SÉRIE | BIBLIODIVERSIDADE

O que aconteceu com as livrarias feministas?

A falência da circulação de ideias está sempre conectada com novas formas de opressão

Os países ricos, pregadores do comércio livre, aplicam o mais rígido protecionismo contra os países pobres: convertem tudo em que tocam em ouro para si e em lata para os demais.
Eduardo Galeano, em As veias abertas da América Latina

Assim como a biodiversidade indica o quanto um ecossistema está saudável e a saúde de um ecossistema social pode ser encontrada na multiversidade, a saúde da indústria editorial está indicada pela sua bibliodiversidade.

Biodiversidade
Biodiversidade é o complexo sistema autossustentável de um determinado nicho ecológico em um lugar específico. Ela inclui a diversidade genética tanto em cada uma das espécies quanto em todo o ecossistema. Considera plantas, animais e microorganismos. “Engloba todas as espécies que presentemente existem na Terra, as variações que existem entre os indíviduos de cada espécie e as interações que ocorrem entre todos os organismos e seus bióticos e abióticos ambientes, bem como a totalidade dessas interações (Gowdy e McDaniel, 1995, p. 182). Expandida, a noção de biodiversidade leva à ideia de diversidade cultural e serve de inspiração para a bibliodiversidade.

Multiversidade
Multiversidade é uma aproximação epistemológica que leva em conta a localização e o contexto do conhecimento. Ela valoriza o saber local e não deve ser uma camisa-de-força para aqueles que trazem as ideias mais originais, ideias que resistem ao pensamento dominante com seu apoio global de religiões, do capital, do consumismo libertário e do militarismo.

Bibliodiversidade
Bibliodiversidade é um complexto e autossustentável sistema de contar histórias, escrever, publicar e de outras formas de produção da oratura (1) e da literatura. Os escritores e produtores do livro são comparáveis aos habitantes de um ecossistema. Bibliodiversidade é um fator que contribui para uma vida cultural próspera e para um ecossistema social saudável.

É bastante proveitoso pensar a bibliodiversidade de baixo para cima. Como nas velhas árvores fixadas em solo bom, as raízes culturais são profundas. O tempo criou um rico colchão de conhecimento, e se a árvore não consegue penetrar nesse solo de saber, ela irá morrer pela falta de nutrientes. Mas a árvore não está sozinha. Ela está numa relação de interdependência junto a uma série de organismos e plantas e animais de seu entorno.

Assim como um ecossistema é bibliodiverso quando possui um “equilíbrio dinâmico" (2), isto é, quando uma espécie não está conduzindo as outras à exclusão, também um sistema ecossocial só está em equilíbrio dinâmico quando uma série de vozes variadas podem ser ouvidas. A homogenização dos ecossistemas ocorre quando o agricultura globalizada e standartizada, o agronegócio e os organismos geneticamente modificados passam a dominar o meio ambiente. Esses são os efeitos adversos da globalização. Do mesmo modo, no sistema ecossocial, a falta de diversidade de mídia e a concentração gerada pela grande edição e pelas grandes redes de livraria reduzem a possibilidade de que as vozes da diversidade possam ser ouvidas. Esse cenário cria as “monoculturas da mente” (Shiva, 1993) e são tão destrutivas quanto as monoculturas agricolas e militares. Se o habitat social é soterrado pela monoculturas epistemológicas - vozes individuais dizendo todas a mesma coisa - há uma perda do equilíbrio dinâmico e aqueles que têm algo novo ou diferente a dizer serão ignorados. Neste contexto, a busca por uma abordagem que enfatize a multiversidade é o primeiro passo a dar. Para fazer florescer a multiversidade, um fenômeno editorial paralelo também deve ocorrer, e é por esse motivo que cremos ser necessária uma abordagem que coloque a bibliodiversidade em destaque.

A bibliodiversidade ocorre quando tanto o profundo solo da cultura é nutritivo quanto quando a multiplicidade de posições epistemológicas é encorajada. Refiro-me a essa condição como “multiversidade cultural”. Editores pequenos e independentes contribuem para a multiversidade cultural através da publicação especializada de matéria cultural (isto é, livros que não se configuram num conhecimento cultural não homogeneizado) bem como produzindo livros que representam uma grande variedade de pontos de vista e de posições epistemológicas.

