ENTREVISTA |

Como eram tratadas as doenças no período colonial?

Historiadora Ana Carolina de Carvalho Viotti lança livro sobre as práticas médicas do Brasil colonial

A medicina e seus métodos avançaram e, hoje em dia, sangrias e purgas para a retirada do sangue do paciente ou o uso excessivo de laxantes parecem coisas absurdas. No entanto, a eficácia de algumas práticas recomendadas por profissionais e curandeiros coloniais atravessaram os séculos e continuam a ser usadas até hoje, seja como recomendação médica ou "carinho de vó", como a canja de galinha.


Saiba mais sobre nossa campanha de assinatura solidária; além de nos apoiar, você também ganha recompensas

“Uma receita interessante nesse rol de práticas persistentes, insistentemente recomendada para a mais variada quantidade de males, é a canja de galinha. Possuir uma criação desses animais, aliás, era muito recomendado pelos doutores, pois o caldo de galinha era considerado o melhor dos alimentos para a recuperação dos doentes.”, explica a historiadora Ana Carolina de Carvalho Viotti. 

Em seu novo livro publicado pela editora Alameda, a pesquisadora revisita documentos e tratados escritos por profissionais formados em universidades europeias que vieram trabalhar no Brasil. "As práticas e o saberes médicos no Brasil colonial (1677-1808)" traça uma narrativa da medicina colonial brasileira, passando pelas doenças, receitas e diagnósticos da época.

“Acredito que o mérito da obra é lançar luz sobre a delimitação e construção dos aspectos normativos da prática médica, dando voz a personagens que se dedicaram a tratar da medicina nos trópicos, mesmo com recursos diversos àqueles que tiveram contato nas universidades europeias.”, explica Ana Carolina.

A historiadora concedeu entrevista exclusiva para o Painel Acadêmico sobre sua obra. Confira a conversa, na íntegra, abaixo:

Foto: Ana Carolina de Carvalho Viotti/ Arquivo Pessoal

Métodos populares, quando não passavam por filtro do especialista, eram encarados como crendices ou charlatanismo, explica historiadora

Painel Acadêmico: É comum, no desenvolvimento científico, que métodos apresentados como modernos e corretos sejam reavaliados e reconsiderados como ineficientes ou até mesmo prejudiciais. Na sua pesquisa você se deparou com alguma prática medica colonial que atualmente seja avaliada como errada?

Embora esse processo de reavaliação seja bastante recorrente na prática médica, minha maior preocupação no desenvolvimento da obra foi pensar o que era correto ou corrente para os homens daquele tempo, sem procurar corrigir, com um olhar contemporâneo, tais procedimentos e fórmulas. De todo modo, se pensarmos nos próprios fundamentos que regiam a maior parte daqueles doutores, de onde a teoria dos humores tem destaque, esses foram reavaliados no século seguinte e desde então, por exemplo,  não se purga ou se sangra um doente para reequilibrar o funcionamento do corpo, prática muito comum para uma vasta gama de achaques até pelo menos o alvorecer do século XIX. É também válido destacar que esse tipo de "correção" já ocorria entre os médicos da colônia que, em momentos diversos - e muitas vezes para valorizar a mezinha que utilizavam ou mesmo inventavam -,  diminuíam a importância ou eficácia de algum produto já conhecido.

Painel Acadêmico: Existe alguma prática descrita nos tratados coloniais que perdura até hoje?

Muitas plantas indicadas em tratados como os de Luís Gomes Ferreira – o Erário Mineral –, ou José Antônio Mendes – Governo de Mineiros – foram ou são receitadas por nossas avós para dores de barriga, cabeça ou para vermes, como o mastruço ou mastruz, a erva-de-Santa-Maria, a erva fedegosa, o óleo da carrapateira (ou de rícino), a romãzeira, artemísia, o alho pisado no leite, as sementes da abóbora, a jalapa (ou batata-de-purga). Para uma grande quantidade de fórmulas, a salsaparrilha, a ipecacuanha, a erva doce, o limão, a jurubeba, a canela, o ruibarbo ou a semente de papoula eram receitados.

Uma receita interessante nesse rol de práticas persistentes, insistentemente recomendada para a mais variada quantidade de males, é a canja de galinha. Possuir uma criação desses animais, aliás, era muito recomendado pelos doutores, pois o caldo de galinha era considerado o melhor dos alimentos para a recuperação dos doentes.

Para aqueles médicos, vale dizer, era indispensável conhecer as plantas “da terra”, naturais do Brasil ou já empregadas por agentes “alternativos” da cura, conhecer as suas notáveis qualidades e extirpá-las do universo estritamente empírico, indígena ou mágico. Apenas com a incorporação desses ingredientes nas mais difusas coleções de receitas, com casos comprovados de sucessos nas curas, sua ação reparadora poderia ser legitimada.

Painel Acadêmico: Hoje em dia, receitas e tratamentos científicos continuam a fazer parte da tradição popular, mesmo sem nenhuma prova objetiva de que eles realmente funcionem. Alguma prática baseada nos saberes populares se provou mais eficiente em comparação às práticas médicas vindas da Europa?

