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De Euclides da Cunha a Oswald de Andrade, livro mapeia pensamento social brasileiro

Historiador e sociólogo Ricardo Luiz de Souza traça trajetória da sociologia brasileira através das obras de sete autores

“A civilização brasileira está destinada ao fracasso?”, questiona o professor do Departamento de História da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) José Carlos Reis logo no prefácio do livro “Pensamento social brasileiro: de Euclides da Cunha a Oswald de Andrade”.

No livro, o historiador e sociólogo Ricardo Luiz de Souza propõe uma releitura das versões de diferentes clássicos do pensamento social brasileiro. Euclides da Cunha, Oswald de Andrade, Araripe Júnior, Alberto Torres, Manoel Bomfim, Lima Barreto e Monteiro Lobato são os autores estudados no livro.

As obras analisadas datam do período do final do século XIX ao início do XX; os capítulos do livro acompanham as lutas sociais e políticas correspondentes a cada período. Logo no início, o autor trata dos dilemas do Sertão, valendo-se das palavras de Euclides da Cunha, que via a nação “estilhaçada” e “sem unidade”.

Mais à frente na análise de Souza, à luz do pensamento de Araripe Júnior vem a tona para elucidar questões sobre a agressividade e os obstáculos para a emancipação da nação.

O tom pessimista e crítico perpassa o pensamento de Manoel Bomfim, de Lima Barreto e Monteiro Lobato e, principalmente, de Oswald de Andrade, que faliu e se tornou o “retrato perfeito do fracasso brasileiro”, segundo o professor José Carlos Reis.

Salvando-se dessa lista, Alberto Torres foi o único “otimista” estudado por Ricardo Luiz, apesar de suas críticas contundentes ao nacionalismo e autoritarismo.

Não por acaso, o livro é aberto com uma citação de Padre Vieira-Sermões: “O fim para que os homens inventaram os livros, foi para conservar a memória das coisas passadas contra a tirania do tempo e contra o esquecimento dos homens, que é ainda maior tirania.”

Ao trazer a tona a memória dos sujeitos que analisaram a formação da sociedade brasileira desde sua base, o autor proporciona uma leitura anti-tirânica e imprescindível para a compreensão do presente brasileiro. 

Sobre o autor: Ricardo Luiz de Souza é pós-doutor em História pela UNESP (Universidade Estadual Paulista), doutor em História e mestre em Sociologia pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). Professor do UNIFEMM (Centro Universitário de Sete Lagoas e FAMINAS).

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Leia abaixo a entrevista com o autor Ricardo Luiz de Souza: 

Painel Acadêmico: Qual a importância de uma revisão da trajetória do pensamento social brasileiro?

Ricardo Luiz: Autores que escreveram no início do século XX, por exemplo - período que meu livro abarca - colocaram questões vitais para a compreensão da realidade histórica de seu tempo, e as colocações feitas por eles buscam compreender tal realidade por meio do estudo destas questões. Isto é feito por autores de todos os períodos históricos, e o estudo das obras destes autores é indispensável para a compreensão da história de seus países. Não é de forma casual, desta forma, que o século XVIII é chamado de "Século de Voltaire", já que o pensamento voltaireano representa a França de seu tempo  - e mesmo a Europa de seu tempo -  em suas contradições, esperanças e, inclusive ilusões, que não foram vistas como tais, é claro, quando foram elaboradas. E é o que ocorre com o Brasil por mim estudado por meio destes autores. 

Painel: Por que a escolha destes autores em específico?

Ricardo Luiz: Toda escolha de autores, feita em meio a um universo de pensamento mais amplo, traz em si algo de aleatório, mas, tal tal aleatoriedade não pode ser absoluta, sob pena de condenar a escolha à irrelevância. Escolhi tais autores, portanto, dentro de uma tradição que reconhece a importância de cada um na construção do que se convencionou chamar de pensamento social brasileiro. E busquei, também, mesclar o estudo de autores icônicos, como Euclides da Cunha, a autores bem menos conhecidos, como Araripe Jr. E a construção do cânone nem sempre está de acordo com a consagração definida de forma imediata. Desta forma, um autor como Coelho Neto, consagrado em vida no período em que Lima Barreto viveu, foi condenado ao esquecimento, enquanto a recuperação da obra de Barreto levaria algumas décadas para ser feita.

Painel: Qual a consequência direta na vida social de desconhecer este passado histórico e sociológico?

Ricardo Luiz: Desconhecer o passado é a maneira mais fácil de retornar a erros que, no caso do Brasil, já eram cometidos de forma sistemática, como o descaso pela educação como princípio civilizador, e um autor como Euclides da Cunha já alertava para a importância deste princípio. Em todos os autores por mim estudados há um pessimismo quanto aos rumos do Brasil que se mostrou acertado, e ler estes autores cem anos depois, é uma forma de constatar como os problemas que levaram a tal pessimismo permanecem urgentes e irresolvidos, embora as soluções a serem elaboradas não possam, evidentemente, ser retomadas a partir desta leitura, da forma como foram elaboradas por eles, a partir do instrumental teórico e metodológico do qual dispunham.

 

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