INFÂNCIA

Motorista, motorista, olha a pista!

A gente ia visitar a fábrica da Coca-Cola. Eu estava na primeira série, era pertinho da escola, mas...

A primeira frustração a gente nunca esquece...

Cursava o primeiro ano primário quando a nossa professora veio com a notícia: em breve a classe visitaria a fábrica da Coca Cola. E mais... não seria era apenas uma simples visita, cada criança também ganharia um copo de Coca Cola e um brinde (diziam que seria uma mini garrafinha). Beber um copo deste refrigerante hoje, além de não ser novidade, não daria tanta felicidade quanto para as crianças daquela época. Sabe-se do consumo exagerado deste tipo de bebida por uma boa parte das famílias neste nosso tempo. Então nada de novo para essa geração, mas para a minha parecia o céu!

Na minha infância o refrigerante era consumido apenas nas festas, e não em todas as festas! O mais habitual era oferecer groselha pra criançada. Era assim: botava numa jarra um pouco de groselha “Milani” (os mais velhos lembram do jingle da groselha vitaminada Milani?), açúcar e um tantão de água para misturar tudo. Os mais “endinheirados” serviam-se da ainda famosa tubaína. Ainda hoje o gosto da tubaína me faz recordar da infância.


Propaganda antiga da Coca-Cola (Foto: Pinterest/Reprodução)

Não me lembro bem, mas tenho quase certeza que até aquele momento sobre a notícia da excursão, eu nunca tinha botado uma gota de Coca Cola na boca. Agora imagine beber um copo inteiro e ainda dentro da fábrica? Eu não via a hora de chegar o dia, seria a minha primeira excursão!

Quando somos crianças o nosso tempo tem medida diferente de quando somos adultos. O Natal demorava muuuuito! Costumeiramente os presentes para as crianças eram dados apenas no Natal, por isso, para mim, o ano parecia ter 600 dias. Hoje parece não passar de 150!

Entre a notícia dada pela professora e a efetiva data da visita, acho que se passou mais de um mês, não sei precisar ao certo. Neste período sonhei muito com a fábrica da Coca Cola sem nunca tê-la visto ou ouvido como seria. Sabe o filme “A fantástica fábrica de chocolate”? Pois bem, a primeira versão deste filme aconteceu na primeira metade da década de 1960, claro que não assisti e nem sabia da sua existência, mas por estas coincidências, na minha imaginação a fábrica da Coca Cola era um pouco parecida com a fábrica de Chocolate de Wonka. E tem mais, o meu primeiro ano primário foi quase no mesmo período do lançamento deste filme que só fui assistir já adulta.

O grande dia chegou! Fui para escola exultante e com uma felicidade que não cabia em mim. Só neste dia soubemos que o próprio ônibus da Coca Cola viria nos pegar: mais felicidade ainda! Eu entraria dentro do ônibus da Coca Cola! Ficamos todos lá na frente da escola aguardando ansiosos.

Eu estudava numa escola que se denominava “escolas agrupadas”. Era um conjunto de barracões de madeira com instalações bem precárias. Uma escola de periferia onde uma boa parte dos estudantes era de crianças pobres, algumas tão pobres que não tinham sapatos , usavam chinelos mesmo no inverno

Quando o ônibus virou a esquina o meu coração pareceu sair pela boca. Ele era todo vermelho e com dizeres Coca Cola nas laterais e no letreiro da frente. O modelo era daqueles ônibus escolares amarelos que sempre aparecem nos filmes americanos. Só que aquele da Coca Cola era todo vermelhão Ferrari. Achei simplesmente lindo!

A professora ficou quase louca para nos arranjar todas no ônibus ao mesmo tempo em que eu buscava alguma estratégia suicida para ficar na janelinha. Não me lembro, mas consegui ficar na janelinha depois de vencer uma certa batalha de quase cortar a cabeça de alguns “coleguinhas”.

O percurso da escola até a avenida principal do bairro, presumo que dava 800 metros. O ônibus seguia devagar enquanto nós lá dentro gritávamos feitos malucos. Uma farra de 800 metros quando, de repente... PÁAA! Quem não estava segundando em nada e ainda estava em pé no corredor foi parar no chão. O motorista não percebeu, mas havia um poste, literalmente, no meio do caminho, no meio do caminho havia um poste!

Fazia algumas semanas que a avenida principal do bairro tinha sido ampliada e asfaltada. Com isso, algumas partes do que era calçada virou rua. O poste que o ônibus da Coca Cola bateu, estava cerca de um metro para fora da calçada, isto é, estava na rua.

Depois de verificarem se alguma criança se machucou, estávamos todas bem, nada de mais grave com nenhuma, só o susto. Veio depois a frustração de precisar sair do ônibus. Não iríamos mais para a fábrica da Coca Cola.
Fiquei arrasada! No dia seguinte a professora deu uma notícia boa: a Coca Cola prometeu que uma nova excursão seria feita. Data? Ainda ela não havia, mas deveríamos aguardar. O tempo foi passando, foi passando e o final do ano letivo se findou. Novo ano, depois outro e nunca mais se falou da excursão para a fábrica da Coca Cola.

Ao escrever este texto, pensei: E se hoje eu recebesse o convite para visitar a Coca Cola? Bem, só aceitaria se aquele ônibus (tinha que ser daquele modelo), viesse me buscar. E mesmo assim talvez eu não aceitasse. Pensando bem a grande magia daquele momento era porque eu uma criança com uma imaginação gigante e onde via tudo como novidade, a ponto de transformar, na minha cabeça, uma fábrica de refrigerantes numa fábrica de magia. Hoje só veria uma fábrica de bebidas para deixar as pessoas doentes e viciadas.

 

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