LITERATURA

Alfabetizado aos 14 anos, Zé Sarmento lança seu oitavo romance em SP

O escritor paraibano tem uma trilogia, roteiros de filmes e três peças de teatro; participa de saraus na periferia incentivando jovens a se encantarem pela leitura

“Fiquei pensando: bom, se existe gente assim que vai roubar as coisas dos outros, eu vou escrever um livro. Quero ver quem vai roubar a ideia de um livro escrito”. José Marques Sarmento nasceu pela segunda vez aos 14 anos, como ele mesmo conta. Foi com essa idade, e graças às fotonovelas que suas primas colecionavam, que ele se alfabetizou, sozinho. A falta de escolas próximas à sua casa, e os pais que só sabiam ler as nuvens à espera da chuva que nunca vinha ao sertão da Paraíba, o fizeram aprender a juntar palavra com palavra muito tarde. Depois que entendeu a lógica daquilo tudo, ficou encantado. E nunca mais foi o mesmo.


Foto: Tony Marlon

“Na minha casa não tinha muita coisa. A gente se reunia na praça da cidade todos os dias para assistir televisão. Só tinha uma para todo mundo”, relembra. Quarto de oito filhos homens, Zé Sarmento, como é conhecido nos saraus da cidade de São Paulo, decidiu desde cedo que existir na fantasia era mais saudável e prudente. Ao menos para a sua realidade. Resistiu até os 19 anos como boia-fria e decidiu ir embora para São Paulo. Trabalhou em almoxarifado, como ajudante, até que um dia encontrou um anúncio: "venha aprender a fazer cinema". Ele foi.

Como morava em Santo André e o curso era na capital paulista, não teve dúvidas. “A Planeta Filmes era quem promovia o curso, que durou dois anos e meio. Como era longe para ir e voltar todo dia, resolvi vir morar em cortiços ali no Bixiga”, explica Zé. “Lá, eu aprendi muita coisa, me formei em iluminação, apesar de nunca ter pegado um diploma nas mãos. Já na primeira vez que fui trabalhar na rua, o diretor de fotografia ficou espantado em como eu sabia detalhes do trabalho”, relembra. Os cortiços iriam, no futuro, ajudá-lo a escrever uma trilogia, mas àquela altura ele não fazia ideia disso.

Mergulhado no mundo de histórias filmadas, Sarmento resolveu se dedicar também a contá-las no papel. Foi assim que passou a fazer roteiros. Mas essa história não foi tão boa quanto os filmes. Um diretor que o conhecia pegou um de seus roteiros. Depois dos elogios, a troca de nomes: José sumiu do documento. O que poderia ter causado revolta, mudou o rumo de sua vida. “Fiquei pensando: bom, se existe gente assim que vai roubar as coisas dos outros, eu vou escrever um livro. Quero ver quem vai roubar a ideia de um livro escrito”, conta.

Um livro, não. Oito. Neste segundo semestre do ano, Zé Sarmento lança seu oitavo romance: “Guerreira”. Escrito com o pseudônimo Débora Paim, o romancista mais desconhecido do Brasil, como ele se intitula, decidiu assinar como mulher por um motivo simples: “sempre mexeu comigo a violência contra a mulher, especialmente a periférica. Eu envelheci vendo as mulheres saindo com seus filhos de casa, enquanto o marido jurava bater nela caso voltasse. Então, resolvi contar a história da Maria do Socorro, que é a história de muitas. Mas não fazia sentido o Zé escrever. Fazia sentido eu me enxergar no feminino para conseguir narrar essa história com verdade”, ele explica. Participante de eventos culturais de todos os tipos na periferia, Zé Sarmento faz o que chama de literopalestras. De uma forma diferente – e lúdica –,  ele convida jovens a fim de encantá-los pelo hábito da leitura.

Dono de uma cabeça que não para, já está na página 40 de seu futuro romance, o nono, que deve sair no começo do ano que vem. “Em momentos de jovens lutando pela escola, eu quero contar a história de um menino ´viajão´ e de uma professora ´ensinão´. Um, aprende viajando literalmente para as matérias que aprende. A outra, explica como se tivesse explicando para ela mesma, e não entende por que ninguém gosta da aula”, diz. Zé Sarmento ainda tem roteiros de filmes, três peças de teatro escritas e diz que sua maior motivação não é escrever o livro, é deixar uma obra. “Eu quero deixar algo por aqui que mostre que eu existi”, finaliza.

* Do portal As Boas Novas.

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