MÚSICA

Mário de Andrade e a música brasileira

Leia na íntegra a crônica “Sejamos todos musicais”, publicada em 1938 por Mário de Andrade

Na próxima sexta-feira (24/2) começa uma das festas mais esperada pelos brasileiros: o carnaval. Mas nem tudo é folia em tempos de redes sociais.

Nos últimos anos, marchinhas clássicas têm sido questionadas por conta de seu conteúdo machista e homofóbico, que não parecem mais apropriados para o ano de 2017. Ao mesmo tempo, hits carnavalescos como “Deu Onda” e “Funk do Gás” levantam discussões pela suposta falta de elaboração musical.

A discussão sobre a qualidade da música brasileira, porém, não é recente. Desde 1938, Mário de Andrade já expunha seus questionamentos sobre a produção nacional na Revista Brasil. O autor modernista dedicou grande parte de sua vida ao estudo da música, principalmente da música brasileira.

Leia abaixo a crônica Sejamos todos musicais em que o autor, em sua fase madura, discorre sobre a diferença entre ser “músico” e ser “musical”: 

 

Sejamos todos musicais

 

Sejamos todos musicais.

Há uma palavra de Confúcio que sempre me impressionou profundamente, mas de que só já bem entrado nos anos, pude compreender no... meu sentido. É quando o sábio diz: "se música e cortesia são bem compreendidas e estimadas, não há guerras." Eis uma sutil e asiática maneira de botar abaixo quanto os marxismos e outras pesadonas doutrinas européias, nos ensinam sobre as guerras e as políticas. Tudo se reduz a uma questão de música e de cortesia - por onde talvez se possa desejar que nalguma era ainda muito futura os Confúcios governem o mundo.

Estas poucas coisas que estou dizendo agora, eu já me pensara um pouco antes, quando estourei por esta crônica com aquele sábio conselho inicial: sejamos todos musicais. Agora posso acrescentar "sejamos também corteses", muito embora me pareça a cortesia um corolário da música. Ou melhor: do musical.

Esta foi, para mim, a diferença deslumbrante que, já bem entrado nos anos, me fez enfim compreender um dia o delicadíssimo pensamento do sábio china. Não poderei resumir nesta crônica tudo quanto Confúcio entende por música, e o quanto do domínio dos sons ele exclui dela. Mas, com esta feliz prerrogativa de estar com a palavra, garanto que Confúcio entendia por música muito mais o que largamente entendemos por "musical", esta palavra linda.[1]

Repare-se a diferença entre dizer de alguém que é um músico e de outro alguém, que é um musical. É quase a mesma diferença que vai entre a sempre desilusória dádiva e a sempre ilusionista promessa. O músico é. É o ser que sabe música, é o elemento incomodativo da música. De mais a mais, por maior bem que eu queira ao meu amigo Vila-Lobos, ao meu querido amigo Camargo Guarnieri e outros seres polimelódicos de que tenho a experiência, o músico não deixará jamais de me causar um tal ou qual temor. Às vezes uma séria inquietação.

Já o mundo dos "musicais" é muito mais pacífico, exatamente como entre os corteses de Confúcio. O indivíduo muito musical é exatamente a cortesia da música. É o ser de todas as curiosidades, de todas as esperanças e de todas as compreensões. Até no facies se nota a diferença. Todos nós já temos conhecimento de muitos músicos e de muitos musicais, pois reparem: se evocamos um músico, embora todos os músicos desse mundo já muito que tenham rido e sorrido para nós, nós os evocamos sérios. Ao passo que os musicais, estão sempre sorrindo. É o pacifismo, senhores. É a cortesia e a desistência da guerra, do profundo pensamento de Confúcio. Reparem: Beethoven é um músico, Mozart é um musical. E acho que jamais se explicou melhor a diferença entre esses dois batutas.

