OPINIÃO | Luis Felipe Miguel

"É bom lembrar que trabalho na pós-graduação é trabalho", diz cientista político

Luis Felipe Miguel analisa denúncias sobre pressão no meio acadêmico


(Foto: Cecília Bastos/ Jornal da USP)

Concordo com Afonso Albuquerque na compreensão de que o súbito interesse da Folha de S. Paulo pelo bem-estar dos estudantes de pós-graduação não é alheio à campanha pelo fim das universidades públicas. Li alguns dos muitos depoimentos que o jornal pretensamente teria recebido. Há denúncias muito sérias, que deveriam ser apuradas. Há casos que não sinalizam infrações éticas, mas mostram relações humanas pouco saudáveis. Mas há também uma cota de reclamações bobas ligadas sobretudo ao cumprimento de prazos e a um desejo pouco velado de irresponsabilidade. E há histórias estranhas - onde um orientador pode cancelar as disciplinas cursadas pelo aluno e obrigá-lo a refazer todos os créditos?

Tudo forma uma geléia geral de acusações contra as pós-graduações e os professores. Há um movimento permanente de responsabilização pessoal, do orientador, pelo efeito das regras institucionais, muitas vezes impostas pelas agências de financiamento. Há uma generalização perversa, induzida pelo jornal. Uma generalização que atinge tanto docentes, todos vilões, quanto discentes, todos se vendo como vítimas.

Em muitos dos depoimentos, há, sobretudo, uma imensa incapacidade de olhar para o lado de fora. O estresse, a pressão, a competição entre os pares, a submissão à hierarquia: isso não está presente, em geral em grau ainda mais alto, no cotidiano da maioria dos trabalhadores? Se é tão difícil entregar um capítulo a cada três meses, o que dizer de - por exemplo - um motorista de viação, que tem dezenas de prazos a cumprir a cada dia de trabalho? (E provavelmente o estudante fica fulo se o ônibus não passa na hora certa.) Parte dos problemas, portanto, deve ser pensada no contexto geral das atividades produtivas, não como patologias específicas do trabalho universitário.

Pierre Bourdieu dizia nunca esquecer do privilégio "totalmente indevido" de ser pago para pensar, enquanto outras pessoas cuidavam da reprodução da vida material. Isso também é essencial. Nossa presença na universidade, sejamos alunos ou professores, não é uma recompensa por méritos especiais, mas fruto de uma série de acasos e da resposta que a sociedade dá a eles, começando já na loteria do nascimento. É importante lembrar que nosso primeiro compromisso é com aqueles que, do lado de fora, permitem nossa presença nesse espaço privilegiado.

E é sempre bom lembrar também que trabalho na pós-graduação é trabalho - pode incluir satisfação, realização e reconhecimento, mas inclui também compromisso, disciplina e doses inevitáveis de frustração, além do risco de encontrar críticas pouco lisonjeiras. Todos nós passamos por isso, "passamos" usado aqui tanto no passado quanto no presente. Há muito o que reclamar, mas reclamar daquilo que é próprio do esforço intelectual me parece um tanto descabido.

*Luis Felipe Miguel é organizador do livro Aborto e Democracia em parceria com Flávia Biroli.

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