É difícil dizer, pois os doutores em geral registravam mais seus sucessos e as fórmulas eficazes que desenvolviam e utilizavam que os fracassos. Além disso, os métodos ditos populares, quando não passavam por esse filtro do especialista, do licenciado, do experimentado e do conhecedor das teorias e das práticas médicas eram encarados como crendice ou mero charlatanismo. Como mencionado e também nesse sentido, não faltam indicações dos doutores sobre o uso de métodos desenvolvidos pelos homens de ciência e empregados pelos populares: as sangrias feitas em demasia pelos barbeiros não estudados, as purgas que minavam a saúde dos já enfermados, os remédios de segredo mal manipulados... todos recebiam as críticas e os piores registros nas obras médicas.

Painel Acadêmico: Existia uma influência das tradições indígenas nas práticas de cura da tradição popular? De que forma eram encaradas essas tradições pelos profissionais formados nas ciências médicas?

Diversas plantas e formulações de remédios já eram conhecidas dos índios e há muito utilizadas nos trópicos, especialmente para as doenças que esses naturais da terra comumente faceavam, como as mordidas de cobras e envenenamentos. O emprego desses ingredientes vinha acompanhado, com frequência, de um ritual, de uma invocação ou de algum ato "mágico" levado a cabo por quem aplicava a mezinha, procedimentos que faziam toda a diferença para os indígenas na eficácia do tratamento e que eram sumariamente condenados pelos homens de ciência e de religião.                 Para que tais substâncias fossem incorporadas ao rol de tratamentos possíveis dos doutores e mesmo pelos citados boticários ou enfermeiros jesuítas, eram colocados à prova empírica, no uso e na observação dos resultados, e os elementos ritualísticos eram extirpados de sua aplicação. A questão que se colocava, portanto, não era o uso do ingrediente tropical ou já conhecido do índio, mas antes retirar daquela fórmula a carga "sobrenatural" que poderia ter.

Observemos, por exemplo, uma breve história contada por Luís Gomes Ferreira em seu Erário Mineral, ao narrar sua experiência na cura de obstruções, que poderiam ser do intestino ou da circulação sanguínea: "Eu conheci um homem, morador no Sabará, por nome Manuel Gomes Soares, e por apelido o Paciência, que, indo eu a sua casa, pedi água para beber, e, trazendo o portador um copo dela alambreada, lhe disse seu senhor fosse buscar outra, que aquela era particularmente sua; e disse então que aquela água era cozida com raízes de capeba e que a ela devia grandes obrigações, porque, curando-o o licenciado João Rosa, húngaro, de uma obstrução e de uma oftalmia mui grande em ambos os olhos, lhe aconselhara, por fim, fosse bebendo aquela água o mais tempo que pudesse, para ficar de todo são e que havia já dois anos que a bebia, pela grande afeição com que lhe ficara e que nunca bebera de outra, e por isto o vi disposto, gordo e bem rosado".  Aqui, o cirurgião das Minas conta o uso insistente e com bom resultado de uma planta tropical, a capeba, cujas raízes, folhas, sementes e caule eram manipuladas pelos índios, e de que as virtudes já eram conhecidas de um licenciado em medicina anterior a ele.

Abrindo mão, portanto, dos postulados da medicina tradicional e acadêmica para incorporar ingredientes e métodos desenvolvidos ou descobertos nos trópicos, o mencionado Ferreira e outros práticos explorarão os conhecimentos e plantas da terra, diversos deles já usados pelos indígenas e recolhidos, também, pelos paulistas, para promover suas curas.

Painel Acadêmico: Qual a importância da sua pesquisa para essa área da historiografia brasileira?

Acredito que o mérito da obra é lançar luz sobre a delimitação e construção dos aspectos normativos da prática médica, dando voz a personagens que se dedicaram a tratar da medicina nos trópicos, mesmo com recursos diversos àqueles que tiveram contato nas universidades europeias. A partir do entendimento de que a legitimidade do médico para versar sobre a doença é fruto de um processo e não somente da imposição dos meios oficiais de controle, é pertinente voltarmo-nos para os séculos que antecederam os dois grandes marcos da instituição da clínica no Brasil – a instituição da Escola de Cirurgia na Bahia e Rio de Janeiro, em 1808, e da Faculdade de Medicina nas mesmas localidades, em 1832.

A partir de um expressivo volume de referências e um recorte geográfico abrangente, a obra apresenta, baseada no que se deixou registrado sobre as formas de curar – dos limites, então, da atuação dos médicos e das lacunas inevitáveis que os documentos apresentam –, as impressões dos doutores acerca dos doentes, dos tratamentos e das curas nessas terras. Uma medicina plural, heterogênea e muitas vezes ineficiente para os padrões contemporâneos, é verdade, mas que procurava se firmar como um saber legítimo sobre o corpo e seus distúrbios.

Compre o livro online pela loja virtual da editora Alameda. 

Confira