CARNAVAL 2017

Vetar marchinhas clássicas não deixa de ser censura, diz especialista

Pesquisadora na área de música popular e identidade nacional, professora da Unesp defende respostas mais criativas contra letras 'politicamente incorretas'

A polêmica já vem de outros carnavais. O veto contra marchinhas consideradas machistas, racistas e homofóbicas voltou a ser discutido nos blocos de rua e nas redes sociais neste ano. Na última semana, o assunto virou pauta até mesmo no Washington Post, um dos principais jornais dos Estados Unidos, que publicou uma reportagem em seu site repercutindo as mudanças “politicamente corretas” na maior festa popular do Brasil.

Foto: Creative Commons

'Como enquadrar um gênero que trabalha com a sátira, tornando o sério risível, dentro do politicamente correto?', pergunta Tânia Costa Garcia

É um fato incontestável que letras como “olha a cabeleira do Zezé, será que ele é?” ou “Maria Sapatão” usam a discriminação de gênero para fazer sátira. Em 2017 (ainda bem) é cada vez menor o número de pessoas que acham isso engraçado ou motivo de piada.

Mas proibir a execução das músicas é um ato político eficiente para lutar contra o preconceito?

“Talvez fosse mais criativo construir respostas para estas marchinhas, uma espécie de segunda parte. Ou alternar com outras que façam o discurso contrário. Dar uma resposta criativa. Mas simplesmente cortar as marchinhas clássicas porque são politicamente incorretas... Não deixa de ser uma forma de censura”, avalia a historiadora Tânia Costa Garcia.

Foto: Fernando Maia/ Riotur/ Flickr

'Talvez fosse mais criativo construir respostas e não simplesmente cortar as marchinhas clássicas', diz especialista

Professora da Unesp (Universidade Estadual Paulista), Garcia é livre docente em História da América e tem experiência com pesquisas nas áreas de música popular, arte engajada, identidade nacional e meios de comunicação.

“A marchinha trabalha a ambiguidade dos  sentidos, a crítica direta ou não, portanto ela pode ser política já que, de forma risível, questiona os valores morais, os costumes e até mesmo as relações de poder numa sociedade”, explica a historiadora, que é uma das organizadoras do livro Música e Política: um olhar transdisciplinar (Alameda Editorial, 2013).

Segundo a especialista, as marchinhas são “crônicas do cotidiano” e retratam, em suas letras, os valores morais e culturais não só do determinado período em que foram compostas, mas também aspectos mais duradouros de nossa cultura como, infelizmente, a discriminação de gênero.

“Esta é uma realidade que está aí. Vamos responder de forma criativa, fazer letras que coloquem estas questões em pauta e não simplesmente censurar”, ressalta.

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