MARXISMO

Livro retrata pensamento de Gramsci sobre relações entre literatura e política

Obra apontou como a literatura e a noção de crítica literária da época adquirem significados políticos

Com base na produção textual do pensador italiano Antonio Gramsci entre 1929 e 1935, quando esteve preso, o livro Política e literatura: Antonio Gramsci e a crítica italiana, da doutoranda Daniela Mussi, retrata os pontos de vista do pensador marxista sobre as relações da produção literária com a vida política da Itália e da Europa a partir do século 19.

Os Cadernos do Cárcere, obra de Gramsci que serve de base ao livro, são um conjunto de 29 cadernos do tipo escolar escritos pelo filósofo na prisão. O trabalho de Mussi teve origem na dissertação de mestrado Política e literatura nos Quaderni del Carcere, realizada com apoio da FAPESP. Atualmente ela desenvolve seu doutorado, também tendo o autor italiano como tema, no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), com bolsa da FAPESP. (http://www.bv.fapesp.br/pt/bolsas/132764/politica-e-cultura-em-antonio-gramsci-e-piero-gobetti-1918-1926/)

O trabalho de mestrado apontou como é constante, em todos os escritos do pensador, a ideia de que a literatura e a noção de crítica literária da época adquirem significados políticos. “Tudo a que se tem acesso nos escritos de Gramsci traz esse engajamento”, disse Mussi à Agência FAPESP.

Gramsci nasceu em 1891, na Ilha de Sardenha, região mais pobre do país. Após ingressar na Universidade de Turim, aderiu ao socialismo, em 1915 e, em 1921, foi um dos fundadores do Partido Comunista Italiano (PCI)

Na mesma época, Benito Mussolini migrou do partido socialista para o nacionalismo reacionário e belicoso, berço do fascismo italiano que levaria Gramsci à prisão em 1926 por seu ativismo político.

O livro de Mussi não desconsidera a ideia de que os Cadernos do Cárcere foram também um esforço de Gramsci para sobreviver às condições precárias da prisão, mas a autora destaca que “a obra busca estabelecer conexões possíveis entre os escritos carcerários, o desenvolvimento de conceitos e ideias novas e a vida política partidária da época”.

Segundo Mussi, Gramsci expressa uma necessidade de elevar a crítica cultural à sua dimensão política e histórica. Para isso, o filósofo resgata a figura do crítico literário como um agente de transformação cultural.

“Para Gramsci, o crítico literário é alguém que interpreta a arte e atua como um guia dos demais, não alguém que decide sobre o que é ou não belo e dita essa definição pessoal como um dogma. Ele retoma essa ideia porque, em seu entendimento, a cultura traz à tona diversos aspectos das relações sociais, que servem também como instrumentos para interpretações”, disse.

No livro, Mussi analisa aspectos culturais levantados por Gramsci, como as análises literárias do filósofo sobre por que uma obra se torna conhecida ou não, tratando do gosto popular.

“Gramsci evidencia o desinteresse da população italiana da época em relação aos intelectuais, revelado pela formação do gosto popular à revelia do que eles escreviam. Para ele, compreender a formação desse gosto é imprescindível à compreensão da história da nação.”

A obra recupera, ainda, a ideia de literatura nacional-popular do pensador italiano. “Gramsci trata da incapacidade da formação de uma literatura nacional-popular italiana como consequência da debilidade da formação do Estado capitalista e da burguesia como classe dirigente nacional”, explicou.

Para Mussi, “essa fragilidade demonstrava ao mesmo tempo uma situação de permanente e progressiva submissão cultural à hegemonia das nações nas quais o processo de formação da nação-povo fora possível historicamente”.

Os Cadernos começaram a ser redigidos em fevereiro de 1929, no cárcere de Turi, nas imediações de Bari, pouco depois de Gramsci ter obtido autorização para estudar e escrever.

Foi no período prisional que Gramsci introduziu o conceito de “povo nação”, extraído da palavra russa narodnik, que significa, ao mesmo tempo, popular e nacional.

“O termo indica o povo não como ideal abstrato ou como mito, mas como ‘massa popular’ de estratos subalternos. A nação também não é entendida como mito abstrato, como no discurso nacionalista, mas como articulação histórica concreta de uma unidade linguística e de cultura”, explicou Mussi.

Dessa forma, a autora enfatiza que o livro não trata de um relato biográfico do filósofo, mas de um esforço para compreender como Gramsci pensava o impacto da vida literária sobre a vida política italiana e vice-versa. “Gramsci pensava a literatura como uma obra estética, mas também do ponto de vista do público, do porquê de uma obra literária ser lida, unindo política e literatura.”

Mussi integra, desde 2008, na Unicamp, o Grupo de Pesquisa Marxismo e Pensamento Político, que tem Gramsci como importante referência temática e metodológica.

Política e literatura: Antonio Gramsci e a crítica italiana
Autora: Daniela Mussi
Lançamento: 2014
Preço: R$ 38
Páginas: 186

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