Um grupo de editores chilenos que se organizou em torno da Associação dos Editores Independentes do Chile nos anos 1990 criou a palavra bibliodiversidad.

A atual orientação financista dentro do mundo da edição de livros - em que grandes corporações sem ligação com a edição estão comprando empresas editoriais e impondo altos níveis de produtividade - está levando à perda da independência (International Alliance of Independent Publishers, 2007, p.1).

Ou como Françoise Benhamou disse num discurso em um encontro da Aliança Internacional dos Editores Independentes:

Na biodiversidade, a variedade se refere simplesmente ao número de espécies; no mundo do livro, o paralelo seria o número de títulos. Mas isso é claramente insuficiente mas tratar desses temas. Voltarei a esse ponto depois. O segundo fator a se destacar no conceito de biodiversidade é o equilíbrio, o equilíbrio entre as espécies. Se analisarmos o que importa na biodiversidade, veremos algo extremamente simples, que é a ideia de que se temos muitas espécies, mas se algumas estão presentes num número muito grande enquanto outras são muito raras, as que têm muitos indivíduos tenderãas o a se alimentar ou a prevalecer sobre as outras. É isto o que acontece com o mundo do livro, em que é uma questão preocupante quando o domínio de blockbusters nas patreleiras de supermercado e, sobretudo, nas rodas de exposição das livrarias expulsa outras opções que são mais difíceis de promover (Benhamou, 2009, p. 28-29).

Quando as feministas se depararam com uma indústria editorial dominada por homens nos anos 1970 e 1980, foram confrontadas com desafios semelhantes. O resultado foi a união de editoras, livreiras e autoras para trocar conhecimentos e criar um engajamento numa rede que acabou por criar oportunidades de coedição.

Em 1984, a primeira Feira Internacional do Livro Feminista ocorreu em Londres. Essa feira pôs em contato editoras e escritoras de diversos continentes - e na década que se seguiu milhares de autoras, leitoras, tradutoras, editoras, livreiras e bibliotecárias e muitas outras profissionais se encontraram a cada dois anos em Oslo, Montréal, Barcelona, Amsterdã e Melbourne. Aqui estavam as raízes da bibliodiversidade. Sabíamos que fazíamos algo importante, mas não imaginávamos que essa florescente rede internacional entraria em colapso rapidamente. Como feministas que lideravam organizações autônomas, não tínhamos estrutura, financiamentos de longo prazo, e nenhum centro administrativo permanente (ironicamente, muitas das feiras ocorreram em lugares que sediariam Jogos Olímpicos, com suas gigantes infraestruturas).

As feiras internacionais do livro feminista foram possíveis porque havia uma forte explosão do interesse por escritos e edições feministas. Mas esse cenário também seria rapidamente erodido por “posicionamentos” teóricos despolitizados bem como pelo desenvolvimento das superstores.

Os anos 1980 assistiu a uma gradual ascensão das teorias pós-modernas nas universidades. Pós-modernistas direcionaram suas atenções para o feminismo, as teorias lésbicas e para as análises radicais de classe e raça. Rapidamente passamos a ouvir termos como “gênero”, “queer”, “hibridismo”, “etnização”, em vez de sexismo e misoginia e preconceito baseado em orientação sexual, classe e raça. Essas novas palavras arrancaram o coração da radicalidade dos movimentos sociais de massa. Quem pode ir a um protesto e gritar uma palavra de ordem sobre etnização? Ninguém quer berrar algo sobre gênero. Que tipo de slogan rende “violência sexual baseada em gênero” quando uma palavra perfeita para o caso como “estupro” existe? Ódio, opressão, misoginia e exploração são termos que fazem barulho nas demonstrações. As mulheres clamam: “Tome de volta a noite” (3) ou “Nem Igreja, nem Estado, as mulheres decidirão o seu futuro”; ativistas querem se manifestar contra a guerra, a discriminação racial, a destruição do meio ambiente. Querem ser uma voz contra a eugenia e segregação provocada pela deficiência, pela idade, pela exclusão social. O enfraquecimento linguístico dos movimentos sociais de massa e a ideia de que sua posição na sociedade implica que você não pode falar por mais ninguém além daqueles que são iguais a você silenciou milhões de vozes.

