MANIFESTAÇÃO CULTURAL

Precisamos falar sobre monumentos e sua simbologia - ou sobre a pixação no Pátio do Colégio.

Historiadora comenta o valor cultural das intervenções feitas em monumentos


(Foto: Paulo Pinto/FotosPublicas)

Precisamos falar sobre monumentos e sua simbologia - ou sobre a pixação no Pátio do Colégio.

1) Já há alguns anos, alguns locais considerados emblemáticos par a cidade de São Paulo vêm sendo alvo de intervenções estéticas - em sua maioria, pixações. O mais notório caso é o Monumento às Bandeiras, que volta e meia é alvo de tintas.
Hoje é a vez do Pátio do Colégio. Aí eu, historiadora e técnica do patrimônio tenho que me manifestar. Então, senta que lá vem textão.

2) Vamos começar pelo começo. O Pátio do Colégio, que é o "marco fundador da cidade de São Paulo" não é tombado pelo Condephaat. "Oh, mas como assim não é?". Pois então. Aquilo lá não é original, sabia? A única coisa que resta da edificação erigida no século XVI é uma parede de taipa que fica no interior do Museu Anchieta, protegida por vidros.

3) Então porque não é original não tem valor de patrimônio cultural? Não é isso. Qualquer coisa tem valor de patrimônio cultural desde que a população atribua a um lugar/coisa esse valor. E esse é o caso do Pátio do Colégio. Não é tombado, mas a população tem um laço afetivo com esse local. E por que? Porque desde a mais tenra idade escolar, a gente aprende que ali a cidade foi fundada, o mito dos jesuítas pacificadores de índios selvagens e a civilização se impondo sobre a barbárie.

4) O pátio do Colégio e a capela primitiva foram demolidos totalmente - após muitas reformas - no final do século XIX. A construção que hoje vemos foi iniciada como comemoração ao IV Centenário da cidade de São Paulo, em 1954. Ficou pronta apenas em 1979, quando Maluf era governador e Olavo Setúbal (sim, aquele do Itaú) era Prefeito. É, portanto, um "monumento" artificialmente criado para estabelecer no tempo e no espaço urbano, um marco para o que pretende representar. Não foi algo que está lá há séculos. Mas é uma produção intencional e ideológica de um monumento.

5) Feito o preâmbulo histórico/crítico, vamos falar da pixação (Sim, escrevo com X pq é assim que é escrito por quem pixa). As manchetes que trazem a questão tratam como "vandalismo". Mas vamos pensar um pouquinho além do mais óbvio? Não foi exatamente "vandalismo" o que aconteceu ali, porque não foi o pixo de sempre - crews ou indivíduo que deixou ali sua marca, grife, apelido - mas um protesto. Está escrito claramente "OLHAI POR NOIS".

6) E aí que mora a grande questão. O prédio é associado a uma memória cristã, católica e jesuíta. A frase escrita em letras monumentais (sentiu o trocadilho, hã hã?) foi dita pelo maior símbolo dessa manifestação e que está presente na sua principal oração - Jesus. Olhai por nós. Nós quem? Percebem a simbologia dessa pixação? Não é só vandalismo. É um manifesto, um grito para que olhe por nós. Quem olhe? Deus? A Igreja? Olhe para quem? A população excluída (e aí cabe um monte de categorias)? Os pixadores?

7) Fato é que, a pixação cumpriu com seu propósito: fez alguém olhar para o prédio, fez olhar para quem escreveu, pode nos fazer olhar para o que ela chama a olhar. Porque como diria o Ulpiano Meneses, não há nada mais invisível que um monumento.

8) Basta que pensemos para além do título do vandalismo e do "ai, que absurdo pixaram um patrimônio". Porque a real é que a maioria dos bens tombados tem pouca aderência entre a população, porque geralmente são lugares que pouco têm a ver com a história de vida da maior parte da população. É só muito recentemente - talvez desde a década de 1980 - que o tombamento deixou de privilegiar a memória cívica e passou a discutir e representar segmentos à margem da sociedade tradicional brasileira. Até porque quem tinha possibilidade de produzir bens que durem sobre os tempos não eram exatamente os mais pobres.

9) Vale ressaltar que é só dar uma lixada na parede e aplicar tinta ali que tudo fica como antes. Não é uma demolição, não é uma violação. É um manifesto simbólico e que foi feito pra causar mesmo, pra chamar a atenção. Não vou aqui ser legalista do patrimônio. Primeiro porque não é tombado pelo Condephaat, segundo porque há muitos bens em péssimo estado de conservação - como o Batalhão de Guardas no Parque Dom Pedro, ali do ladinho - e quase nada se fala sobre o tema. A questão aqui não é sobre o tombamento, o "crime contra o patrimônio cultural", mas sobre os significados que o prédio tem e outros que tem, mas são escamoteados e que a pixação vem pra jogar na cara as contradições da sociedade.

10) Por fim, termino com o Jacques Le Goff falando sobre documento-monumento, porque ele é muito mais competente que eu pra isso. "O documento é uma coisa que fica, que dura, e o testemunho, o ensinamento que ele traz devem ser em primeiro lugar analisados, desmitificando-lhe o seu significado aparente. O documento é monumento. Resulta do esforço das sociedades históricas para impor ao futuro – voluntária ou involuntariamente – determinada imagem de si próprias. No limite, não existe um documento verdade. Todo documento é mentira. Cabe ao historiador não fazer o papel de ingênuo." ( LE GOFF, Jacques. História e memória. Campinas: Editora UNICAMP, 1996. p. 538.)

 

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