ENSINO MÉDIO

Matéria sobre o impacto de Filosofia e Sociologia no Ensino Médio tem muita ideologia e pouca ciência

Apuração mal feita, manipulação de dados e parcialidade de pesquisadores derrubam credibilidade da pesquisa


Professor de filosofia que inspirou série de televisão 

A Folha de S. Paulo publicou hoje (16/04) uma matéria sobre o resultado da implementação das matérias de filosofia e sociologia para o aprendizado de matemática no ensino médio. O título da matéria é “Filosofia e sociologia obrigatórias derrubam notas em matemática”, assinada pela repórter Érica Fraga. A matéria não dá o link para a pesquisa, portanto, me ative a seus resultados descritos pela repórter, que entrevistou os dois pesquisadores do IPEA responsáveis pelos dados, Thais Wideman Niquieto e Adolfo Sachsida. Naturalmente, os dados podem nos mostrar outras coisas quando forem divulgados em sua integralidade. Por enquanto, é possível fazer algumas inferências sobre a reportagem.

Os dois pesquisadores “convidados” pelo Ipea para realizar o estudo são economistas, não educadores. Thais Wideman Niquieto é economista, com tese defendida na Federal do Rio Grande do Sul, sob orientação de Marcelo Savino Portugal. Seu doutorado versa sobre desenvolvimento econômico, em três ensaios diferentes: o primeiro sobre as causas das desigualdades regionais dentro do território nacional, o segundo o sobre o impacto negativo do setor público no mercado de trabalho privado na região Sul do país, e o terceiro sobre o impacto da abertura de universidades em cidades pequenas. A tese está disponível neste link

Thaís foi orientada por Marcelo Savino Portugal, e co-orientada por Felipe Garcia Ribeiro. Ambos fazem parte de um grupo de economistas liberais formados pela FGV-SP. Felipe, professor da Universidade de Pelotas, também é pesquisador do IPEA. O professor Savino Portugal foi homenageado pelo PMDB dos Câmara dos Vereadores de Porto Alegre. Já Adolfo Saschsida é um conhecido membro do Instituto Liberal (com direito à blog dentro do Instituto). Sob o governo Temer, passou a trabalhar no IPEA, onde coloca em práticas suas ideias sobre Estado Mínimo. Nas redes sociais e em seu blog, seu esporte preferido é a caça ao PT e a Lula. Também costuma dar entrevistas na mídia versando sobre os mais variados assuntos.

Na matéria, Adolfo Saschsida diz que percebeu os problemas decorrentes das matérias sociologia e filosofia, que na sua visão atrapalhavam o estudo da matemática, vendo a quantidade de lição de casa das próprias filhas.

Nem vou entrar aqui no mérito da matéria (apuração mal feita, pouca familiaridade da repórter com dados, perguntas sem sentido, manipulação de dados sem conseguir “provar sua tese”), mas queria deixar algumas perguntas: as filhas dele estudam em escola pública? Eu acho bem difícil que um liberal desse naipe deixe de pagar pela meritocracia de suas filhas. Parece mais storytelling, uma conversa mole que faz tudo o que aparece depois parecer verdade. Mas, supondo que sim, se elas estão em escolas minimamente comparáveis socioeconomicamente às que foram analisadas, será que ele percebeu que existe uma enorme quantidade de aulas vagas de matemática e física? O estudo calculou quantas aulas eram efetivamente dadas de matemática e física?

Questiono, ainda, se o estudo levou em conta que não existem laboratórios de ciência ou de informática nas escolas, que em parte das escolas os alunos são jogados em salas nessas disciplinas sem possibilidades de efetivamente estudarem? Que, mesmo assim, existem escolas públicas em que os alunos são campões em olimpíadas de matemática porque alguns professores insistem em nadar contra a corrente de todo um sistema de educação pública que precariza professores e sofre uma tentativa constante de desmonte?

Ainda não estou satisfeita, então pergunto mais um pouquinho: qual a efetividade de um estudo feito com a resposta já pronta? Ou seja, o estudo foi encomendado para provar antecipadamente que filosofia e sociologia atrapalhavam o currículo dos alunos. Isso pode até parecer ciência, mas é na prática ideologia pura. Qual a efetividade de um estudo pautado pela ideologia?

E, mesmo diante de tantas fragilidades científicas, os economistas e a repórter parecem ter chegado a algumas conclusões muito definitivas. Para eles, sociologia e filosofia ajudam na interpretação de texto. Esse dado fica escondido no meio da reportagem: efeito indesejado, ou seja, a melhoria, a gente esconde.

A reportagem também não explica direito como a matemática atrapalha. É falta de aula? É muita lição de casa dessas matérias? Sociologia e filosofia são mais interessantes do que matemática para os alunos?

Finalmente, perguntas que, pelo jeito, sequer passaram pela cabeça dos economistas: quanto os alunos aprenderam de sociologia e filosofia? Ou conhecer a sociedade em que vivem e pensar o mundo das ideias não é algo que a gente vá deixar ao alcance das crianças? Os economistas em questão acham, por acaso, que seus filhos não precisam sabem quem é Aristóteles e Weber ou que isso é dispensável apenas para quem está na rede pública?


"A filosofia serve para refletir" diz personagem da série Merlí, que retrata a vida de um professor de filosofia querido pelos alunos por incentivá-los a pensar livremente.(Vídeo: Youtube/Reprodução)

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