O pós-modernismo dissipou a energia política (Brodribb, 1992; Bell and Klein, 1996). Retirou a teorização dos encontros dos ativistas e a levou para as torres de marfim. A energia política foi conduzida para algum velho sótão e deixada lá, acumulando poeira.

A invenção das superstores foi outro prego no caixão da edição feminista. Em 1993, na American Book Expo, as feministas começaram a discutir que estratégia adotar diante das superstores. As livreiras feministas começaram a perceber que a Borders (4) estava se fixando do outro lado da rua, perto das esquinas ou mesmo na porta ao lado das melhores livrarias independentes, muitas das quais eram livrarias feministas com uma forte base de consumidores fieis.

A Borders imediatamente organizou um estoque comum para suas lojas, mas eles podiam vender livros mais baratos e ainda oferecer café e lanches, e rapidamente escritoras feministas de longa trajetória foram convidadas a falar em eventos nas superstores. Não é difícil concluir que os consumidores “fieis” passariam em breve a frequentar essas lojas, e não mais as livrarias feministas. Lembrem-se que, em geral, as mulheres tem uma renda inferior aos homens, portanto o apelo do preço baixo trabalhava juntou com outras pequenas gentilezas.

Você pode pensar: mesmo que as livrarias feministas não pudessem fazer o mesmo, essa situação seria boa para as editoras feministas, pois seus livros passaram a chegar a duas vezes mais pontos de exposição. Inicialmente foi. Mas as editoras feministas começaram a ficar sem estoques para reposição, e consequentemente tiveram de encomendar reimpressões (nesse período, uma reimpressão exigia no mínimo 1.500 a 2.000 cópias, para manter o preço unitário num patamar razoável). Após encomendar a reimpressão, elas descobriam que a Borders tinha feito um pedido superior a suas necessidades, e que pretendia devolver um enorme número de livros, deixando o editor com uma enorme quantidade de livros e um monte de novas contas a pagar.

Logo depois, quando aquelas livrarias feministas independentes originais fecharam por falta de clientes, as superlojas pararam de encomendar o estoque básico que era mantido pelas livrarias feministas. Na verdade, muitos desses títulos deixaram de ser encomendados pelas superlojas ou, mesmo que fossem, passou a ficar difícil de encontrá-los nas livrarias abarrotadas de títulos e sem categorias tão precisas. Tanto as livrarias quanto as editoras lutaram para sobreviver. Essa situação coincidiu com dois outros processos.

A corrida tecnológica da indústria editorial estava apenas começando. A Borders e outras grandes redes tinham recursos financeiros para informatizar todo o estoque em suas lojas de descontos. O lento giro das livrarias independentes se fiava na boa formação de suas equipes, que conhecia seus livros e era capaz de conduzir o cliente até a estante do livro que ele procurava. A maioria dos livreiros independentes não tinha nem o conhecimento tecnológico básico nem recursos financeiros para adotar a nova forma de operar. E mesmo os poucos que fizeram a transição raramente sobreviveram.

O outro elemento foi o surgimento da amazon.com. Este foi um ataque direto à mais estabelecida livraria feminista, a cooperativa Amazon Bookstore (5). Os proprietários da loja protestaram. Levaram a amazon.com aos tribunais. Venceram na Justiça e foram indenizados, mas na prática perderam, porque não conseguiram continuar no negócio. Quando outros donos de livraria viram isso ocorrer, muitos perderam a paixão pelo negócio e desistiram de lutar para sobreviver.

No final dos anos 1990, poucas livrarias feministas permaneciam ativas. Apenas aquelas que dominavam técnicas de marketing, tinham conhecimentos e dinheiro para entrar na nova era do inventário computadorizado e possuíam uma sólida base de consumidores que entendia as políticas de sobrevivência continuaram a existir. O primeiro impacto foi sentido na América do Norte com a derrocada de livrarias feministas no Canadá e nos Estados Unidos, seguido pelo impacto nas editoras feministas, sobrando apenas algumas delas. Livreiros e editoras feministas em outros países de língua inglesa foram em pouco tempo afetados pela globalização que espalhou as superstores para outros territórios.

As editoras feministas foram apenas o canário da mina (6). Outros editores estão agora vivendo a mesma presão. Um editor norte-americano, numa entrevista a Gisèle Shapiro em 2007, falou sobre as dificuldades de fazer os livros traduzidos chegarem às grandes redes:

Por conta das grandes redes, quando chegamos com um desses livros traduzidos, eles têm o que chamam de ‘pulo’ (‘skip’), o que significa que, por exemplo, há uma cadeia que tem 1.200 livrarias, e elas pegam zero, nenhuma cópia entre os livros traduzidos (Shapiro, 2014, p. 39).

