CIÊNCIAS HUMANAS

O humor que atravessou tempos difíceis

Tese de historiadora aborda o conteúdo crítico e sem vítimas de Hortensia, revista argentina que resistiu a duas ditaduras

O olhar provinciano e bem-humorado para as grandes questões da Argentina dos anos 70 e 80 é o enfoque da pesquisa da historiadora Priscila Pereira, que analisou os primeiros 12 anos da revista de humor gráfico “Hortensia, La Papa”. Publicada entre os anos de 1971 e 1989, a revista combinava seções de humor gráfico e textual, em um contexto bastante conturbado no país. A tese foi defendida em agosto deste ano, sob a orientação do professor José Alves de Freitas Neto, do IFCH (Instituto de Filosofia e Ciências Humanas).

No trabalho, a historiadora explora as formas pelas quais a efervescência política do período, marcado por ditaduras e trocas de poder, eram traduzidas em um tipo de humor bastante característico da região de Córdoba, e que se nacionalizou a partir do sucesso da publicação. Em entrevista ao Jornal da Unicamp, Priscila Pereira comenta os principais aspectos da pesquisa, em um panorama histórico da publicação de humor e resistência política que marcou a história argentina.


A historiadora Priscila Pereira, autora da tese (Foto: Reprodução)

Jornal da Unicamp – Como surgiu a revista?

Priscila Pereira – Hortensia, La Papa foi uma revista feita em Córdoba, e, para entendermos a importância disso, temos que lembrar que a Argentina é um país muito concentrado no plano cultural. As coisas normalmente acontecem em Buenos Aires, e de lá se espalham para todo o país. Foi uma grande façanha um núcleo provinciano conseguir inverter essa ordem, e nacionalizar a publicação a partir do interior. O grande idealizador da publicação foi o jornalista e humorista gráfico Alberto Cognigni, ao lado de sua então esposa, Sara Catán. Eles reúnem, então, um grupo de amigos jornalistas, dos quais poucos já trabalhavam com humor. Em torno do Cognigni, é gerada uma formação intelectual muito boêmia, e muito importante.

Esse início, em 1971, se deu em um contexto muito conturbado da Argentina, que passava por uma ditadura militar da chamada “Revolução Argentina”, cujo objetivo era aprofundar a exclusão do peronismo, extinto em 1955. A revista passa por essa ditadura, [Juan Domingo] Perón volta do exílio em 1973, e depois vem outra ditadura, em 1976. A Hortensia atravessa duas ditaduras muito fortes, a cada novo golpe militar a coisa ficava mais intensa. As torturas e as violações aos direitos humanos se intensificavam também. Foi uma grande façanha ter resistido a tantas mudanças políticas tão complicadas, ainda mais porque essas revistas de humor gráfico costumam ter circulações efêmeras. A revista acaba em 1989, por causa da hiperinflação do período e também devido às mudanças atravessadas pela sociedade argentina, como o surgimento de novas formas de entretenimento. Ela sobrevive à ditadura, mas não sobrevive à hiperinflação.


JU – Como ela sobrevive à censura? Por que os governos a toleravam?

Priscila Pereira – A revista se apresenta como uma revista de “humor cordobês”, sua premissa é trazer esse humor local e fazer com que ele se nacionalize, se popularize e seja acessível a todos os argentinos. Inclusive, a revista teve que fazer algumas adaptações, pois em 1972, apenas um ano após sua criação, chega às bancas de Buenos Aires.

Uma das premissas mais importantes da publicação era fazer um humor que não fosse violento. Diferentemente das sátiras, a revista nunca teve um alvo claro, como outras publicações argentinas. Ao contrário das publicações portenhas, que depreciavam o outro, Hortensia propunha rir do outro e de si mesmo. Isso caracteriza o discurso humorístico mais difuso, e não ter um alvo tão claro ajuda a entender como ela sobreviveu tanto tempo e não foi censurada. Ela chega a sofrer censura, algumas de suas edições circularam com limitações, e os militares chegaram a colocar bombas na redação. A revista não passa ilesa, mas não é fechada como outras do período.

Cognigni era um grande defensor do humor sem vítimas. É muito interessante que, em uma Argentina tão polarizada, tão radicalizada, alguém defenda isso. Estamos falando de um contexto de naturalização da violência política, que envolvia as patotas de extrema direita, a guerrilha, e a sociedade como um todo. Nesse contexto, propor uma terceira via longe daquela polarização toda, pode ser considerado muito revolucionário.


Na sequência, as edições de números 1 (agosto de 1971) e 146 (maio de 1981) e 150 (agosto de 1981). (Foto:Reprodução)

JU – Quais foram as suas motivações para começar a pesquisar essa revista?

