ENTREVISTA | MARCO AURÉLIO DOS SANTO

O passado escravista esquecido do Vale do Paraíba

Entrevista com o historiador, Marco Aurélio dos Santos, sobre seu novo livro “Geografia da Escravidão”

O Vale do Paraíba já foi uma região de extrema importância na geopolítica brasileira. Situada na intersecção entre os estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo, a região é sempre lembrada pelo enriquecimento através do plantio pioneiro de café. Entretanto, raramente, lembra-se do intenso uso do trabalho escravo nessas fazendas.

“Havia pessoas que tinham mesmo saudades do passado de pujança gerada pelo café. Via que muitas pessoas esqueciam que diversas cidades do Vale do Paraíba viveram um passado ‘cafeeiro e escravista’”, relata o pesquisador Marco Aurélio dos Santos em entrevista para o Painel Acadêmico.

Em seu livro, Geografia da escravidão no Vale do Paraíba cafeeiro: Bananal, 1850-1888, publicado em 2016 pela Editora Alameda, Marco Aurélio dos Santos estuda as relações entre o espaço geográfico e as relações de poder na sociedade escravocrata. “Para mim, foi importante perceber o modo como, nos depoimentos, aparecia a questão dos usos dos espaços. Perceber como a organização dos espaços era ao mesmo tempo um instrumento de controle, mas que poderia se transformar em meio de resistência.”

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Confira abaixo a entrevista na íntegra:

Painel Acadêmico: Primeiramente, gostaríamos de saber como surgiu o interesse em pesquisar a escravidão no Vale do Paraíba, especificamente nas décadas em que o tráfico de africanos já era ilegal até a proclamação da Lei Aurea. Por que seguir por essa área de pesquisa?

Eu tive, de certo modo, um interesse pessoal. Sempre viajei para as cidades do Vale. Nessas viagens, eu percebia um conhecimento superficial sobre o passado cafeeiro. Havia pessoas que tinham mesmo saudades do passado de pujança gerada pelo café. Outros até mesmo se orgulhavam de homens que construíram sua riqueza com base no café. Via que muitas pessoas esqueciam que diversas cidades do Vale do Paraíba viveram um passado “cafeeiro e escravista”. Eu ouvia histórias e a escravidão não aparecia muito na fala das pessoas. Quando a escravidão era lembrada, ela estava em relatos fantasiosos, como o de uma senhora cruel de Bananal que matou e mandou enterrar uma escrava na porta da cozinha por ciúme. Nunca encontrei nenhum relato como esse em minha pesquisa. Esse relato pode ter o mérito de revelar a crueldade desmedida da escravidão na pessoa de uma senhora, esposa de um grande fazendeiro. Mas histórias desse tipo para mim diziam pouco sobre a escravidão. Eu percebia que elas eram contadas para turistas que, por vezes, frequentavam essas cidades históricas. 

Painel Acadêmico: De que forma a perspectiva apresentada pela sua pesquisa, que leva em conta aspectos geográficos e espaciais, inova os estudos historiográficos sobre o processo de escravidão no Brasil?

Em primeiro lugar, eu fiz um trabalho de caráter interdisciplinar, reunindo as áreas de História, Geografia e Arquitetura, nesse último caso, a arquitetura rural das fazendas cafeeiras. Isso não é propriamente novo no meio historiográfico. Mas, por incrível que pareça, não é algo comum. Parti das orientações metodológicas da História Nova e de um geógrafo norte-americano chamado Edward W. Soja para construir minha pesquisa. Esse geógrafo criticou uma epistemologia essencialmente histórica das ciências humanas e propôs maior diálogo entre a História e a Geografia. Suas conclusões a esse respeito são instigantes e estão em um livro chamado “Geografias pós-modernas: a reafirmação do espaço na teoria social crítica”. Também foram importantes as conclusões de Michel Foucault, especialmente aquelas contidas em seu livro “Vigiar e Punir”. As noções de “espaço disciplinar”, “poder positivo” e “mecânica do poder”, foram de fundamental importância para que eu pudesse realizar a leitura das fontes documentais, especialmente dos depoimentos nos processos criminais.

Em minha pesquisa, contudo, o crime propriamente dito teve um caráter apenas circunstancial. Procurei ter um olhar para a cultura material e neste ponto eu compreendi o espaço material das fazendas como um elemento da cultura material. Para mim, foi importante perceber o modo como, nos depoimentos, aparecia a questão dos usos dos espaços. Perceber como a organização dos espaços era ao mesmo tempo um instrumento de controle, mas que poderia se transformar em meio de resistência. Meu ponto de partida foi o par de conceitos “controle/resistência”. A partir daí, procurei perceber como escravos, prepostos e senhores usavam o espaço para fins específicos.