Este cenário reflete, na indústria editorial, o que ocorreu na manufatura e na agricultura no mesmo período. Isto está bem documento em outro texto (Hawthorne, 2002). O que não está é outro paralelo com uma indústria em massiva expansão no período. Fenômeno parecido ocorreu com a chegada das novas tecnologias da internet (7), as novas regras de comércio global e o golpe teórico pós-moderno nas universidades e nas instituições governamentais, mas também em instituições supragovernamentais, como a Organização Internacional do Trabalho e as Nações Unidas. Foi a indústria do sexo: pornografia e prostituição, o que também incluiu o tráfico de mulheres e o tráfico de corpos humanos (barrigas de aluguel e tráfico de órgãos) (8).

Faço essa ligação porque as duas coisas - o advento da internet e a crescente commoditização do corpo da mulher por meio da prostituição - não deixam de estar relacionadas (Bell, 2001). A falência da circulação de ideias está sempre conectada com novas formas de opressão. Com o desaparecimento de centros de ideias feministas, a ascensão por meio de uma ideologia libertária da “escolha” do consumismo individual ganhou proeminência. Em vez de centros de ativismo, muitas feministas foram levadas a colocar suas energias em Organizaçõoes Não Governamentais que eram dependentes de financiamento de governos ou de corporações e, portanto, eram frequentemente comprometidas demais com seus objetivos. Poucas, que entendiam a agenda política fundamental, conseguiram manter seus objetivos originais. O que tornou-se crítico para a sobrevivência da independência das instituições, incluindo governos, universidades e grandes corporações, especialmente aquelas que tinham o poder de dividir as tomadas de decisão.

O desastre da “edição tampa de ralo de banheira” (9) - em que os livros são mais ou menos o mesmo produto, com diferentes cores - foi exemplificado na Austrália quando o REDGroup, uma empresa formada pelas redes Borders, Whitcoulls e Angus&Robertson, controlada pelo fundo Pacific Equity Partners, entrou em liquidação voluntária em fevereiro de 2011. Uma combinação de uma política de alto endividamento dos fundos de private equity (10) associada a uma avaliação equivocada do mercado de livros digitais (Lim, 2011) fez com que a memória do setor fosse fragmentada, perdida e não substituída. A venda de livros nas mãos das grandes empresas fez com que as diferentes livrarias passassem a vender os mesmos livros, e ficassem cada vez mais parecidas. Esse movimento pode ter sido uma bênção para um ou outro editor dominante, com um bom orçamento de marketing, e um sucesso para algum livro marginal específico, mas não é um modelo que pode ser considerado útil para comunidades locais com interesses e necessidades particulares.

No mesmo momento que as superlojas estavam ocupando a paisagem da edição, algo também se mexia entre os escritores. Nos EUA, em que a mercado cinematográfico tem um enorme impacto, os roteiristas passaram as ser pagos por um valor fixo. Os estúdios passaram a exigir a cessão de direitos autores dos produtores. Os escritores, nesse mercado, perderam seus direitos de autor por um pagamento exclusivo. Universidades, revistas e editoras acadêmicas em pouco tempo seguiram esse modelo. Argumentaram que os autores já estavam sendo pagos para escrever através dos salários de pesquisadores e professores, então a universidade poderia exigir o copyright baseada na lógica de que escrever era parte de seus contratos de trabalho. E revistas e editores acadêmicos argumentaram que os autores não precisavam receber pelo trabalho ou não teriam como ser publicados. Num ambiente de publish-or-perish, “publique ou morra”, os escritores da academia precisavam ter trabalhos citados para se manterem e progredirem na carreira.

O ambiente acadêmico mudou novamente e há boas razões para argumentar contra essas novas convenções.

Cessão de direitos de autor segue sendo um procedimento antiético quando o acadêmico não tem estabilidade de emprego. E esse é cada vez mais o caso de professores que têm contratos temporais. Muitos contratos de trabalho atuais preveem um recesso de verão, o que significa que seu período é de apenas nove ou dez meses por ano. Os salários para essas posições é mais baixo, e os cursos podem ser cancelados sem aviso prévio, deixando o acadêmico sem trabalho remunerado.

