'BÍBLIA DO NAZISMO'

Bancas de SP comercializam ‘Minha Luta’, autobiografia de Hitler, sem registro oficial

Publicação não traz referências como número ISBN e ficha catalográfica, além de sequer identificar editora responsável pelo livro

Nos últimos 15 dias, as bancas da cidade de São Paulo passaram a receber uma mercadoria, no mínimo, controversa: o livro Minha Luta (Mein Kampf), de Adolf Hitler. Considerado um dos pilares do nazismo, o livro chegou às bancas da cidade silenciosamente, numa edição sem ISBN, sem logo ou nome de editora, sem ficha catalográfica e sem tradutor identificado. Painel Acadêmico apurou, no entanto, que essa edição está sendo distribuída nas bancas pela Chinaglia, uma distribuidora do grupo Abril, foi editada pela Discovery, uma editora de mangás, gibis e livros sobre a Segunda Guerra Mundial.

“A editora faz alguns livros sem ISBN, só pra bancas. Colocamos o número EAN, que é um código de barras”, diz Fabio Kataoka, diretor da empresa. Contudo, o número EAN não serve para localizar um editor ou um livro. É exatamente o ISBN que faz “um livro ser um livro”, ao ser catalogado e verificado por uma Instituição internacional, o International Standard Book Number. Em 1972, a International Organization for Standardization o transformou em uma norma padrão internacional: a ISO 2108. Hoje, os problemas e dúvidas sobre o ISBN podem ser resolvidos no site https://www.isbn-international.org/.


Autobiografia de Adolf Hitler encontrada nas bancas não tem número de registro e nem sequer identificação da editora responsável pela publicação

O ISBN é uma espécie de RG mundial de todo livro publicado. Com esse código, é possível descobrir em que país foi publicado, quem é o editor e quando foi registrado oficialmente. No Brasil, o responsável pela atribuição do ISBN é a Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro. Geralmente o ISBN corresponde ao código de barras do livro.  No caso da edição do Mein Kampf das bancas, editado em dois volumes, o código de barras não corresponde ao ISBN. É um número de mercadoria qualquer, em que não se consegue saber quem é o editor responsável.

Esse ano, em que completam 70 anos da morte de Aldolf Hitler, a edição de Mein Kampf e todos os seus escritos entraram em domínio público – o que significa que o livro pode ser comercializado sem o pagamento de direitos autorais ou notificação para herdeiros, no caso, o estado da Baviera, na Alemanha. Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, Mein Kampf estava proibido de ser editado na Alemanha e somente agora passou a editado regularmente nos países que adotam os 70 anos da morte do autor como regra para que suas obras caiam em domínio público. Como esse período é o adotado na maioria dos países do planeta, sua publicação neste ano está cercada de polêmica em todo mundo, no Brasil não foi diferente.

No começo do ano, três editoras brasileiras anunciaram que iriam publicar o livro: a Edipro, a Centauro e a Geração Editorial. A Edipro, que ia publicar uma edição com a tradução de Julio de Matos Ibiapina, de 1934, desistiu. Hilter escreveu Mein Kampf na prisão e o livro saiu entre 1925 e 1926, com dois volumes. Por muito tempo foi um livro obrigatório na Alemanha – enchendo os cofres de Hitler e de seu partido. No Brasil, foram feitas três edições nos anos 1930 e é essa tradução que algumas editoras usam para a nova publicação brasileira. A edição vendida encontrada nas bancas traz um breve prefácio (menos de duas páginas) de Nelson Jahr Garcia (1947-2002), que argumenta que a obra de Hitler é o melhor remédio contra o nazismo. “Nós fizemos nossa tradução em cima de uma edição americana”, diz Fabio Kataoka, sem, contudo, dizer o nome do tradutor, nem do revisor ou da equipe de edição.

Este ano, a Centauro e a Geração mantiveram seus planos. A Centauro fez uma edição sem notas, com a tradução antiga dos anos 1930. A Geração preparou uma nova tradução, de William Lagos, com notas explicativas.  Mas a polêmica entre editoras, leitores, autores e livrarias continuou. Em fevereiro, o juiz Alberto Salomão Jr. da 33ª Vara de Justiça do Rio de Janeiro acatou um pedido do Ministério Público e proibiu a comercialização, distribuição e divulgação do livro no Rio de Janeiro. As editoras e livrarias foram notificadas e recolheram as obras.

Eis que agora surge nas bancas de São Paulo uma edição em que o editor não está evidente de nenhuma forma, em contraste com inúmeros outros livros disponíveis nas bancas. Quem comprar a obra não pode reclamar, muito menos saber quem é o responsável pela edição do livro. O que todos os livreiros consultados por Painel Acadêmico puderam, rapidamente, informar, foi quem distribuiu os livros: a distribuidora Chinaglia.

Desde de 2007, o mercado de distribuição de revista no Brasil é um monopólio controlado por uma empresa da editora Abril – chamava-se Treelog e mudou recentemente o nome para Total Express. Naquela época, a Dinap, distribuidora então controlada pela Abril, comprou a Chinaglia, num negócio que teve de ser aprovado pelo Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica), pois se configurava um virtual monopólio do mercado.

Por causa dessa decisão, a distribuição ainda é feita por dois departamentos distintos e os donos das bancas sabem quando é um ou quando é outro. No caso da distribuição do livro de Hitler, Mein Kampf, da Discovery, dez donos de bancas na cidade, em diferentes regiões, disseram que quem está distribuindo os volumes é a Chinaglia. Quando perguntada se era ela quem estava distribuindo os livros ou quem era a verdadeira editora por trás da edição, a distribuidora, depois de muitos telefonemas, informou o Painel Acadêmico que a editora de Minha Luta chamava-se Discovery.

Na banca Villaboim, tradicional ponto de vendas de revistas em Higienópolis, o livro estava exposto logo na frente e a vendedora afirmou era uma das mercadorias mais procuradas. Discurso semelhante foi repetido por bancas na avenida Paulista, Perdizes e Bela Vista.

Procurada para responder pela edição, a Discovery confirmou que a edição era dela e disse que estava testando o mercado, com uma tiragem pequena, entre 2 mil e 3 mil exemplares. Kataoka, o diretor, também disse que estava ciente dos problemas jurídicos do Rio de Janeiro e que havia mandado recolher os livros que estavam distribuídos no estado.

(*) Joana Monteleone é historiadora. 

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