ARTE MODERNA

“Margherita Sarfatti foi uma das mulheres mais poderosas da Itália fascista”, diz pesquisadora

Lançamento da Editora Alameda, “Classicismo Moderno” mostra a importância da intelectual Margherita Sarfatti e seu papel na formação do acervo do MAC-USP

A professora e historiadora, Ana Gonçalves Magalhães lança um novo livro pela Editora Alameda. Classicismo Moderno: Margherita Sarfatti  e a pintura italiana no Acervo do MAC USP é fruto de estudos sobre o "núcleo italiano".

A coleção de obras compradas pelo casal Ciccillo Matarzzo e Yolanda Penteado para constituição do acervo fixo do recém inaugurado MAM SP (Museu de Arte Moderna, atual Museu de Arte Contemporânea) foi completamente esquecida durante décadas.

Em sua obra, a pesquisadora faz uma reflexão sobre a natureza dos acervos em geral e sobre o papel de Margherita Sarfatti, importante personagem histórica cujo papel também foi deixado de lado pela crítica brasileira. 

Achille Funi, "A adivinha", 1924, óleo sobre tela, Coleção Francisco Matarazzo Sobrinho - MAC USP.

Painel Acadêmico: O seu novo livro, “Classicismo Moderno”, trata de obras que foram adquiridas como parte do acervo permanente do MAC-USP (Museu de Arte Contemporânea da USP, antigo MAM -Museu de Arte Moderna) mas, que acabaram esquecidas por anos. Quais os fatores que contribuíram para o esquecimento dessas obras?

Ana Gonçalves Magalhães: Acho que o principal fator que contribuiu para o esquecimento dessas obras é porque elas foram produzidas por artistas ligados a vertentes que revisitaram uma pintura de caráter figurativo, a partir de premissas dadas pela tradição clássica da arte. São obras produzidas no período entreguerras, que ficou conhecido na historiografia internacional pela alcunha do chamado “Retorno à Ordem”. A historiografia da arte moderna situa essas tendências como antagônicas e conservadoras em relação às experiências vanguardistas das duas primeiras décadas do século 20.

Além do mais, e sobretudo no caso italiano, essas linguagens artísticas foram de certo modo cooptadas pelo Regime Fascista, a Itália, principalmente nos anos 1930, como se elas pudessem ser todas reunidas na chave de uma pintura classicizante, reafirmadora da tradição artística italiana, e na visão dos ideólogos do Fascismo, legitimadora da identidade nacional italiana.

Painel Acadêmico: Como surgiu o interesse em pesquisar especificamente Margherita Sarfatti?

Ana Gonçalves Magalhães: Margherita Sarfatti é a crítica de arte que ajudou o casal Matarazzo a fazer a aquisição dessas obras na Itália. Na historiografia internacional da arte, ela é conhecida como a crítica de arte que nos anos 1920 liderou o chamado Grupo Novecento, inicialmente formado por 6 artistas (dentre eles, Achille Funi e Mario Sironi, presentes no acervo do MAC USP por causa dessa aquisição) e que retomava certos valores da tradição clássica da arte (a partir do estudo dos mestres do Renascimento Italiano, principalmente do século XV), propondo uma pintura moderna original a partir dessa tradição.

Mas Margherita Sarfatti foi muito mais do que isso. Sua atuação como jornalista e crítica de arte faz com que ela se torne talvez das mulheres mais poderosas da Itália na primeira década do Regime Fascista. Ideóloga do regime, ela foi apoiadora, amante e biógrafa de Benito Mussolini e em suas teorias sobre o Novecento na arte, pensava em transformar o grupo na vertente oficial da arte da era fascista. Seu projeto, no entanto, não deu certo. De origem judaica (embora convertida ao catolicismo em 1928), Sarfatti se vê obrigada a deixar a Itália em 1938 (momento da publicação das Leis Raciais no país) e se exila na América do Sul, entre Buenos Aires e Montevidéu. E é ao final deste exílio de 9 anos, que ela entra em contato com o casal Matarazzo e os ajuda a comprar 71 pinturas  italianas no entreguerras para formar o núcleo inicial do acervo do Museu de Arte Moderna de São Paulo, criado em 1948.

Há biografias importantes escritas sobre essa personagem super contraditória entre a Europa e os Estados Unidos, mas nenhuma delas havia se debruçado sobre o papel que ela teve na constituição do primeiro museu de arte moderna da América do Sul.

O livro Classicismo Moderno: Margherita Sarfatti  e a pintura italiana no Acervo do MAC UPS já está disponível na loja virtual da Editora Alameda, que pode ser acessada pelo link.

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