FOTOGRAFIA

“Militão inaugurou um modo de ver a cidade que persiste até os dias de hoje”, diz pesquisadora

Irís Morais Araújo fala sobre o fotógrafo que registrou São Paulo do século XIX

No último sábado (17/06) o fotógrafo Militão Augusto de Azevedo comemoraria 180 anos. O artista ficou conhecido por seu trabalho clicando a cidade de São Paulo no início do século XIX, período em que a cidade estava apenas iniciando seu processo de urbanização.


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Sua obra mais famosa Álbum Comparativo da Cidade de São Paulo (1862-1887) é um resumo de seu trabalho não só como fotografo mas também como antropólogo, uma vez que registra as mudanças que ocorreram na cidade no período de 25 anos.

Em entrevista concedida ao Painel Acadêmico, Íris Morais de Araújo, antropóloga e autora do livro Militão Augusto de Azevedo - Fotografia, história e antropologia publicado pela Editora Alameda fala do legado deixado pelo artista. “Em seu Álbum Comparativo da Cidade de São Paulo (1862-1887), Militão propôs um discurso visual da cidade de São Paulo por meio da transformação. O fotógrafo convida seu observador ao exercício específico: cotejar as imagens, notar as disparidades – o antes e o depois – no espaço da cidade fotografado.”, explica a especialista.


Rua do Rosário, 1887

 

Confira abaixo a entrevista completa:

Painel Acadêmico: Qual foi a importância do trabalho de Militão para o registro fotográfico da cidade de São Paulo no século XIX?

Militão não foi o único fotógrafo da cidade de São Paulo em seu período de atuação (1862-1887). Mas o fato de ter trabalhado tantos anos na capital paulista, em diversas frentes, como retratista, legando à posteridade 12 mil retratos, e fotógrafo de vistas urbanas, lançando o Álbum Comparativo da Cidade de São Paulo (1862-1887), o faz um fotógrafo singular.

Ele tinha consciência disso. Ao conceber o referido álbum, escreveu para um amigo (carta a Portilho, 1 jun. 1887): “Como Verdi despedindo-se de sua música escreveu seu Otelo, eu quis despedir-me da fotografia fazendo o meu. É um álbum comparativo de S. Paulo de 1862 e 1878 [sic]. Parece-me um trabalho útil e talvez o único que se tem feito em fotografia porque ninguém terá tido a pachorra de guardar clichês de 25 anos. […] Neste trabalho andou um bocadinho de amor próprio do artista, e gratidão ao lugar que estou a [sic] 25 anos”

Painel Acadêmico: Há alguma semelhança entre as paisagens eternizadas nas fotografias de Militão e as de São Paulo atual?

Em seu Álbum Comparativo da Cidade de São Paulo (1862-1887), Militão propôs um discurso visual da cidade de São Paulo por meio da transformação. O fotógrafo convida seu observador ao exercício específico: cotejar as imagens, notar as disparidades – o antes e o depois – no espaço da cidade fotografado. Embora hoje, ao abrirmos o álbum, pouco reconhecemos aquelas paisagens, Militão inaugurou um modo de ver a cidade que persiste até os dias de hoje.

Painel Acadêmico: Qual a relevância do trabalho fotográfico de Militão hoje, em que nos aproximamos de seu aniversário de 180 anos?

Além do argumento apresentado em resposta à pergunta anterior – ele inaugura um modo de ver a cidade –, destacaria a importância de a família ter guardado por décadas materiais diversos (dentre outros, negativos de vidro, 12 mil retratos organizados em seis álbuns, uma centena e meia de vistas urbanas avulsas, os álbuns Vistas de S. Paulo e Vistas de Santos, o Diário de Viagens, o Índice das fotografias de antigos paulistas, os Maços de clichês, o Livro-copiador de cartas) de Militão e o Museu Paulista (Museu do Ipiranga, pertencente à USP e referência em história e cultura material) ter adquirido esse material, na década de 1990, realizado curadoria e tornado uma coleção acessível aos pesquisadores. Essas ações possibilitaram um adensamento do conhecimento sobre o fotógrafo, a cidade de São Paulo e a fotografia no Brasil.

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