ENTREVISTA

'Nos anos 70, esquerdas não estavam tão estigmatizadas como hoje'

Autor do romance 'Nós, que amamos a revolução', jornalista Américo Antunes compara o movimento estudantil que se levantou contra a ditadura militar com o papel dos jovens que, atualmente, ocupam escolas em todo país contra o corte de verbas para Educação

O cansaço que toma conta do corpo após a caminhada de quilômetros e quilômetros em uma manifestação. A adrenalina que corre nas veias ao discursar palavras de ordem, a plenos pulmões. O medo de ser capturado durante uma reunião clandestina. A angústia de ver amigos presos. O amor pela revolução. Fatos políticos já foram contados minuciosamente em milhares de páginas por grandes historiadores, mas muitas vezes o rigor científico-metodológico transforma os livros de história em descrições frias, distanciadas do sentimento dos atores envolvidos na luta contra a ditadura militar brasileira.

Não é o caso de “Nós, que amamos a revolução”, uma tentativa pioneira do jornalista Américo Antunes de traduzir, por meio de um romance, o espírito dos jovens que participaram do movimento estudantil que, nos anos 70, ousou sair às ruas e enfrentar o regime antidemocrático que governava o país.

“Talvez até mesmo por ser jornalista, a história e o romance histórico sempre me fascinaram. E a ideia do livro surgiu desse fascínio, fundamentada na constatação de que temos poucos registros documentais da efervescência e da importância dos movimentos estudantis em 1977 para o avanço da luta democrática contra o regime militar. Sob a forma de romance, creio que nenhum. Então, juntei as duas coisas em um esforço de reportar os fatos políticos daquele período histórico singular em meio a uma narrativa romanceada, que tenta ecoar a voz e o espírito de uma geração que ousou sair às ruas em plena ditadura”, explica Antunes.

Misturando fatos investigados em pesquisa e lembranças daquele período do qual participou ativamente, como diretor do DCE (Diretório Central dos Estudantes) da PUC (Pontifícia Universidade Católica) e presidente da UEE-MG (União Estadual dos Estudantes de Minas Gerais), o jornalista tenta reproduzir as crenças, desejos e angústias dos estudantes que lutavam pela volta da democracia. Tudo a partir de um romance ficcional ambientado em um cenário “real”, com passagens relatadas pelas várias vozes das personagens que representam a diversidade do movimento estudantil da época.

“Em todo movimento social, no passado ou no presente, a diversidade é sempre um denominador comum. E a ânsia libertária se manifestou em visões de mundo, tendências e perspectivas diferentes. E é exatamente essa diversidade que o romance busca capturas com as várias vozes”, explica o autor.

O romance, costurado por eventos históricos, acontece entre os anos de 1977 e 1979, marcados pelas prisões de mais de dois mil estudantes em São Paulo e Minas Gerais por conta da repressão ao III Encontro Nacional dos Estudantes.

Para Antunes, o protagonismo e a espontaneidade dos jovens daquela época pode ser comparado com o movimento nacional de estudantes que, atualmente, estão mobilizados em milhares de escolas ocupadas em todo Brasil contra a reforma do ensino médio e a PEC do Corte de Gastos proposta por Michel Temer que, segundo estudo de consultoria da Câmara dos Deputados, pode resultar em prejuízos acima da casa dos R$ 20 bilhões anuais para a Educação brasileira. Segundo o jornalista, no entanto, a grande diferença é que, em plena ditadura militar, as esquerdas eram menos estigmatizadas do que hoje.

“Creio que o protagonismo, a espontaneidade e o efeito surpresa são as maiores semelhanças. Aliás, em vários momentos da história do Brasil e do mundo coube aos jovens a linha de frente da luta contra o retrocesso e o obscurantismo e pelas liberdades, como em maio de 68 e em 77. Entre as esquerdas, polemizava-se, inclusive, sobre o papel do movimento estudantil como banda de música e abre-alas do movimento popular e revolucionário. Quanto às diferenças, talvez a maior seja hoje uma certa aversão ao engajamento político. Nos anos 70, as esquerdas não estavam tão estigmatizadas como hoje”, afirma.

Leia, abaixo, a íntegra da entrevista concedida por Américo Antunes ao Painel Acadêmico.

Painel Acadêmico: como surgiu a ideia de criar um enredo fictício dentro de uma “história” real?

Américo Antunes: talvez até mesmo por ser jornalista, a história e o romance histórico sempre me fascinaram. E a ideia do livro surgiu desse fascínio, fundamentada na constatação de que temos poucos registros documentais da efervescência e da importância dos movimentos estudantis em 1977 para o avanço da luta democrática contra o regime militar e, sob a forma de romance, creio que nenhum. Então, juntei as duas coisas em um esforço de reportar os fatos políticos daquele período histórico singular em meio a uma narrativa romanceada, que tenta ecoar a voz e o espírito de uma geração que ousou sair às ruas em plena ditadura.           

