EM OBRAS

'São Paulo ainda possui pistas de sua formação social e urbana'

A arquiteta e urbanista Amália dos Santos fala ao Painel Acadêmico sobre seu novo livro publicado pela Editora Alameda

A arquiteta e urbanista Amália dos Santos fala ao Painel Acadêmico sobre seu novo livro publicado pela Editora Alameda, “Em obras”. A autora estuda o papel dos trabalhadores na cidade de São Paulo entre os anos 1775 e 1809. E a partir deste estudo questiona a ideia corrente sobre o passado colonial da capital, que toma São Paulo como uma pequena vila estagnada e pobre.

“Essa imagem de uma São Paulo apequenada pode ser atribuída, inicialmente, aos relatos de viajantes europeus e cronistas diversos, que assim a qualificavam em comparação ao Rio de Janeiro [...].Além disso, existe uma historiografia construída sobre São Paulo que se centra nas transformações ocorridas na segunda metade do século XIX para enfatizar e – em certa medida – explicar a grandeza e centralidade que a cidade viria a ter desse ponto em diante, especialmente a partir do século seguinte.”, relata Amália dos Santos.

Tomando como fonte uma documentação inédita sobre obras públicas realizadas entre o final do século XVIII e XIX, Amália avalia o as práticas sociais que influenciaram na organização do espaço urbano paulistano.

Leia abaixo a entrevista na íntegra:

Painel Acadêmico: O subtítulo de seu livro “Os trabalhadores da cidade de São Paulo entre 1775 e 1809”, causa curiosidade, pois a imagem que se tem da província de São Paulo em meados do século XVIII é de um vilarejo pacato, sem atividades profissionais específicas. Por que ainda temos essa imagem da cidade no imaginário coletivo?

Amália dos Santo: Essa imagem de uma São Paulo apequenada pode ser atribuída, inicialmente, aos relatos de viajantes europeus e cronistas diversos, que assim a qualificavam em comparação ao Rio de Janeiro, por exemplo, que era uma aglomeração maior, em termos espaciais, de variedade de grupos populacionais e de movimentação econômica. Além disso, existe uma historiografia construída sobre São Paulo que se centra nas transformações ocorridas na segunda metade do século XIX para enfatizar e – em certa medida – explicar a grandeza e centralidade que a cidade viria a ter desse ponto em diante, especialmente a partir do século seguinte. Nessa narrativa, é fundamental a ideia de oposição entre a cidade que conhecemos hoje e esse “vilarejo pacato” que existia anteriormente e que teria sido completamente transformado pelos lucros da exportação cafeeira, pela industrialização e pela força do trabalho de imigrantes. Fazendo um balanço cauteloso dessas construções historiográficas, creio que essa imagem não deve ser de todo desprezada, e sim ponderada. Ou seja, é preciso compreender as nuances dessa cidade que, a um só tempo, era pequena e dinâmica, especialmente em função das suas relações com outras áreas da América portuguesa e espanhola.

Painel Acadêmico: O enriquecimento que a província viveu por conta da produção e da exportação do café é relatado quase como um milagre econômico, com pouca ou nenhuma relação com as atividades já exercidas ali. Como podemos descontruir essa ideia?

A ideia de “milagre econômico” me parece invariavelmente problemática, porque desconsidera de partida qualquer preexistência ou mobilização de aspectos preexistentes, que dê vazão a esses períodos de crescimento destacado. Assim, talvez a principal reflexão a ser feita no sentido de desconstruir essa explicação seja sobre as configurações – econômicas, políticas e territoriais – que, devidamente alinhadas, possibilitaram a exploração do café em tal extensão e produtividade. As primeiras experiências desse plantio começaram ainda no final do século XVIII, nos terrenos dedicados à cana-de-açúcar, que era então o negócio principal de agroexportação na capitania paulista. Em larga medida, o investimento nessa atividade foi possibilitado pela soma prévia de recursos, reunidos por famílias envolvidas em diversas outras empresas, nos ramos comerciais e de exploração de recursos naturais, desde o século XVII. Além disso, ao longo do Oitocentos, o domínio territorial sucessivo das regiões a oeste da província foi essencial para expandir e firmar as plantações cafeeiras, por meio da civilização, espoliação e expulsão dos grupos indígenas que ali habitavam. Tratou-se, portanto, de um processo mais longo do que se pode imaginar pela imagem do “milagre” e permeado, antes e durante, por outras dinâmicas e atividades além da plantação, transporte e exportação.

 

Painel Acadêmico: Sua pesquisa relata a presença do trabalho escravo nas obras da capital paulista, fato apagado da memória histórica dos paulistanos. O quão importante foi a mão de obra escrava no período colonial em São Paulo?