Outro ponto foi que eu procurei não circunscrever o município de Bananal em seu território. Meu trabalho foi de imersão em uma dada realidade, mas também foi de compreensão dessa realidade nos momentos de estabilidade e de crise da escravidão no Brasil. Eu termino meu trabalho e prevejo uma possível pesquisa a ser feita no futuro: como em uma nova realidade (o Brasil República), com novas relações de trabalho, aquilo que eu chamo de espacialidade das fazendas se transformou; como o espaço vai ser usado pelos sujeitos com uma nova realidade trabalhista que é a do período pós-escravidão. E isso serve para as fazendas de café do Vale e do Oeste paulista, que tiveram um arranjo espacial muito semelhante.

Atualmente, meu interesse é por um assunto pouco pesquisado no Brasil: a migração no século XIX. Pesquiso especialmente a migração de chineses e indianos e os fatores que levaram a um crescimento absurdo das movimentações de pessoas na economia mundial capitalista do século XIX. Trabalho com o tráfico de coolies, com rotas migratórias, com a importância de diferentes formas de trabalho compulsório. Por exemplo, em Cuba, uma sociedade marcadamente escravista, aportaram cerca de 120.000 chineses num espaço de cerca de 28 anos. Eles trabalharam ao lado de escravos, muitos de origem africana, e sofreram os rigores do trabalho compulsório na ilha. Acontece que muitas vezes, salvo raras exceções, o trabalho de chineses em fazendas de açúcar em Cuba é negligenciado. Também pesquiso sobre a mão de obra chinesa no Peru, México, Canadá, Estados Unidos e a de indianos nas ilhas Maurício, por exemplo. Acontece que esse trabalho sobre as migrações nasceu da pesquisa que realizei em Bananal. Em meu livro Geografia da escravidão no Vale do Paraíba cafeeiro: Bananal, 1850-1888, cito casos de chineses que trabalhavam e foram roubados por escravos. Há um grande número de processos criminais envolvendo chineses e iniciei uma pesquisa. Daí pude constatar, que o trabalho dessas pessoas foi de fundamental importância em diversos locais do mundo no século XIX e início do século XX.

Painel Acadêmico: Como foi o processo de pesquisa? Normalmente, quando se pensa em pesquisa da área de História, imagina-se a consulta de acervos e documentos, no seu caso, entretanto, o projeto exigiu outros tipos de consulta. O quanto desta “geografia da escravidão” ainda pode ser vista, ou até, visitada, atualmente no Vale do Paraíba?

Eu acredito que todo processo de pesquisa tem de lidar com a solidão. Vivi a experiência de ficar oito horas sozinho no arquivo. E, no meu caso, ocorreu um agravante: o arquivo que eu pesquisei, localizado em Cruzeiro, São Paulo, está completamente abandonado e se deteriorando. Esses documentos, até onde eu sei, estão sob a guarda da prefeitura de Cruzeiro. Uma preciosa documentação de diversos municípios do Vale do Paraíba paulista (Cruzeiro, Bananal, São José do Barreiro) pode se perder a qualquer momento. Em alguns casos, a documentação foi seriamente danificada. Por exemplo, muitos processos criminais da década de 1850 foram molhados. Duvido que possa existir alguma possibilidade de recuperação.

Mas a minha pesquisa agregou também um amplo conjunto de fontes documentais que serviram para inserir a localidade de Bananal no contexto mais amplo de crise da escravidão e de crise política do Império do Brasil. Por isso, visitei o Arquivo Público do Estado de São Paulo e fiz muitas pesquisas pela internet. Hoje em dia, o trabalho do pesquisador está muito facilitado porque existe uma infinidade de documentos digitalizados, inclusive no site da Biblioteca Nacional. Esse é um serviço que diversas instituições no Brasil e no mundo prestam e que facilita o trabalho de pesquisa. Usei muito as redes sociais e consegui muita coisa.

Sem dúvida, os processos criminais foram a principal fonte de pesquisa para que eu pudesse entender a “geografia da escravidão” nas fazendas de café. Porém, procurei ampliar as fontes para descobrir e analisar diversas faces da vida política, social e econômica desse importante município cafeeiro. Esse entrecruzamento de fontes foi tão produtivo que eu publiquei artigos sobre a dinâmica política do Império do Brasil e o abolicionismo em Bananal. Consegui demonstrar os gravíssimos conflitos políticos decorrentes de desavenças familiares e da ação abolicionista de partidários liberais.

