MERCADO EDITORIAL

'Após 21 anos, deixo Editora Unesp com 1,7 mil títulos publicados', diz José Castilho

Presidente da Fundação Editora Unesp deixa o cargo nesta segunda (1/6) por decisão da reitoria da Universidade; leia carta de despedida.

Caros amigos,

Deixo a presidência da Fundação Editora UNESP nesta segunda-feira, dia 1º, por decisão da reitoria da UNESP, como já anunciado pela imprensa neste último sábado. Foram 21 anos na função máxima de dirigente deste programa e mais 06 como editor executivo, o que abrange 27 dos meus 31 anos de trabalho na Universidade Estadual Paulista. Quando iniciei, a editora contava com quatro títulos publicados em coedição. Hoje são mais de 1.700, editados em uma instituição que ganhou respeito no Brasil e no exterior como exemplo maior de editora universitária.

Foto: Marília Paiva

José Castilho Maqrues Neto, militante do livro e da leitura, ex-presidente da Fundação Editora Unesp

Neste momento de despedida desta função, quero agradecer o imprescindível trabalho da minha equipe na Fundação Editora UNESP e a todos os parceiros, principalmente os autores nacionais e internacionais, pela confiança no projeto editorial e demais apoios e cooperações estabelecidos ao longo da construção e consolidação da Editora UNESP e da Fundação Editora UNESP. Colaborações sempre marcadas pelo respeito às regras da boa convivência, da ética, do respeito à coisa pública e da lisura e transparência nos negócios e acordos comerciais e institucionais.

Sou um homem do livro, da leitura, da literatura e das bibliotecas, e neste campo permanecerei enquanto professor universitário, editor e gestor cultural. Espero reencontrá-los brevemente em novos empreendimentos.

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Escrevi um texto sobre meu desligamento da Editora UNESP e o enviei aos meus colegas editores universitários na semana passada porque entendo que o episódio também ilustra e contribui para uma questão comum a todos, e ainda não resolvida pela universidade brasileira: o lugar que a edição acadêmica deve ocupar nas missões institucionais, educacionais e políticas dessas mesmas universidades. No texto, o modo como os comandos das universidades consideram as editoras, mesmo aquelas com programas altamente vencedores e consolidados, demonstra o quanto ainda o Brasil precisa caminhar para chegar a uma Universidade que possa realmente desempenhar sua missão de gerar conhecimento e, além disso, difundi-lo adequadamente. A edição universitária ainda é um corpo estranho, ou secundariamente complementar, ou ainda um “luxo” que pode ser dispensado a qualquer momento em grande parte de nossas instituições de ensino superior. Realidade bem distante daquela gravada na origem da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, cujos estatutos de criação, no século XIII, já estipulava a publicação universitária como elemento integrante dos objetivos acadêmicos da instituição.

Recebi de vários colegas a sugestão que tornasse público o documento. Faço-o agora, como uma contribuição ao debate do qual objetivamente não mais faço parte. Segue abaixo:

Refletindo sobre minha exoneração da Editora UNESP.

Após muitos anos de trabalho profícuo à frente da Editora UNESP, tive que enfrentar a ingrata situação de ser exonerado da função de Diretor Presidente da Fundação Editora UNESP (FEU) pelo reitor, Professor Doutor Júlio Cesar Durigan, no último dia 14/5, sem qualquer justificativa profissional. A única alegação apresentada é a de que eu estaria há muito tempo na função e que “isso incomodava muita gente na UNESP”.

Não questiono em nenhum momento a prerrogativa do reitor em nomear quem lhe pareça mais adequado para este cargo de confiança e sem limite de tempo de mandato. Aliás, nos estatutos da FEU, que eu mesmo redigi e propus em 1996, tornei este item cláusula inegociável, uma vez que na estratégia da construção do projeto editorial ficava claro que esta função deveria ser regida única e exclusivamente pela competência, e não por conveniências de qualquer ordem da política universitária. Deveria, também, expressar a política editorial que a UNESP aprovasse, porque sempre considerei a FEU como um instrumento administrativo de viabilização desta política. A Fundação não tem finalidades diferentes do que as tarefas editoriais para a qual foi criada. Por esta mesma razão, a função de Diretor Presidente não tem mandato e o titular pode ser mudado a qualquer momento por, esperava-se, critérios de desempenho e competência, como bem nos ensinaram as grandes editoras acadêmicas internacionais.

O guardião deste projeto, como autoridade acadêmica máxima e eleita pela comunidade universitária, é o Reitor, portanto, é dele o poder e a responsabilidade de nomear, em cargo de confiança, o Diretor Presidente da FEU. Este último, por sua vez, escolhe e nomeia o restante da equipe dirigente, qual seja, o Superintendente Administrativo Financeiro e o Editor Executivo. Completam este quadro os Conselhos Curador, indicado pelo Reitor após consulta ao Conselho Universitário, e o Editorial Acadêmico, indicado pelo Diretor Presidente da FEU entre docentes representantes das diversas áreas do conhecimento. Ambos os Conselhos tem mandatos de dois anos, garantindo o rodízio da representação universitária. A FEU é, desta forma, uma instância com grande autonomia e agilidade profissionais, mas tem a presença permanente e constante dos docentes e pesquisadores da UNESP em sua direção executiva e nos Conselhos que a orientam.

