agora ficamos perplexos com o arremesso de um artefato explosivo contra a nossa própria casa, a casa que abriga o Lula.

Por que omitimos de nossa base que tantas pessoas foram vitimadas pela ditadura? Por que cedemos nos planos municipais de educação à perseguição de gênero para os mesmos grupos monarquistas que saíram às ruas em 1964 em nome da família?

Por que permitimos que as panelas da burguesia voltassem a rufar contra a liberdade do povo brasileiro?

Poderíamos chamar de uma acefalia política. Mais de 5 mil pessoas se dirigiram a um encontro com imensa representatividade simbólica. Havia muitos militantes históricos, que participaram de lutas e da fundação do PT. Todos foram com uma expectativa muito grande. E onde que as pessoas obteriam respostas? Na internet, nas redes sociais, ou mesmo consultando os sites dos grandes jornais e das grandes emissoras de televisão. Isso é: no campo antagônico, o mesmo que estava promovendo os atos na avenida Paulista.

Muitos dirigentes não foram ao Instituto Lula porque viajaram, pois acreditaram que a bandeira branca apresentada pelo editorial do jornal “O Globo”, dias antes da manifestação seria o suficiente.
Nem o próprio Lula foi pautado para receber a multidão e foi enviado para Brasília em um café da manhã no Palácio Presidencial que gerou muitas dúvidas e controvérsias.

O Instituto Lula estar se posicionando é fundamental, eles têm cultura política, de golpe, mas não é o suficiente. Essa cultura não foi disseminada no PT. Sempre se priorizaram alianças, governos de coalizão. A nova geração tem dificuldades de compreender o momento político do Brasil por que nunca lhe foi transmitido esse DNA do que foram os 21 anos de Ditadura no país.

Muitas pessoas queriam saber qual foi a posição do partido em relação à chacina ocorrida em Osasco, uma cidade governada pelo PT, enquanto o secretário estadual da segurança pública fazia fotos e poses no ato da avenida Paulista apoiando os golpistas. Saíram sem respostas.

Espero que, assim como eu, que fui tão animado, as 5 mil pessoas que lá se dirigiram tenham voltado com um pouco de esperança.

O dia 20 não é auto-organizativo. Não vai surgir de uma geração espontânea. É necessário explicar para as pessoas o que é um golpe e quais as suas consequências trágicas para um povo e para um geração.

Democracia tem imperfeições, mas não há nada melhor que tenha sido inventado na humanidade. É como ar que a gente respira, pode ser poluído, impuro, mas é a essência da vida.

Esperamos que o Brasil sobreviva a esse tsunami nacionalista verde-e-amarelo.

E que as cores do arco-íris sobrevivam na enorme aurora da esperança.

(*) Este texto foi publicado originalmente por Jornalistas Livres.

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