E se então nos dilatarmos pelo sentido da prestigiosa palavra, e pensarmos que se diz de um riso de criança, que é "musical", e, indo mais longe, que de certas mulatas ou rainhas do nosso peito, dizemos que têm o andar "musical": sejamos todos musicais!

Não se imagine porém que estou em divagações de mera gratuidade, não. Tudo isto me veio de violentas indignações que vêm roncando em mim e agora estão explodem não explodem, por ter eu recebido a excelente edição do Guarani, na tradução do poeta Paula Barros.[2] Ora, além das paciências da idade, me vejo num momento de meu destino e de certos descalabros culturais, em que faço questão de não explodir. Pura questão de cortesia, aliás... Foi isso, foi isso sim, a indignação diante de atos de fatuidade e incompreensões andazes, que me obrigou a repensar o meu Confúcio, readquirir a grave cortesia, e evitar o predomínio do Eu, por meio do "sejamos" todos nós.

Mas quem se recompôs fui eu. Estou mais musical agora. E enquanto as óperas sibilam e gargarejam, seus addios e t'mos de exóticas linguagem; enquanto os mais chamejantes disfarces verdeamarelizam coisas que, franqueza, nem nacionais precisavam ser (por inócuas); mas é só dar mais um passo e chamaremos de alagoana a Standard Oil e ficaremos todos muito satisfeitos com o petróleo mexicano do Brasil, ora, mas onde é que eu ia com esta frase? [3]Ah!... enquanto se mercadejam máscaras de vários feitios, como escrevi acima, eu, do meu amigo Paula Barros, tenho quase piedade.

É um musical, este Paula Barros. Musical pelos gostos de música, pelo que promete e pela cortesia. Dá-se a trabalhos heróicos, com um carinho, uma inteligência, um sonho dignos de melhor aplicação. Traduz o Guarani que se consegue publicar, para que Peri e o chefe dos Aimorés possam cantar em português legítimo.[4] E já tem pronta a produção do Escravo.

Percorro a tradução, ouvindo gargarejar lá fora um "Rigoletto rigolô". Tradução acuradíssima. Textos vulgares a que o nosso poeta, já agora por pura cortesia como o libretista, se esforça por nobilitar. A música foi ritmicamente respeitada com idolatria. Raros os momentos em que discordo da solução nacional, poucos também os que parecem menos felizes.[5] É realmente uma obra de grande valor que não justificará nunca mais um Guarani cantado em italiano, por companhias nacionais.

Mas sejamos corteses, amigo Paula Barros. Deixemos que as ambições e as vaidades se realizem em plena paz. Quero dizer: ao deus dará.

 

                                                                              MÁRIO DE ANDRADE

            Revista do Brasil, 3a. fase, ano 1, nº. 2, agosto 1938, p.206-208.



[1]              Na biblioteca de Mário de Andrade sabe-se que ele lê Confúcio nas obras: KHONG-TSEU. Les livres de Confucius, trad. Pierre Salet, Paris, Payot, 1923. ; La musique et les philosophes chinois, La Révue Musicale:, Paris, Henry Prunières, v. VI, nº. 4, fev.1925. p.136-9. ; Musique orientale et musique occidentale, Les Mois - synthèse de l'activité mondiale:, nº. 20, Paris, Maulde et Renou, ago.1932. p.250.

                Voltada, sem dúvida, para algo mais espiritual do que racional, a música, na maneira como Confúcio e em geral toda a filosofia do Oriente a concebe, tem sua importância pelos sentimentos que é capaz de despertar nos homens. Ela, em seu valor próprio de objeto, isto é, de obra de arte, não exerce poder nenhum; muito pelo contrário: só tem seu valor reconhecido de acordo com o tipo de sentimento capaz de provocar no indivíduo. E, talvez, esteja aqui a explicação para o que Mário de Andrade chamou de "exclusão do domínio dos sons". Inteiramente diferente da nossa, a música oriental não precisa passar pelas faculdades do intelecto - conhecimento de harmonia, melodia e ritmo, por exemplo -  pois atua diretamente na sensibilidade de cada um. Para Confúcio, especificamente, a música (como os outros rituais) é capaz de unir o coração dos homens, levando-os ao caminho da verdadeira sabedoria, ou seja, da evolução humana. No entanto, o "sábio china" também adverte para o perigo que ela, mal empregada, pode causar: se totalmente nas mãos do povo, sem qualquer influência do Estado, é capaz de desestruturá-lo por completo; daí a necessidade de se ter, na China, um órgão responsável pela produção musical da nação, estipulando, dessa forma, o que estaria e não estaria acessível à população.