As razões de minha exoneração não se basearam em critérios de desempenho e competência, como me afirmou por diversas vezes o reitor que me exonerava. Ao contrário, não poupou elogios ao bom desempenho de minha função de Publisher e de administrador da Fundação Editora UNESP, face aos contínuos resultados positivos apresentados em todas as frentes da editora: administrativa, editorial, comercial, de formação e divulgação, além da representação institucional junto à sociedade e aos governos. Este é o quadro geral em que ocorreu meu afastamento. Lastimo que tenha sido assim, pois sinaliza o eventual abandono de um programa de construção editorial e um perfil de gestão que foi aprovado, testado e vencedor na UNESP.

Antes da minha demissão, tivemos uma pressão direta ocasionada pelo corte do repasse da UNESP para a FEU neste ano. Não desconheço o conjunto de cortes que a UNESP sofreu com a crise de arrecadação pela qual passa a sociedade brasileira, mas salta aos olhos a especial desidratação da editora. Como afirmei ao reitor, foi o segundo maior corte percentual (abaixo apenas do item de expansão das engenharias) sobre o menor repasse no orçamento geral da universidade. Se não tivéssemos aqui uma administração segura, que fez reservas durante os últimos oito anos e agiu rápido com contenção enorme de despesas frente ao corte abrupto, a FEU teria sérias dificuldades em continuar com o mesmo desempenho de qualidade além de 2015.

O que está em risco hoje não é o fato consumado de meu afastamento da FEU e da liderança da Editora. Está em risco um programa vencedor que catapultou o nome da UNESP como excelência e referência enquanto editora universitária no mundo ibero-americano.

Entendo que cumpri meu dever e minha missão com a Universidade, assumida quando recebi o convite do então Diretor de Publicações da Fundunesp, Prof. Marco Aurélio Nogueira, para ajudar a construir a Editora em maio de 1988. Vivíamos, na UNESP, os ares da democratização e o grande projeto de modernizar e construir uma verdadeira universidade contemporânea, processo liderado, desde 1984, pelo então Reitor Professor Jorge Nagle. Quando cheguei à Diretoria de Publicações da Fundunesp/Editora UNESP, na função de Editor Executivo, que exerci por seis anos, havia quatro títulos em coedição e diretrizes gerais de um projeto baseado na busca da excelência.

Hoje, entrego a FEU com cerca de 1.700 títulos em seus dois selos (Editora UNESP e Cultura Acadêmica), 400 em formato eletrônico, milhões de livros baixados gratuitamente que beneficiaram um número incalculável de estudantes e profissionais (apenas no ScieloBooks, foram mais de nove milhões e cem mil downloads), três livrarias em pleno funcionamento (Sé, Virtual e Móvel), uma escola de formação e reciclagem de profissionais do livro com 16 anos de existência (Universidade do Livro) que atende em média 1.200 pessoas/ano e iniciou com êxito o ensino à distância, além de uma estrutura administrativa eficiente, baseada em uma fundação autônoma, ágil, com todas as suas contas aprovadas pelos órgãos de controle (TCE-SP, Curadoria de Fundações do Ministério Público e UNESP), com média exemplar de 35% dos gastos de seu orçamento com pessoal e que colabora em média com 70% dos recursos próprios para o programa editorial da UNES.

Soma-se a este patrimônio, o reconhecimento com alto valor simbólico dos inúmeros prêmios recebidos pelos livros publicados, como os vinte e três Jabuti, o Jabuti do Livro do Ano 2009, além dos vários textos agraciados por instituições como a FNLIJ, a ANPOCS, o CNPq, a ABL e a ABCA.

Enfim, em seis anos como Editor Executivo, e vinte e um anos como Presidente e Publisher da Editora UNESP, liderei, com o inestimável apoio da aguerrida e leal equipe profissional recrutada, dos colegas dos Conselhos Curador e Editorial, da alta direção da UNESP, do Conselho Universitário e das associações de docentes e servidores, um processo de construção profissional que até agora conseguiu manter-se distante dos revezes políticos que cada vez mais atingem as universidades. É por esta editora acadêmica, autônoma editorialmente, autônoma administrativamente e na gestão de seus recursos, que um afastamento não profissional, que não leva em conta a competência, mas um estranho “está há muito tempo na função”, que me preocupo.