Painel Acadêmico: como a história da repressão e da resistência é reconstituída no romance?
Américo Antunes: tive o privilégio de participar do movimento estudantil naqueles anos e, com certeza, o fio da memória foi essencial na construção da narrativa, das visões dos personagens e seus diálogos. Aliás, fiz as primeiras anotações dez anos após aqueles eventos, mas o manuscrito – datilografado em uma máquina de escrever Remington – ficou perdido por outros dez. Quando um amigo encontrou o manuscrito e o reli, percebi que era preciso costurar melhor o curso do romance com os eventos históricos e aí veio a fase de pesquisa. Optei também por concentrar a estória no período 1977/1979, da repressão ao III Encontro Nacional dos Estudantes, em Belo Horizonte e São Paulo, ao Congresso de reconstrução da UNE, realizado em Salvador, e o resultado é que “sobraram” registros para mais um livro, pelo menos até a redemocratização do País em 1985.            

Painel Acadêmico: por que construir o romance a partir de várias vozes?
Américo Antunes: Em todo movimento social, no passado ou no presente, a diversidade é sempre um denominador comum. E a ânsia libertária daquele período de extrema politização do movimento estudantil, que aliou a contracultura ao ativismo militante, naturalmente se manifestou em visões de mundo, tendências e perspectivas diferentes. E é exatamente essa diversidade que o romance busca capturas com as várias vozes...

Painel Acadêmico: como foi definido o título do romance? É uma menção ao livro “Nós que amávamos a revolução”, de Fernando Gabeira?
Américo Antunes: 
de certo modo, sim, tem referência no título do livro do Gabeira. No entanto, o tempo do verbo amar muda tudo, dá outro sentido à narrativa. No meu livro, os personagens amam a revolução, embora cada qual com sua visão sobre como ela poderá acontecer. Não há um olhar de fora e do alto vaticinando ou julgando quem está certo ou errado ou mesmo fazendo autocrítica. Procurei tão somente ser fiel às apostas pessoais e coletivas que floresceram naquele momento de intensa efervescência cultural e de participação política da juventude.

Painel Acadêmico: atualmente, estudantes, secundaristas e universitários, são os protagonistas dos protestos contra o governo federal. Quais são as principais semelhanças e diferenças do movimento estudantil de agora e dos anos 70?
Américo Antunes: 
creio que o protagonismo, a espontaneidade e o efeito surpresa são as maiores semelhanças. Aliás, em vários momentos da história do Brasil e do mundo coube aos jovens a linha de frente da luta contra o retrocesso e o obscurantismo e pelas liberdades, como em maio de 68 e em 77. Entre as esquerdas, polemizava-se, inclusive, sobre o papel do movimento estudantil como banda de música e abre-alas do movimento popular e revolucionário. Quanto às diferenças, talvez a maior seja hoje uma certa aversão ao engajamento político. Nos anos 70, as esquerdas não estavam tão estigmatizadas como hoje.              

Painel Acadêmico: recentemente, uma decisão judicial do Distrito Federal autorizou que a PM local usasse técnicas semelhantes a métodos de tortura para desocupar uma escola. Assim como nos anos 70, é possível dizer que a repressão contra o movimento estudantil tende a aumentar nos dias de hoje?
Américo Antunes: não vivemos em uma ditadura como nos anos 70, mas os atos de exceção contra as liberdades democráticas e de manifestação, que eram facultados aos militares de plantão, hoje competem tristemente a setores do judiciário, executados por meio das “militarizadas” polícias militares. Ao arrepio da Constituição Cidadã de 1988, é de se temer, portanto, que juízes como o do DF legitimem o recrudescimento da repressão pelo país a fora, mas é bom lembrar que em 77 a juventude surpreendeu o governo militar e não saiu das ruas, ganhando o apoio da sociedade brasileira.

Serviço

O romance Nós, que amamos a revolução será lançado em Belo Horizonte (MG) no próximo dia 22. O evento de lançamento acontecerá na Casa dos Contos, localizada na Rua Rio Grande do Norte, 1065, no Bairro Savassi, a partir das 19 horas.

Ficha Técnica

Livro: Nós, que amamos a revolução
Autor: Américo Antunes
Edição: Alameda (11 3012-2403)
Preço: R$ 58
ISBN: 9 788579 394027
Formato: 23x15,9 – Brochura – 0,315 kg

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(*) As imagens exibidas nesta matéria estão presentes no livro e foram retiradas do arquivo do jornal O Estado de Minas.

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