ENTREVISTA

'Futebol de Várzea se espraiou e hoje é jogado nas margens da cidade'

Em busca das razões da paixão do brasileiro pelo futebol, historiadora Diana Mendes Machado da Silva escreveu livro sobre um dos mais tradicionais clubes de várzea: a Associação Atlética Anhanguera

Longe dos gramados sintéticos, das cadeiras almofadadas das arenas multiuso e dos padrões Fifa, o futebol popular ainda resiste. Instalada nas proximidades das margens do Rio Tietê, onde existe  há quase 90 anos, a Associação Atlética Anhanguera ainda reproduz a cultura daquele que originou o esporte que, de alguma maneira, permeia a vida de todos os brasileiros: o futebol de várzea.

“Ele [o clube] existe ainda, foi fundado em 1928, mas ainda está lá, na várzea do rio Tietê, entre o Bom Retiro e a Barra Funda, completando quase 90 anos”, explica a historiadora Diana Mendes Machado da Silva.

Santista, Diana aprendeu a gostar de futebol com seu pai, com quem acompanhava as partidas do alvinegro da Vila Belmiro. E foi justamente a curiosidade em descobrir as razões desta paixão, compartilhada com milhões de brasileiros, o pontapé inicial para sua pesquisa de mestrado na FFLCH (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas) da USP.

“Pra mim era uma pergunta profunda: como é que esta prática tomou conta do nosso imaginário, dos nossos gostos”, conta.

Se ainda não é um dilema entre os historiadores se o futebol foi trazido para São Paulo pela elite ou pelos populares, como marinheiros e ferroviários, não há dúvida entre os pesquisadores onde o esporte começou a ser praticado.

“A gente tem uma cidade que é cheia de rios, e as primeiras práticas foram nas várzeas dos rios, que eram os lugares mais planos, mais apropriados para se jogar futebol”, explica.

E foi nas margens do Rio Tietê que a pesquisadora encontrou a documentação que deu origem ao livro Futebol de várzea em São Paulo – A Associação Atlética Anhanguera (1928-1940). Publicada recentemente pela Alameda Editorial, a obra conta a história de um dos mais tradicionais clubes varzeanos da cidade.

“Tem um pouco de acaso, que foi o fato de eu encontrar uma documentação super rica e inédita, que é o próprio clube”, conta Diana. “Uma série de pessoas que ainda frequentam o clube são filhos ou netos dos fundadores. Essa documentação está viva. Estas pessoas ainda estão lá, praticando futebol e de alguma maneira alimentado a cultura imigrante daquela região”.

Fundada por brasileiros e imigrantes italianos, a Associação Atlética Anhanguera está localizada hoje no Bom Retiro, mais precisamente na Rua dos Italianos. Exatamente o mesmo lugar onde foi fundado o maior clube do futebol paulista: o Corinthians.

“A coincidência é que onde o Anhanguera está hoje, que é a Rua dos Italianos, foi a rua onde nasceu o Corinthians. E toda a relação que estas pessoas tinham com clubes como o Corinthians, o próprio Palmeiras (que à época era Palestra Itália) era muito estreita. As pessoas que frequentavam um clube, geralmente frequentavam o outro. As pessoas jogavam futebol em vários clubes, dançavam, faziam piquenique. Era uma relação social muito intensa”, relata Diana.

O clube, que durante seus quase 90 anos de história nunca quis se profissionalizar, ainda perpetua a cultura do futebol de várzea. As margens, no entanto, se expandiram. O futebol popular ainda é praticado, mas agora longe dos rios.

“O nome ‘futebol de várzea’ perdurou, porém não é mais nas margens dos rios que se joga hoje. A cidade se espraiou e o que a gente chama hoje de futebol de várzea é o futebol popular, amador, que se espraiou para as margens da cidade”, afirma. “A região de rios, dessa época quando eu estudei o Anhanguera, era a região periférica, suburbana. Não era bem vista, bem quista socialmente. E o mesmo acontece com o futebol amador e varzeano hoje. Ele é praticado nas margens. Para mim tem um super valor, que é o valor de continuar praticando futebol a partir das experiências locais, das relações locais que são, inclusive, pela prática de futebol”, completa.

Assista a entrevista na íntegra: 

O livro já foi lançado no Museu do Futebol e no próprio Clube Anhanguera. Na próxima sexta-feira (09/06) às 19h30, a autora participará de um encontro com os professores José Paulo Florenzano e Celso Unzelte na PUC de São Paulo para discutir os primeiros anos do futebol na cidade.

O lançamento no Rio de Janeiro acontecerá no dia 17 de junho, na Livraria Folha Seca, Rua do Ouvidor, 37. 

Livro: Futebol de várzea em São Paulo: A associação Atlética Anhanguera (1928-1940)
Autor:
Diana Mendes Machado da Silva
Edição: Alameda (11 3012-2403)
Preço: R$54,00 (230 páginas)
ISBN: 9 788579 394249
Formato: 23x16 – Brochura – 0,325 kg

Compre online pela loja virtual da Editora Alameda 

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