Houve nas décadas recentes uma explosão no ramo dos cursos criativos. Não apenas escolas de arte e música, como no passado, mas também graduações em escrita criativa, design, poesia, teatro, artes do circo e muito mais passaram a ocupar as vagas universitárias. Se um poema é escrito durante as horas de trabalho ou no período de um contrato temporário, é razoável que a universidade reivindique o copyright? Poetas são talvez os mais mal pagos de todos os artistas criativos, portanto não é razoável que um poema seja tratado da mesma forma que a patente de uma invenção científica criada por um professor contratado de forma permanente por tempo integral.

A lei de direitos autorais está marcada pela ideia de inovação científica - o ponto alto da curva, se você quiser. Mas poeta são tratados como se os poemas dele ou dela fossem render milhões de dólares nos próximos setenta anos. Isso parece bobagem, mas é como alguns editores tratam seus autores quando os contratos incluem palavras como “cessão definitiva de direitos” ou quando o direito de autor é extendido a uma instituição.

Nenhum editor precisa de cessão de copyright para publicar poetas. Tudo que precisa é de uma licença de exclusividade. A única coisa que pode mudar isso é o que ocorre após a morte do autor. Direitos cedidos permanecem nas mãos dos estúdios, das universidades, na revista científica ou da imprensa. A norma padrão nos Estados Unidos, Europa e Austrália é a vida do autor mais setenta anos (11) (12). Quem estará por perto para tirar vantagem disto? Pouquíssimos pequenos e independentes editoras estarão, uma vez que a maioria dessas empresas dependem das energia e da visão de seus fundadores. Ao contrário, grandes grupos - estúdios de cinema, universidades e revistas - ainda existirão.

Um direito adicional importante no ramo editorial é o “direito moral”, que encampa três diferentes direitos que podem ser exercidos exclusivamente por indivíduos. Nesse campo, está incluído o direito de ter sua obra corretamente atribuída, o direito de não ser falsamente indicado como autor de algo e o direito à integridade da obra, o que impede o uso do trabalho de forma depreciativa para a reputação do autor (ComLaw, 2000). Os direitos morais são particularmente importantes para aqueles que resistem ao status quo. Feministas, ativistas da luta contra o racismo e ambientalistas não raramente veem suas palavras serem distorcidas ou mal representadas. Isso infringe seus direitos morais. Um exemplo: se uma música contrária à indústria madeireira for usada para promover o corte seletivo de árevores numa região considerada patrimônio mundial da humanidade, isso constitui um desrespeito ao direito de autor. Outro ponto é a correta e destacada atribuição das obras, com o direito correlato de evitar falsas atribuições. Considerando que os autores outsiders são frequentemente os que dão origem a novas ideias e a novas formas de expressá-las, a afirmação dos direitos morais pelos editores independentes é um importante forma de reconhecimento em benefício de seus autores.

(*) Tradução de Haroldo Cerávolo Sereza.

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1 Exemplos de oratura incluem: A Odysseia e A Ilíada, de Homero; o poema épica indiano Mahabharata; canções circulares dos aborígenes australianos, com as Djanggawul; e uma vasta gama de literatura oral de todo o mundo. Também inclui uma massiva variedade de canções tradicionais, poemas e histórias, bem como receitas culinárias e de uso medicinal. São ainda oratura as formas particulares de feitura de objetos, como instrumentos musicais, entre outras.

2 Voltaremos a essa questão mais à frente.

“Take back the night” no original, referência a protestos contra a violência sexual com esse slogan que ocorrem desde os anos 1970, inicialmente, nos EUA e, atualmente, em outros países do mundo. O foco principal desses protestos são ataques contra mulheres por estranhos.

Rede de livrarias australiana, adquirida em 2011 pela Barnes&Noble.

Fundada em 1970 em Minneapolis (Minnesota), fez parte de um movimento de abertura de livrarias lésbicas e feministas nos Estados Unidos. Foi finalmente fechada em 2012. Mais detalhes sobre o fenômeno pode ser lidos em “Defining Our Own Context: The Past and Future of Feminist Bookstores” (Hogan, 2003). N.T.