É possível ver sim a “geografia da escravidão” ainda hoje nas fazendas de café remanescentes. Eu mostro isso em meu trabalho. Muitos dos edifícios que compunham uma fazenda estão hoje destruídos. Mas é possível ver, nas casas-grandes, nas senzalas, no espaço do antigo terreiro, nos morros que abrigam hoje uma grama rala, uma mecânica de poder que visava ao controle e à exploração da mão de obra. Explorar todo esse potencial para se entender melhor o passado escravista brasileiro seria uma interessante estratégia de turismo e de conhecimento do passado escravista.

Painel Acadêmico: Recentemente uma notícia sobre uma fazenda que proporciona um “dia de sinhá” ganhou grande repercussão na mídia (veja aqui) pela falta de consciência história dos idealizadores do projeto turístico. Como podemos entender esse fenômeno de falta de conhecimento e de desinteresse pelo passado escravista?

Essa atitude é, no mínimo, bizarra. O proprietário não foi muito feliz nas suas escolhas. Ele deveria repensar seu programa de visitas para explorar todas as facetas do passado. Existe aí um perigo muito grande: o perigo de termos uma história única. Todos sabem que o passado é um campo de lutas. E esse programa de visitas ultrapassa a questão da liberdade de expressão.  Existe uma diferença brutal entre a liberdade de expressão e o abuso da liberdade de expressão, conforme já expôs o historiador Antoon De Baets. Negar a crueldade da escravidão é um abuso da história, assim como negar o Holocausto.

Esse fenômeno da falta de conhecimento pelo passado escravista, e pela crueldade que foi o sistema de trabalho escravo no Brasil, eu pude perceber, por vezes, visitando os municípios do Vale e verificando que algumas pessoas apresentavam certo saudosismo de um passado que muitas vezes foi muito mais cafeeiro do que escravista. A solução é enfrentar esse problema de falta de conhecimento e de desinteresse, que beira à superficialidade, com educação, com profissionais de qualidade que possam esclarecer o passado. Disseminar o conhecimento, explorar o assunto nas escolas, sempre procurar uma melhoria do conteúdo dos livros didáticos, rediscutir programas escolares e currículos. Claro que tudo isso não é simples e, além de tudo, é um processo longo. Especialmente em um país como o nosso que tem o currículo escolar moldado pelos vestibulares e pelo ENEM.

As universidades têm um papel fundamental nesse processo. Por exemplo, os cursos de Turismo podem melhorar o ensino de História e do nosso passado escravista. Meu livro, por exemplo, é essencial para se conhecer o modo como funcionava o poder, as relações sociais em fazendas de café, os usos do espaço de plantação. Seria muito útil para um agente de Turismo que estivesse trabalhando com as fazendas do Vale. Tenho certeza que um guia que fez faculdade de Turismo poderia se especializar em história do Brasil, em suas diferentes perspectivas, para trabalhar com informações mais precisas. Como eu disse anteriormente, é possível ver a “geografia da escravidão” ainda hoje nas fazendas de café. É possível tornar as fazendas remanescentes um espaço museológico muito mais rico e condizente com uma verdade histórica do que esse programa de vivenciar a experiência de um escravista em uma tarde ensolarada.

Painel Acadêmico: Quanto o passado escravocrata ainda reflete no presente da sociedade brasileira?

Nós vivemos numa sociedade em que o preconceito é velado. Mas muitos daqueles que têm preconceito e antes xingavam na frente da televisão hoje se manifestam, às vezes anonimamente, vociferando seu ódio nas redes sociais e na internet. O racismo e seu duplo, o pensamento do superior/inferior, tem um grande espaço para se manifestar.

Eu entendo que o Brasil paga, ainda hoje, uma grande dívida social que é oriunda da escravidão. É possível ver esse passado no paternalismo do Estado brasileiro, à Vargas. Paternalismo do senhor sobre seus escravos e paternalismo do Estado. Vejo também uma dívida social e política na ação de grupos políticos, famílias, que, em vários Estados, se perpetuam no poder. No século XIX, a exclusão eleitoral da maioria da população facultava o domínio de uma elite nas Províncias. Isso pode ser percebido ainda hoje em diferentes lugares e em candidatos de partidos de diferentes espectros políticos.  

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