                Mário de Andrade voltará ao assunto no ano de 1943, quando da estréia de sua coluna Mundo Musical, no jornal paulistano Folha da Manhã. No artigo "O maior músico", conta a história de um chinês que, na prática, sabia pouca música, mas que se transformou em modelo do maior músico por possuir "canções humaníssimas", ou melhor, devido à sua capacidade de unir verdadeiramente o coração dos homens através do sacrifício e da submissão de sua arte a uma causa maior. Nas palavras de Mário, devido à sua compreensão de que "em certos momentos decisivos da vida, a arte tem que voluntariamente servir". (ANDRADE, M. Música Final: Mário de Andrade e sua coluna jornalística Mundo Musical. Ed. anotada, de Jorge Coli; precedida de ensaio. Campinas, Ed. Unicamp, 1998. p.29-33)

[2]              Foram encontradas no acervo de Mário de Andrade exemplares das três edições da tradução d'O Guarani, todas com dedicatória de Paula Barros: a) GOMES, Antônio Carlos. O Guaraní - ópera baile em 4 atos; versão e adaptação brasileira de C. Paula Barros/original italiano Antonio Scalvini; Rio de Janeiro, 1937: "Ao fulgido Mario de Andrade - / - com a fervorosa cordialidade de / C. Paula Barros / 20/5/37"; b) GOMES, A . Carlos. O Guaraní - ópera baile em 4 atos; versão e adapt. brasileiras de C. Paula Barros/orig. italiano Antonio Scalvini. Rio de Janeiro; Imprensa Nacional, 1938.: "Com a grande admi - / ração e o sincero / afeto de / C. Paula Barros / 30/04/38" ; c) GOMES, Antônio Carlos. O Guaraní - ópera baile em quatro atos inspirada no romance "O Guaraní" de José de Alencar­; versão e adapt. musical de C. Paula Barros, segundo o original italiano de Antonio Scalvini; Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, 1938.: "A Mário de Andrade - / - com a mais alta e fervorosa / admiração e a devotada amizade / de / C. Paula Barros. / Rio. / 20 - 5 - 938" .

 O exemplar da segunda edição merece destaque por ter sido impresso especialmente para Mário de Andrade, incluindo a partitura da ópera.

[3]              Em 1938, o México, então administrado por Lázaro Cárdenas, nacionalizou as companhias de petróleo americanas e inglesas, após já ter feito o mesmo com as ferrovias de propriedade estrangeira. Ponto culminante de uma aguda disputa entre as companhias petrolíferas e o governo mexicano, tal fato - interpretado como ato de independência econômica - agravou ainda mais a relação política dos Estados Unidos com o país latino-americano.

[4]              Essa tradução d'O Guarani foi representada, pela primeira vez, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, na noite de 20/05/1937, em récita de gala. Porém, já havia sido apresentada ao público em 07/05/1935 pelo presidente da Academia Brasileira de Letras, sendo cantada, em oratório, sob a regência de Francisco Braga.

[5]              Na Revista do Brasil: "poucas também os que parecem menos felizes".

 

Essa e outras crônicas estão na coletânea Sejamos Todos musicais: as crônicas na 3ª fase da Revista Brasil, por Mário de Andrade, notas e introdução por Francini Venâncio de Oliveira que está disponível para compra neste link.

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