Nas minas de carvão, canários eram usados para alertar casos de vazamento de gases tóxicos. Mais sensíveis a ele, a morte de um canário era o indicador de que era preciso retirar os trabalhadores do lugar (N.T.).

A primeira experiência que tive do poder da internet ocorreu em Blangladesh, em 1993, numa conferência organizada pela atriz Farida Akhter sobre as pesquisas e atividades da ONG Ubinig (Unnayan Bikalper Nitinirdharoni Gobeshona, ou Pesquisa de Políticas para Alternativas de Desenvolvimento). Ficou claro para nós, como feministas na Austrália e em Bangladesh, que precisávamos desse novo meio de comunicação. Já estávamos trocando informações internacionais via fax, correio e encontros. Os lugares mais lentos na adoção do email foram aqueles que achavam estar no centro do mundo.

Para uma análise feminista desses temas, cf. Ekis Ekman (2013), Raymond (1994) e Raymond (2013).

A expressão “edição tampa de banheira” foi cunhada pela autora do livro para designar editoras que publicam livros indiferentes: seus editores parecem estar escolhendo apenas a cor da tampa de banheira, e não um produto cultural (N.T.).

10 Fundos de private equity investem diretamente em empresas (listadas ou não em bolsa) e passam a geri-las, visando, desde o princípio, a realizar uma política de desinvestimento no longo prazo (N.T.).

11 As exceções são os textos produzidos pelo governo, que caem em domínio público 50 anos após a primeira publicação, e obras anônimas (por exemplo, publicações de empresas sem um autor individual expresso), cujo domínio dura 70 anos após a primeira publicação. 

12 No Brasil, os prazos são similares, regidos de acordo com a lei nº 9.619, Lei de Direitos Autorais (N.T.).

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Bibliografia

Bell, Genevieve. 2001. “A Theory of Shopping: A feminist reading of eCommerce”. Paper presented at George Washington University, Washington DC. 7 June.

Bell, Genevieve and Renate Klein (eds.). 1996. Radically Speaking: Feminism Reclaimed. Melbourne: Spinifex Press.

Benhamou, Françoise. 2009. “Les Assises et leurs suites. Comptes rendu des Assises Internationales de l’édition independente et programme prévisionel d’action 2008-2009 de l’Alliance des éditeurs indépendents”. International Alliance of Independent Publishers. 7 October. pp. 28-29.

Brodribb, Sommer. 1992. Nothing Mat(t)ers: A Feminist Critique of Postmodernism. Melbourne: Spinifex Press.

ComLaw, 2000. Copyright Amendment (Moral Rights) Act 2000 - C2004A00752. Office of Parliamentary Counsel, Commonwealth of Australia. 21 December 2000.

Ekis Ekman, Kajsa. 2013. Being and Being Bought: Prostitution, Surrogacy and the Split-Self. Melbourne: Spinifex Press.

Gowdy, John and Carl N. McDaniel. 1995. “One World, One Experiment: Adressing the biodiversity-economics conflict”. Ecological Economics 15 (3). pp. 181-192.

Hawthorne, Susan. 2002. Wild Politics: Feminism, Globalisation and Bio/diversity. Melbourne: Spinifex Press.

Hogan, Kristen A. “Defining Our Own Context: The Past and Future of Feminist Bookstores”. Thirdspace, volume 2 issue 2. Ewing, NJ: Thirdspace Editorial Group. March 2003.

International Alliance of Independent Publishers. 2007. International Declaration of Independent Publishers for the Protection and Promotion of Bibliodiversity. Paris: International Alliance of Independent Publishers.

Lim, Kwanhui. 2011. “What Really Went Wrong for Borders and Angus & Robertson?”. The Conversation. 24 March.

Raymond, Janice G. 1994. Women as Wombs: Reproductive Technology and the Battle over Women’s freedom. Melbourne: Spinifex Press.

Raymond, Janice G. 2013. Not a Choice, Not a Job: Exposing the Myths about Prostitution and the Global Sex Trade. Melbourne: Spinifex Press.

Shiva, Vandana. 1993. Monocultures of the Mind:  Perspectives on Biodiversity and Biotechnology. Penang: Third World Network.

Shapiro, Gisèle. 2014. “Translation as Weapon in the Struggle Against Cultural Heggemony in the Era of Globalization’. Bibliodiversity: Translation and Globalization 3. February: 33-42.

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