HISTÓRIA

Formação do Exército Zapatista

Livro enfoca evolução política que culminou no Congresso Indígena de 1974, ponto de clivagem na politização e revalorização étnica das comunidades indígenas

Em janeiro de 1994, o mundo descobriu, surpreso, que havia um levante armado no México. Tendo como porta-voz um homem encapuzado, que se apresentava com o codinome de Subcomandante Marcos, uma força militar formada por indígenas, autodenominada Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN), conquistou seis municípios no estado de Chiapas, colocando o governo mexicano na defensiva. A plataforma política dos insurgentes incluía democracia, terra e autonomia para os povos indígenas, entre outras bandeiras.

A figura carismática do porta-voz – com sua máscara, seu cachimbo, sua paramentação militar, sua fala pausada e culta – foi intensamente veiculada pela mídia, doméstica e internacional, trazendo à luz reivindicações que seguiam sem atenção desde a revolução mexicana de 1910.

Depois da fase armada, que durou alguns meses no início de 1994, quando ocorreram combates diretos entre os zapatistas e as forças governamentais, o EZLN se empenhou em um trabalhoso processo de negociação com o governo, que resultou nos chamados Acordos de San Andrés (Acuerdos de San Andrés sobre Derechos y Cultura Indígena) – um documento, firmado em 16 de fevereiro de 1996, por meio do qual os titulares do Estado mexicano se comprometiam a modificar a Constituição para outorgar direitos às populações indígenas e pobres do país.

A maioria das promessas não saiu do papel, mas o EZLN saiu da mídia. “Isso ocorreu não apenas devido ao caráter fragmentário e volúvel do noticiário, mas também por uma mudança de estratégia do próprio movimento zapatista”, disse o historiador Igor Luis Andreo, autor do livro Teologia da libertação e cultura política maia chiapaneca: o Congresso Indígena de 1974 e as raízes do Exército Zapatista de Libertação Nacional, publicado com apoio da FAPESP.

“Depois de empenhar-se em vão durante quase 10 anos para que o governo mexicano cumprisse os Acordos de San Andrés, o EZLN fechou-se em si mesmo, assumindo uma política mais autonomista. A principal demanda, quando ainda estava dialogando com o Estado, era que os direitos dos indígenas fossem respeitados, de modo que estes pudessem fazer parte da nação, porém obedecendo a leis próprias, vivendo sob seus costumes ancestrais, tendo sua língua valorizada etc. Isso os zapatistas não conseguiram obter de modo pleno. Então, adotaram a estratégia de buscar essas coisas autonomamente. Há pouco, o EZLN montou escolas em sua área de atuação”, informou o pesquisador, atualmente doutorando do programa de Pós-Graduação em História e Sociedade da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Assis.

Estas informações são importantes para que seu livro – resultado de dissertação de mestrado orientada por Carlos Alberto Sampaio Barbosa, professor de História das Américas no Departamento de História da Unesp de Assis – seja lido tendo como referência a situação atual do movimento zapatista – uma força política que hoje atua de forma menos ostensiva, mas que não está de forma nenhuma extinta.

O livro enfoca um período anterior, rastreando toda a evolução política que culminou no Congresso Indígena de 1974, considerado pelo autor um ponto de clivagem no processo de politização e revalorização étnica das comunidades indígenas que, mais tarde, vieram a se integrar ao Exército Zapatista.

“Esse congresso teve uma forte influência da Igreja Católica. Então, estudo as transformações pelas quais passou o pensamento do bispo da região, Dom Samuel Ruiz Garcia. Volto em sua trajetória, desde que assumiu o episcopado da diocese de San Cristóbal de las Casas, em 1960, até o Congresso de 1974. Depois, faço uma análise do Congresso. E concluo, tentando apontar as diretrizes que foram construídas a partir do Congresso e continuaram existindo no EZLN”, detalhou Andreo.

Como ocorreu com um amplo setor da Igreja Católica latino-americana ao longo das décadas de 1960 e 1970, Dom Samuel transitou de um conservadorismo, visceralmente anticomunista, para a teologia da libertação, que redefiniu em profundidade a doutrina eclesial tendo como parâmetro as necessidades da população mais pobre e marginalizada e, como instrumental de análise, vários conceitos assimilados da teoria marxista.

