MULHERES NA LUTA ARMADA

Para pesquisadora, "o feminismo propõe uma alternativa para a sociedade"

A autora do livro 'Mulheres na Luta Armada' fala sobre feminismos estrangeiros em comparação com lutas brasileiras


Retratos de militantes feministas brasileiras retiradas dos prontuários do Dops, Arquivo Publico do Estado de S. Paulo (APESP)

Muitas vezes se adotam no Brasil alguns parâmetros criados por outras culturas, que não correspondem muito à realidade brasileira. Sabemos que o feminismo socialista assumiu uma hegemonia no Brasil, na França e na Itália, mas em contrapartida nos Estados Unidos o feminismo adotado seguiu uma corrente diferente.

Lélia Gonzales para mim é uma referência, pois como militante mulher e negra agregou mais elementos ao avanço feminista, quando chamou a atenção para a tendência das brasileiras de reproduzir a postura do feminismo europeu e norte-americano ao minimizar ou até mesmo deixar de reconhecer a natureza peculiar da experiência do patriarcalismo por parte das mulheres negras, indígenas e de países colonizados. Precisa-se pensar na economia de países pobres e ricos e no impacto que isso tem sobre a vida das mulheres e sobre a produção intelectual. Usar parâmetros de outras culturas sobre a nossa não deixa também de ser um exercício discursivo de poder. 

Lélia se pergunta: são grupos com interesses e condições comuns?

Morei na França por um tempo e minha observação da realidade me mostrou que a teoria feminista francesa está bastante próxima à prática feminista, quando uma sociedade mais avançada garante maiores direitos às mulheres, com a divisão mais igualitária de tarefas dentro de casa, o acesso a creches, menor tempo da mulher no trabalho doméstico (a mulher não passa mais do que 20 minutos na cozinha), direito ao aborto, relações mais livres sem sentimento de posse, maior compartilhamento no trabalho, maior grau de instrução das mulheres, independência financeira, e maior controle do corpo e de sua sexualidade, comparativamente ao Brasil. Não que tudo isso se dê sem problemas, pois violência doméstica e estupro também ocorrem, mas em proporções muito menores do que no Brasil.

Precisamos pensar nas ideias que são produzidas em uma sociedade desigual, racista e sexista como a brasileira, quando a brasileira é um retrato do tradicionalismo de um país católico - agora sofrendo a patrulha evangélica - vivendo em posições inferiores ao homem em muitas esferas da vida. Quando as exiladas brasileiras voltaram ao Brasil, a teoria feminista era algo distante das mulheres, sobretudo das mulheres da periferia. Beatriz Cannabrava em encontros com as mulheres não mencionava a palavra feminista, mas a chamava de movimento de mulheres, pois como uma delas lhe perguntou um dia: “ah, feministas? Aquelas mulheres de laquê nos cabelos?”. Aos poucos essas mulheres foram se descobrindo feministas, na prática.

A militância para essas mulheres pobres significava lutar por asfalto na rua, por água encanada, por transporte, pelo preço dos alimentos. Por anos, foi uma luta associada a uma ideia superficial da “mulher do lar”, quando na realidade foram espaços reivindicativos importantes para o começo de sua organização e de sua militância. Da militância armada inclusive. Foram movimentos que foram destruídos com o golpe e retomados no final dos anos 1970 pelas mulheres.

Lélia chamava a atenção para a desconstrução dos “feminismos hegemônicos” e dizia, “o processo de construção social e cultural não será o mesmo para todas as mulheres”. E acho que não é. Veja-se o caso da mulher negra de periferia, que utiliza a maternidade no confronto com o Estado em busca de direitos: saber quem assassinou seu filho, como ele foi morto, pedir justiça. A maternidade no feminismo clássico e branco não tem esse papel. Na periferia a maternidade representa uma luta nos dias de hoje. Lélia entre outras mulheres do passado, são mulheres que já naqueles anos adiantaram muitas das discussões que temos hoje.

A figura de Pagu, por exemplo, já nos primeiros anos da década de XX já denunciava o patrulhamento dos partidos em relação à mulher, e a grande penitenciária social da época para elas: os teares. Lélia Gonzalez defendia um feminismo afrolatinoamericano e destacava a importância de um feminismo negro, quando a maioria da população brasileira era (e é) negra e mulher. Hoje se pergunta se é possível se escrever uma história transnacional de gênero, em contextos tão diferentes. Se olharmos para a mulher índia, vamos nos deparar com os vários matizes do feminismo nas comunidades da América Latina. Há pesquisas realizadas com índias na Costa Rica e Guatemala que identificam aspectos/performances circunstanciais de como as mulheres obtém ou perdem posições de poder na tribo. Assim, o conceito de masculinidade e feminidade são atravessados pela cultura. Sexualidade é assim um mosaico da diversidade.

Em entrevista recente e na onda das denúncias de violência sexual no meio artístico e cultural americano, a teórica americana Joan Scott, falou sobre o poder da mídia, e sobre o comportamento das próprias mulheres, quando “apresentam as mulheres apenas como vítimas dos sistemas patriarcais e sem prestar atenção às maneiras complexas através das quais o poder opera na produção de sujeitos e na opressão. O que o Me Too revelou é como as mulheres foram educadas a colaborar nesses sistemas acomodando-se ao poder masculino ao invés de recusá-lo. E o poder funciona como: quando sexo e a oportunidade econômica estão fortemente ligados”.

O feminismo é a busca de uma nova forma de sociedade que envolve todas as chamadas “expressões de gênero”. Se pensarmos bem, a sexualidade não deveria ser uma bandeira política, mas quando ela se torna, é porque existiu (e existe) a intolerância contra ela. O feminismo propõe uma alternativa para a sociedade. Ele nega o racionalismo universal abstrato, o discurso masculinizado e branco. Ele destrói a hierarquização a partir da percepção das diferenças sexuais.

Volto a Lélia, ela já propunha no início dos anos 80 um feminismo negro, inaugurando a ideia de “descolonização do saber”. Sou a favor desta ideia, e temos referências brasileiras suficientes para avançarmos nesta questão com autoras brasileiras e um conjunto de obras que se interrogam justamente sobre a cultura de dominação masculina no Brasil.

Sobre a autora: Maria Cláudia Badan Ribeiro é autora do livro Mulheres na Luta Armada, Bacharel em Letras (italiano e francês) pela Universidade Estadual Paulista (UNESP), Mestre em Sociologia pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), Doutora em História Social pela Universidade de São Paulo (USP), Pós-Doutora pelo Instituto de Altos Estudos da América Latina (IHEAL-Sorbonne Nouvelle) e pelo Programa de Pós Graduação em Sociologia da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).

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