Priscila Pereira – Foi por acaso. No mestrado eu estudei o personagem Inodoro Pereyra, que é uma paródia do gaucho argentino, um personagem muito famoso na Argentina. Esse personagem começa na Hortensia. Daí, junto com meu orientador, percebemos que não tinha nenhum trabalho de mais fôlego sobre a revista. A revista é esteticamente muito bonita, defende os direitos humanos, a liberdade de expressão, a possibilidade de sair de um modo tangencial em um contexto no qual as possibilidades estavam interditadas E isso foi feito por meio do riso. Trabalhar com o humor de Córdoba nos permite, pelo olhar da História, olhar para a Argentina sob outra perspectiva. Geralmente, os trabalhos que são feitos no Brasil sobre a Argentina são do ponto de vista de Buenos Aires: a capital decodificando o resto. Do ponto de vista histórico, é interessante ver como o interior se constrói discursivamente.

É interessante, também, porque a publicação trata dos mais diversos temas, e trabalha com a cultura popular argentina. As piadas versam sobre situações cotidianas, como o humor das torcidas de futebol, dos bares, das ruas. Traz muito essa questão do popular e nos permite entender a dinâmica social em ditadura que vá além da questão da censura e da violência. Era um contexto bravo, mas que tinha uma cultura popular rica que florescia nas ruas. A revista é a expressão disso, e ao mesmo tempo inventa esse popular também, criando uma ideia do que seria o popular.

Nesses anos 60 e 70 havia uma disputa sobre quem era o sujeito da cultura popular, porque ele era o sujeito, por excelência, da revolução. Entre os colaboradores da revista tinha gente de todo tipo, peronistas, socialistas, radicais, mas que defendiam algumas coisas básicas em comum, como a democracia, os direitos humanos, a liberdade de expressão. Isso acabou aglutinando esse grupo que, apesar da heterogeneidade, estava contra a ditadura.

Observamos como que os críticos da ditadura não estavam necessariamente nas guerrilhas, na luta armada. A resistência se deu de muitas formas, e a revista retrata bastante essas pequenas resistências cotidianas. Nos períodos mais complicados ela se adaptou, e foi sutil ao abordar esses temas, mas sempre partilhou do humor sem vítimas. O humor era até uma maneira de lançar ar fresco no clima repressivo, para que pelo menos o riso não fosse cerceado.

JU – E quais eram as peculiaridades dessa província?

Priscila Pereira – Córdoba é conhecida como “a douta”, por causa de sua formação jesuítica, e por ter a universidade mais antiga da Argentina, e a quarta mais antiga das Américas. É o lugar onde se formaram líderes políticos importantes, e até hoje tem a fama de ser uma cidade solene, conservadora. Nos anos de 1940, a cidade passa por um processo de industrialização muito importante, impulsionado pelo peronismo, e se torna o centro das indústrias automotivas da Argentina. Esse processo muda bastante a fisionomia da cidade, que se urbaniza, e vê o surgimento de um movimento operário muito combativo. Esse movimento operário protagoniza em 1969 o Cordobazo, movimento que é considerado o início e a culminação de uma etapa na qual se passou da resistência à confrontação direta. Foi um momento de contracultura em que os operários se unem aos estudantes para lutar contra a ditadura de Juan Carlos Onganía. É um momento de efervescência muito grande, tanto que a ditadura foi muito severa na cidade. Especialmente em Córdoba, essas lideranças foram eliminadas, e a revista está nesse contexto em que a cidade disputava com Buenos Aires a liderança da Argentina, e se apresentou como um modelo alternativo de nação. O diagramador da revista, Roberto Di Palma, por exemplo, era de um dos sindicatos que participou do Cordobazo. Mas a província de Córdoba também é conhecida por algumas manifestações da cultura popular, como o cuarteto, um gênero musical festivo e dançante surgido ali nos anos de 1940, e o próprio humor. Isso nos revela que, ao lado da imagem solene, convivem outros relatos relacionados à história de Córdoba.


JU – Por que a revista se chamou Hortensia?

Priscila Pereira – Córdoba é uma cidade relativamente pequena, com muitas figuras pitorescas. Uma delas era uma mulher conhecida como “La papa”, que andava esfarrapada e vendia hortênsias. Ela gritava com as pessoas e levantava as saias, expondo as partes íntimas, aos berros de “miren la papa de hortênsia”. Era uma figura das mais repulsivas, de quem ninguém gostava. Em torno dela havia diversos mitos de que teria sofrido uma desilusão amorosa, fora abandonada pelo noivo, e abandonada pelo filho. Era uma pária social, transformada por Cognigni em protagonista da revista. Em meio a várias figuras pitorescas, ele resgata justamente uma mulher, e que não despertava simpatia. Essa é uma inovação também, a transformação da figura da “papa”, em uma anedota.

*Publicado originalmente no Jornal da Unicamp

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