O Concílio Vaticano II, inaugurado em outubro de 1962 pelo papa João XXIII, representou, evidentemente, um forte empurrão nesse sentido. “A partir do Concílio, Samuel Ruiz foi assumindo, paulatinamente, uma postura social orientada pelo desenvolvimentismo, que se encontrava em voga na América Latina nesse período”, escreveu o pesquisador em seu livro. E acrescentou: “Também após 1962, o bispo de Chiapas abandonou as vestimentas resplendorosas que costumava utilizar e, em 1965, quando houve a criação de uma terceira diocese no estado, optou pela permanência em San Cristóbal de las Casas, cuja localização tornava mais fácil o acesso aos fiéis indígenas”.

Mas, segundo o pesquisador, a influência realmente decisiva viria mais tarde, no processo preparatório da Conferência de Medellín, na Colômbia, convocada por Paulo VI para adaptar as diretrizes do Vaticano II à realidade latino-americana e inaugurada pelo próprio papa na catedral de Bogotá, no dia 24 de agosto de 1968.

Nas reuniões preparatórias para esse grande evento – que reuniu 86 bispos, 45 arcebispos e 6 cardeais, além de sacerdotes, religiosos e leigos –, veio à pauta o tema da pluralidade cultural latino-americana e da valorização das línguas, costumes, aspirações e instituições das comunidades indígenas. Dom Samuel foi profundamente impactado por essas discussões, em especial por aquelas que ocorreram no Encontro de Melgar, também realizado na Colômbia. Como ele mesmo escreveu, e Andreo cita em seu livro, o encontro o fez entender que “a evangelização, tal como se estava levando a cabo no continente, era simplesmente uma destruição de culturas e uma ação dominadora”. E essa descoberta o deixou, segundo suas próprias palavras, “aturdido”.

Tal aturdimento o impulsionou a uma grande revisão de sua atuação episcopal e de sua própria trajetória existencial. Conforme o texto de Andreo, “partindo da premissa de que, uma vez que Deus quer a salvação de todos os homens, então ele, de algum modo, está presente em todo e qualquer grupo humano”, Dom Samuel concluiu que, “em vez de anunciar Cristo aos indígenas, o papel do evangelizador deve ser o de descobrir Deus encarnado na história e, consequentemente, na cultura daquelas comunidades”.

Em Medellín, o bispo posicionou-se ao lado do segmento mais radicalmente à esquerda do clero latino-americano. A partir daí toda uma nova orientação, teórica e prática, que Andreo analisa em detalhes em seu livro, foi construída sob a liderança de Dom Samuel e seus colaboradores, com ativa e muito destacada participação de representantes das comunidades indígenas. Tudo isso iria culminar no Primeiro Congresso Indígena, realizado em Chiapas de 14 a 17 de outubro de 1974, com representantes de 327 comunidades indígenas, tradução simultânea em cinco idiomas (quatro línguas derivadas do protomaia – tzeltal, tzotzil, tojalabal e chol – e mais o espanhol) e cobertura da imprensa nacional.

A pauta do Congresso, amplíssima, suscitou um grande número de resoluções. Algumas delas, registradas na ata, podem exemplificá-las:

  • Terra: “Que haja organização de todos os grupos para ter força” e “Que continue a organização depois do Congresso”.
  • Trabalho: “Que se pague o salário mínimo ao indígena que trabalha nas fazendas e nas cidades; que lhe sejam dados todos os direitos que a lei garante”.
  • Comércio: “Necessitamos de organização por meio de um mercado indígena entre os quatro grupos (tzeltales, tzotziles, tojolabales e choles)”.
  • Impostos: “Nós queremos saber onde vão parar nossos impostos, pois não vemos melhoramentos em nossas comunidades”.
  • Educação: “Que haja um periódico indígena em nossas quatro línguas” e “Que os professores sejam indígenas que respeitem os costumes, ensinem bem e estejam unidos à comunidade”.
  • Saúde: “Que haja um comitê de saúde na comunidade, que vigie, eduque e receba preparação de pessoas que conheçam a medicina indígena e a medicina do médico”.

“O rescaldo desse congresso foi uma grande politização da região”, afirmou Andreo. “De modo que, na década de 1980, quando chegou a Chiapas um grupo urbano de perfil intelectual e formação marxista, esses recém-chegados encontram uma população indígena predisposta à participação. Dessa fusão, nasceu o Exército Zapatista. Muitas das características explicitadas no Congresso de 1974 estão claramente presentes no EZLN. Na versão do movimento, a comandância geral do EZLN é exercida pelo chamado Comitê Clandestino Revolucionário Indígena, sendo Marcos somente um porta-voz.”

Teologia da libertação e cultura política maia chiapaneca: o Congresso Indígena de 1974 e as raízes do Exército Zapatista de Libertação Nacional
Autor: Igor Luis Andreo
Editora: Alameda
Preço: R$ 50
Páginas: 313

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