Por fim, e para melhor esclarecimento sobre o que propus à reitoria para minha sucessão, obviamente inevitável em algum momento, era de que mantivéssemos o modelo de editora que construímos nos moldes de eficiência projetados pela edição acadêmica anglo-saxã, onde eu e o Professor Carlos Erivany Fantinati, Diretor de Publicações em 1991, fomos buscar inspiração para o projeto que é hoje a realidade da Fundação Editora UNESP, instituída pelo Conselho Universitário da UNESP em 1996 após ampla discussão com a comunidade.
Propus, e há alguns anos venho expondo esta tese à Reitoria, de que a UNESP precisaria criar compensações de carreira docente que tivesse a capacidade de atrair para as funções de Diretor Presidente e de Editor Executivo da FEU, jovens doutores que se dispusessem a fazer uma longa carreira como professores editores universitários, tornando-a objeto de reflexão e aplicação prática em prol do desenvolvimento do programa em andamento. Está mais do que provado de que não é possível construir uma editora forte e de prestígio acadêmico, com sustentabilidade, se os seus dirigentes forem trocados a cada quatro anos, conforme as mudanças de comando e as conveniências políticas nas universidades. Esta fórmula é praticada em grande parte das editoras universitárias brasileiras e latino-americanas e o baixo resultado é conhecido de todos, apesar da luta incansável dos diretores das editoras acadêmicas.

O resultado do esforço dos dirigentes das editoras e de suas equipes, que acumulam cada vez mais edições primorosas, textos bem editados, com conteúdo de alta importância para várias ciências, perde-se muitas vezes no conjunto de ações que são necessárias para que este trabalho tenha um resultado de alto desempenho, com circulação nacional e internacional, com meios legais de comercialização e divulgação, com recursos e estruturas profissionais que vão além do talento e do esforço pessoal de cada diretor ou funcionário das editoras universitárias. Este espetacular esforço e serviço à edição universitária, praticado hoje por mais de uma centena de editoras de nossas universidades e institutos de pesquisas, na maior parte das vezes se perde no anonimato dos depósitos e da descontinuidade editorial e administrativa, com êxitos apenas episódicos. Não é por outra razão que a Associação Brasileira das Editoras Universitárias – ABEU – tem, como uma de suas principais bandeiras, a profissionalização do setor e a defesa de que os dirigentes editores sejam professores profissionalizados na edição e que possam exercer seu trabalho sem prazo definido de término.

O modelo que construímos na UNESP é baseado na eficiência e nos resultados apresentados e, neste sentido, da mesma maneira que pode ser um cargo de longa duração é, ao mesmo tempo, demissível a qualquer momento se os bons resultados não surgirem. No entanto, definitivamente, não deve ser um cargo que se exerce “ad hoc”, por curto período, sem o devido mergulho na problemática do setor do livro e da leitura, particularmente do livro universitário que sempre é marcado pelo estreito limite entre o apelo acadêmico e o comercial.
Não basta apenas o longo mandato, é preciso que os dirigentes se especializem no assunto e produzam estudos e pesquisas que apontem resultados para melhor trilhar este caminho. Definitivamente, ser Diretor Presidente da FEU não é um cargo meramente administrativo ou gerencial. A editora que temos hoje é fruto de muito estudo, de muita reflexão e produção original que hoje, felizmente, é conhecida e respeitada nos principais foros ibero-americanos do livro, da leitura e das bibliotecas. Não foi por acaso que nos tornamos pioneiros no Brasil e na América Latina de várias iniciativas editoriais universitárias, como os livros eletrônicos em primeira edição com download gratuito. Não é por acaso que presidi em três mandatos a ABEU e em dois mandatos a Associação de editoras universitárias da América Latina e Caribe (EULAC), que sou consultor, entre outras instituições, do Centro Regional de Fomento ao Livro (CERLALC-UNESCO) há mais de quinze anos e que sou constantemente convidado para participar de debates a respeito dos rumos do livro e da edição no Brasil e no exterior. Ou que seja o Secretário Executivo, em função de colaboração não remunerada e por convite do MinC e do MEC, do Plano Nacional do Livro e Leitura no Brasil, sem ter qualquer vínculo ou militância político-partidária.

Em um Brasil marcado por outra situação institucional e política, diferente daquele período em que ingressei na Editora, hoje o que mais prevalece é o entendimento da progressão na carreira em todas as profissões, preocupação compreensível nesta sociedade em que vivemos. Por essas razões entendo ser urgente a criação de uma carreira diferenciada e regulamentada para as lideranças das editoras nas universidades. Para que isto ocorra é preciso obter maturidade na instituição sobre o entendimento do que é a atividade da difusão editorial do saber acadêmico e as suas dimensões. É preciso reconhecer as atividades finalísticas de uma editora acadêmica para a universidade. Se isto for possível, as universidades poderão adquirir as condições de captar jovens talentos entre seus docentes para darem continuidade a uma editora profissional nos moldes de excelência como a que se encontra a Editora UNESP neste momento em que eu a deixo.

Fora deste cenário – difícil de conquistar, mas possível se houver clareza e vontade política para a Universidade que precisamos para o século XXI – tudo se nivela na platitude das pequenas e excelentes iniciativas de limitado alcance, impossíveis de se sustentarem em longo prazo, como requer qualquer programa que se proclame acadêmico e contemporâneo.

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