EU PASSEI

Rodolfo Machado: ‘enfrente a prova e não perca tempo acreditando que não conseguirá’

Nome: Rodolfo Costa Machado

Foto: Igor Truz

Rodolfo Machado esqueceu de levar o Vade Mecum para a prova de 2ª fase da OAB               

Estudei na: PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo)

Concluí o curso em: 2011

Decidi fazer direito porque: via no Direito uma importante porta de abertura ao estudo da história e da política, bem como um instrumento prático de luta pela justiça diante de tantas injustiças mundanas, para as quais nos chamou atenção nossa formação durante o colegial, embebida de um humanismo cristão crítico, de uma Igreja Católica então arejada pela “teologia da libertação”.   

Minhas disciplinas preferidas eram: o período inicial do curso foi o melhor de minha formação. Líamos assiduamente, com tempo, textos das disciplinas Teoria Geral do Estado, Ciências Políticas, Filosofia do Direito, entre outras. Sofri forte impacto na audiência de curso extracurricular ministrado na Oboré, em parceria com a PUC-SP, acerca da História do Direito Contemporâneo, quando discutíamos o arcabouço jurídico do golpe de 1964 e da ditadura militar subsequente. Logo me encaminhei para os estudos “filosóficos” e “históricos” do direito, o campo da chamada “zetética”, motivo de minha tardia inscrição e aprovação no concurso da OAB.

Como me preparei para a prova: Se nossa trajetória na graduação nos encaminhou para os estudos jurídicos em nível de Iniciação Científica, tivemos a oportunidade de elaborar, posteriormente, dissertação de mestrado acerca da história do direito, tendo o jurista da ditadura Alfredo Buzaid como alvo temático. Mesmo estando no final do mestrado, decidi-me pela importância de retirar a carteira da OAB, especialmente quando advertimos a ausência de advogados dispostos e/ou adequadamente capacitados em remexer, no campo da chamada “justiça de transição” entre a última ditadura e a atual democracia pós-1988, nas reponsabilidades dos agentes e crimes de Estado, ainda hoje impunes.  

Meu primeiro emprego foi: Trabalhei em meu primeiro estágio no escritório Lilla/Huck, com um grupo de colegas dentre os quais alguns permanecem como advogados daquela banca advocatícia. Ali aprendi, de facto, os trâmites e tramas processuais, tendo a oportunidade, além do aprendizado forense, de conviver com destacados advogados com forte interesse e carreira acadêmica, sem os quais o cotidiano jurídico resta, em regra, irrefletido trabalho de fórum. Passei posteriormente pelo Juizado Especial do Ministério Público paulista, tomando contato com a ação do Parquet e, nas horas vagas, pude conhecer toda a teatralidade que se exige, para o bem e para o mal, nos tribunais de júri da Barra Funda.

Minha dica para quem vai prestar o Exame de Ordem: Optando por prestar tardiamente o exame da OAB, durante o ano final do mestrado em história do direito, contratei os serviços do Damásio de Jesus para a segunda fase em Direito Constitucional. Afastado por anos da chamada “dogmática” jurídica, o curso me possibilitou o conforto de estudar de casa, adequando meu horário de mestrado aos exames. No primeiro semestre de 2015, “morri no chefão”, isto é, não passei da segunda fase. Tinha cometido o pior de todos os erros, aquele que todos estão “carecas” de saber: estudando até o último minuto de sábado, com sono intranquilo, esqueci o vade mecum. Fui à casa de dois amigos, um advogado e outro assessor de juiz, ambos sem código. Xinguei os dois ardorosamente, não me eximindo de responsabilidades. Fui salvo por uma boa alma no elevador, que me emprestou um código. Mesmo assim, não passei, por pouco, sem dúvida pela entrada “heroica” durante o baixar dos portões. Gostaria de saber, entretanto, o nome daquela bondosa menina que, assim como eu, subimos no último elevador antes do sino tocar.

Na segunda fase da “repescagem”, no segundo semestre de 2015, não esqueci o vade mecum, mas estava seguro que a peça cobrada no concurso anterior – um Mandado de Segurança – não seria novamente solicitada. Estudei, portanto, com foco total nas demais peças, não dando muito bola para esse remédio constitucional já “batido”. Meu espanto, que tive que controlar para não virar desespero: solicitou-se, novamente, um MS, a peça que menos estudei. Passado o susto, controlada a ansiedade, tudo foi bem, entrei “pra ordem”. Agora espero, sem esperar, poder usar dessa prerrogativa para defender, tal qual meu sonho juvenil, os injustiçados de tantas injustiças. A dica é seca: o básico vale muito – vade mecum e horas bem dormidas de sono. Sem minhocagem na cabeça – enfrente a prova com tudo, canalize seus esforços intelectuais para respondê-la, não perca tempo, durante a prova, acreditando que não conseguirá. Ainda hoje, nossos piores inimigos são nossos próprios medos e temores. Dominá-los, conscientemente, é o passo que precisa ser dado. Boa sorte a todos os futuros colegas, que utilizem bem a futura carteira da OAB.