O trabalho de pessoas escravizadas, em diversas atividades, foi estruturador da conformação urbana, social, além de econômica das vilas e cidades na colônia. A essas pessoas estavam confiadas tarefas específicas, às vezes exclusivas, no ambiente doméstico e nas atividades produtivas. Em São Paulo, não foi diferente. Diferentemente de outros contextos – como as plantations do nordeste açucareiro ou as cidades do Rio de Janeiro e Salvador –, os paulistas possuíam em geral pequenos planteis. A parcela mais pobre da população, na qual se encontravam muitas mulheres que eram chefes de seus domicílios, podia ter em suas casas dois ou apenas um cativo, por vezes de idade já avançada – ou seja, mais baratos no mercado do tráfico negreiro –, que realizavam atividades remuneradas e serviços de manutenção doméstica. Nas atividades construtivas estudadas, a presença de trabalhadores escravizados era constante e regular, não sendo possível dissociar as obras dessa parcela da população. A extração de pedras, inclusive, parece ter sido uma tarefa desempenhada particularmente por escravizados, sem participação de homens livres. Além disso, vale atentar para o fato de que essas pessoas não eram apenas peças de uma engrenagem: homens e mulheres escravizadas moravam, conversavam, encontravam-se e circulavam na cidade, fazendo parte das dinâmicas dos espaços públicos e privados e, assim, do modo de vida paulista desse período.

 

Painel Acadêmico: Qual foi o papel das mulheres na formação dos espaços sociais?

Até meados do século XX, a historiografia sobre São Paulo – paralelamente à historiografia brasileira e, por que não dizer, à historiografia como um todo – relegou às mulheres um papel generalizante de figuras pertencentes ao espaço doméstico e, assim, menos importantes para a “grande” história, aquela balizada por eventos políticos e públicos. Essa simplificação tem dois problemas principais: primeiro, minora a relevância do espaço privado e de tudo que nele ocorre; e, segundo, ignora recortes de classe, cor ou étnicos, tomando uma ideia específica de gênero quase como universal. Na cidade de São Paulo de fins do século XVIII, mulheres de muitas posses – em geral, viúvas – viviam das rendas de alugueis de suas casas e escravos e ofereciam empréstimos, enquanto mulheres escravizadas e livres pobres ou remediadas trabalhavam principalmente como costureiras, lavadeiras e quituteiras. Sem contar as prostitutas, das quais se tem notícia em relatos de viajantes, mas cuja quantificação é prejudicada pela ausência na documentação oficial de recenseamento. O campo possível de atuação dessas mulheres era, pois, diminuto, se comparado ao dos homens, para os quais foi possível listar dezenas de fontes de renda.

Mas o que se constata pela tabulação de dados da população é que, embora restrito, o campo profissional e econômico ao qual podiam se dedicar as mulheres nesse período era exclusivo. Em outras palavras, à exceção dos alugueis e empreendimentos financeiros, as atividades por elas desempenhadas não eram realizadas por homens, de modo que não se pode compreender sua participação como “improvisada”, “excedente”, “sobressalente” ou como um apêndice ao trabalho masculino. Também o uso da cidade pode ser entendido como mais restrito para as mulheres, especialmente as abastadas, cuja reclusão era hábito essencial para a demonstração de sua condição social e honra. Mulheres cativas tinham uma esfera de circulação maior, em função das atividades desempenhadas, mas às livres remediadas era necessário lançar mão de artifícios que permitissem sua presença nas ruas da cidade, tais como circular à noite, quando a falta de iluminação dificultava a distinção dos rostos, e cobrir-se com mantilhas. Mais uma vez, esses modos apontam para práticas consolidadas, que possibilitavam a essas mulheres realizar suas ocupações e manter seus domicílios. Essas constatações são devedoras e, ao mesmo tempo, contribuem para a abertura – já em curso – dos campos de pesquisa que desfazem as generalizações e simplificações acerca do papel da mulher e do espaço doméstico.

 

Painel Acadêmico: Quanto o período colonial, suas obras e suas formações sociais influenciam na estrutura urbana da São Paulo atual?

Em termos urbanísticos, o centro histórico da cidade atual manteve boa parte da configuração das ruas do passado colonial, o que dá feições características para essa região. Desse perímetro para fora, a ocupação é majoritariamente recente, exceto por núcleos, tais como, Penha, Santana, Pinheiros, Santa Efigênia. Podemos dizer que um aspecto marcante de São Paulo, talvez até o começo do século XX, era sua compreensão topográfica, ou seja, a percepção da configuração do terreno, em suas continuidades e variações, a partir de visuais de diversos pontos. Essa característica decerto foi perdida pelas sucessivas intervenções humanas na geografia e nos elementos naturais da cidade, bem como pelo crescimento da mancha urbana.

Contudo, São Paulo ainda possui o que se pode chamar de “pistas” de sua formação social e urbana. Para além da toponímia que se refere à presença indígena ou a acontecimentos do passado, alguns bairros se configuram como verdadeiros enclausuramentos de populações cujas memórias foram intencionalmente apagadas, como é o caso da população negra do atual Bexiga. E mesmo a persistência de pequenos territórios indígenas, demarcados ou em conflito, coloca em destaque as relações entre colonizadores e autóctones, faceta primordial da formação da cidade e mesmo da nação.

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