OPINIÃO

'Gisberta', de Luís Lobianco: representação e representatividade nas artes

Movimentos sociais reascendem debate sobre lugares de fala no teatro


(Foto: Fábio Bouzas/Ascom TCA)

A crítica de movimentos sociais ao espetáculo Gisberta, do ator Luís Lobianco, sobre a Gisberta, transexual brasileira assassinada em Portugal por um grupo de 14 adolescentes em 2006, reascendeu um debate no início de 2018 que há alguns anos tem sido foco de atenção no teatro, no cinema e na televisão.

Ao final do ano passado, o filme Vazante, dirigido por Daniela Thomas, foi criticado por estabelecer uma representação problemática das personagens negras que, no decorrer do enredo formalizado por uma aura silenciosa e de cadência quase estática, são configuradas como presenças destituídas de profundidade subjetiva e como elementos naturais em um cenário escravocrata.

A mobilização de espectadores negros na ocasião nos faz refletir: como as minorias políticas são representadas em cena? Quem detém os seus "direitos autorais"?

Essas duas perguntas revelam um problema racial, de gênero e de classe nos modos de produção das artes no país hoje. Em que pese a população negra ter adquirido autonomia e empoderamento econômico nas últimas décadas, grande parcela das narrativas e da elaboração estética sobre a vivência negra ainda está nas mãos de autores sociologicamente brancos, que carregam um imaginário preconceituoso sobre a negritude, de forma muitas vezes não intencional, uma vez que o racismo é uma prática que se ambienta muito rapidamente atrelando-se aos comportamentos sociais de maneira sutil e rasteira.

A recente discussão sobre Vazante não pode ser ignorada quando se lança o olhar para a questão da peça de Luís Lobianco. Há um certo paralelismo, por assim dizer, na defesa dos autores criticados. A resposta às manifestações, embora o movimento negro e o LGBTQ+ tenham diferenças, parece extraída de cartilha: segundo os partidários da peça e do filme, a arte da interpretação prescinde de "lugar de fala", conceito usado com frequência nos debates do movimento feminista, negro e LGBTQ+ através do qual propõem-se pensar as relações sociais a partir de uma localização sociopolítica de agenciamento de discursos. Nesse sentido a ideia de neutralidade discursiva tende a ser substituída pela perspectiva de que todas as pessoas têm um "lugar de fala", inclusive aquelas que constituem os setores historicamente dominantes e por esse motivo não são uma voz imparcial quando falam sobre "o outro".

O espetáculo de Lobianco, ao apresentar a história de Gisberta sem, no entanto, contar com uma pessoa trans ou travesti no elenco e na equipe de produção desvela ausências nos modos técnicos e criativos da produção artística brasileira que precisam ser superados. O grande conflito, ao que parece, não se estabelece tão somente no território da ficção, mas sobretudo nas sínteses materiais, em como os grupos de teatro, performance, cinema ainda se organizam a partir de estruturas privilegiadas de classe, raça e gênero.

Segundo estatísticas, as mulheres trans e as travestis não conseguem concluir o ensino básico, são expulsas de casa e na maioria das vezes têm de recorrer ao mercado da prostituição para sobreviver.

A população negra permanece aquela que constitui as camadas mais precarizadas do sistema social, ocupando periferias e favelas, trabalhando em postos informais e de baixa remuneração.  

As reivindicações das artistas trans e travestis bem como a discussão do movimento negro sobre o filme de Daniela Thomas sugerem que olhemos para a arte à luz de um ponto de vista inclusivo e, portanto, forjado em princípios que nutrem e fortalecem a democratização do acesso ao produto cultural brasileiro. 

*Paloma Franca Amorim é autora do livro Eu preferia ter perdido um olhopublicado pela Editora Alameda.

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