TELEVISÃO

As séries estão matando o cinema?

Especialista e autor do livro “Em Tempo Real”, Cássio Starling, fala ao Painel Acadêmico sobre as mudanças no entretenimento

Nos últimos anos, a televisão americana e, por conseguinte a Netflix, tem vivido o que os críticos chamam de “Nova Era de Ouro”. As séries tomaram o holofote com audiências invejáveis e produções extravagantes, enquanto as estatísticas mostram quedas vertiginosas no faturamento das salas de cinema.

"As séries não reinventaram a roda. O que o sucesso contemporâneo delas revela é a capacidade de expressar a agenda do presente de modo mais imediato e com estruturas narrativas, digamos, viciantes", explica o crítico de televisão Cássio Starling.

Conversamos com o especialista para entender melhor o fenômeno do aumento da popularidade desse tipo de narrativa. As séries são analisadas por Starling em seu livro “Em Tempo Real”, publicado pela editora Alameda. O título está disponível na loja virtual que pode ser acessada por este link. 

Confira abaixo a íntegra da entrevista:

Painel Acadêmico - Sempre que uma nova mídia surge e ganha usuários, decretam o fim da mídia que era popular anteriormente. A televisão era a sentença de morte do rádio, o cinema significava o fim do romance escrito. Hoje, com o crescimento da audiência das séries, preveem o fim do cinema e das narrativas longas. Essa previsão está correta? Qual a influência da popularidade das séries nos outros produtos de mídias e na indústria cultural?

Cássio Starling - Para verificar que a previsão da morte das mídias não está correta basta constatar que todas continuam vivas e influentes, pois se transformaram, se adaptaram aos novos contextos. O público que ouve rádio também assiste a ficções no cinema e na TV. Quem assiste muito a séries baixando na internet ou assinando a Netflix também vai ao cinema nem que seja para ver em primeira mão os filmes indicados ao Oscar e os maiores blockbusters. Quem só gosta de programas de humor na TV também quer ver “Minha Mãe É uma Peça 2” para comentar com os amigos etc. Podemos enxergar nessa dinâmica um esquema evolutivo em que as mídias não eliminam as outras para poder existir, mas se integram, se reforçam.

Em relação às séries e à popularidade delas atualmente, é preciso lembrar que a narrativa longa e estruturada em torno de reviravoltas da trama existe, pelo menos, desde a ascensão do romance. A estrutura folhetinesca, digo continuada, dessa ficção passou do romance para o rádio, nos anos 1920, migrou para a TV, nos anos 1950, não sem antes ter formado boa parte do público juvenil do cinema nos anos 1930 e 1940.

Ou seja, as séries não reinventaram a roda, o que o sucesso contemporâneo delas revela é a capacidade de expressar a agenda do presente de modo mais imediato e com estruturas narrativas, digamos, viciantes.

Por isso que, quando publiquei o livro, cuja abordagem hoje já está defasada, adotei o título “Em Tempo Real”, para indicar esse poder das séries, graças a suas especificidades de escrita e de produção, de captar o contemporâneo. Poder, portanto, de influenciá-lo de modo mais direto que o cinema, que exige um cronograma muito mais largo entre a confecção do roteiro, a produção e a pós-produção.    

Painel Acadêmico - Há poucos anos, quando um ator de cinema passava a trabalhar para a TV era sinal de um declínio na carreira, hoje grandes atores e diretores escolhem trabalhar em séries. Por exemplo, no ano passado (2016) o ator francês Gérald Depardieu protagonizou uma série para o serviço de streaming Netflix, no mesmo ano o aclamado diretor Woody Allen produziu e dirigiu uma série para o Amazon Prime Video, concorrente da Netflix. Podemos dizer que esse estigma com as produções televisivas acabou?

Foto: Ator Kevin Spacey em House of Cards/ Reprodução Netflix

Cássio Starling - Trata-se de uma dinâmica do sistema de valores da indústria. Antes, a TV ocupava uma posição inferior na hierarquia porque sua linguagem e estética eram vistas como menos sofisticadas em comparação com as do cinema, que havia alcançado seu apogeu de elaboração na década de 1960 e de evolução tecnológica a partir dos anos 1970.

A partir do momento em que a TV se abriu a temáticas e linguagens, ou seja, se diversificou, seu público passou a valorizar a complexidade e isso agregou prestígio. A presença de estrelas no elenco e na direção (o que vem, pelo menos, desde o nome de David Lynch em “Twin Peaks”, que é de 1990!) revela um efeito Tostines: foi a sofisticação das séries que atraiu esses profissionais ou é o renome deles que valoriza essas produções? Não se pode perder de vista que, paralelamente à transformação das séries nesse período, o cinema se tornou uma mídia acomodada em termos de linguagem, o que também funciona para atrair os profissionais movidos por inquietação temática e formal, ou seja, artistas.

Painel Acadêmico - A Netflix, e o Amazon Prime Video, são serviços de streaming que começaram com o objetivo de disponibilizar filmes online e hoje são grande produtoras de séries. Ao mesmo tempo, grandes canais como a HBO continuam investindo no formato com grandes produções, como Game of Thrones sucesso de público e crítica. Qual o papel dessas novas empresas na popularização das séries? E qual lugar os canais televisivos tradicionais ocupam atualmente?

Cássio Starling: Há estudos históricos que demonstram que a transformação da TV começou com a entrada da HBO no ecossistema audiovisual nos EUA em meados da década de 1970. Foi quando os limites do que podia ser oferecido à audiência em termos de conteúdo e de linguagem começou a ser “transgredido”.

É como se a “TV de qualidade”, um conceito discutível, mas útil, tivesse substituído o que o cinema da Nova Hollywood ousou conquistar naquela década.

O sucesso crescente do modelo HBO fez emergir a concorrência nas décadas posteriores e passou a ser imitado, com sucesso, pelas redes da TV aberta nos EUA, num esforço semelhante ao que vemos acontecer hoje com a Globo no Brasil.

A “viralização”, como se diz, só acontece, de fato, a partir de meados dos anos 1990, com a internet, que introduz a possibilidade de baixar produções sem ter de esperar a TV a cabo e os canais abertos adquiri-las. A expansão do streaming e do vod hoje é incontrolável, o que pode, certamente, ameaçar o anterior espaço de mercado ocupado pelas TVs pagas e extinguir mídias como o DVD e o bluray, que seguirão o destino do VHS.

Essa evolução, no entanto, dificilmente deve eliminar a TV aberta, o cinema, o rádio e o romance, apenas vai disputar mais tempo da atenção. Pois cada um tem seu modo particular de narrar e de cativar seu público. Desde que não se pretenda atingir a massa, pois a configuração do consumo hoje passa pelos nichos.

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