MULHERES NA LUTA ARMADA

A literatura feminista pode ajudar na construção de uma sociedade mais igualitária

A pesquisadora explica que o movimento feminista agrega pautas como raça, etnia, classe socioeconômica, nacionalidade, cultura e sexualidade

A história das mulheres nos convoca hoje a pensar sobre o que é ser feminista e nas conquistas que o feminismo pode trazer à mulher. O movimento feminista avançou muito nos dias de hoje agregando pautas como raça, etnia, classe socioeconômica, nacionalidade, cultura e sexualidade. Ele questiona a suposta unidade de uma identidade feminina, como se houvesse um “modelo de mulher”. O movimento queer, por exemplo, se recusa a aceitar definições pré-estabelecidas, o feminino e o masculino como dados pré-existentes, que como já dizia Simone de Beauvoir são conceitos construídos socialmente e passíveis de desconstrução. O conceito de gênero de hoje é performático. 

A teórica Judith Butler insiste na categoria do feminino enquanto algo fluido também, que resiste a qualquer tentativa de estabilização dentro de paradigmas representativos. A importância do feminismo e de sua literatura foi tematizar as várias formas de dominação, escancarando as regulações normativas associadas ao gênero e nos ensinando a fugir deste enquadramento. Precisamos superar no Brasil um legado misógino. O feminismo na prática ainda se constrói. Como disse Eleutéria Amora em uma entrevista para a HuffPost Brasil “a gente nunca deixa de ser uma feminista em construção”.

Anette Goldberg classifica o feminismo americano como feminismo sexista, embora o feminismo americano seja tributário da classe trabalhadora feminina, que se engajou em massa no trabalho fora de casa. Os homens nos Estados Unidos tiveram que participar concretamente da divisão das tarefas domésticas. Entrevistei Sandra Brisolla, professora da UNICAMP (Universidade Estadual de Campinas) já falecida, e ela me disse que quando entrou na faculdade de Economia a presença de mulheres era muito pequena, eram apenas 7 mulheres em toda a Escola de Economia. Hoje a presença dela já é a metade. Ela realizou uma pesquisa sobre a Mulher e a Ciência, investigando a presença feminina nas ciências exatas, nas chamadas “ciências duras” e constatou que ainda existe muito preconceito dentro da área de engenharia em relação à capacidade das mulheres.

Muitos professores são ainda machistas e acham que “mulher não aprende”, ou que a “mulher não sabe fazer conta”. O trabalho gerou um artigo nos Cadernos Pagu  n. 32 (2009), “Presença feminina no estudo e no trabalho da ciência na Unicamp”, com a colaboração da Professora Elza da Costa Cruz Vasconcellos do Instituto de Física Gleb Wataghin, Unicamp. Para ela, inclusive, a luta armada não representou o marco da liberação feminina, que se deu, segundo ela, anos antes em 1961 e 1962, justamente com o rompimento sexual da mulher.

O Brasil não deixa de ser um país desigual com uma forte cultura machista, com casos de violência doméstica atravessando todas as faixas sociais, ainda que exista a Lei Maria da Penha, com um número crescente de violações ou estupros e com acentuada divisão sexual do trabalho. Poucas mulheres ocupam cargos eletivos, sendo que a maioria de votantes no Brasil são mulheres, 52%. A falta de punição dos violadores reitera a subjugação feminina. Isso se assemelha à falta de punição aos torturadores em nosso passado recente. Raros foram os casos de militantes que não foram torturadas. A tortura era uma política de Estado colocada em prática na obtenção de informação. Ela foi usada para "quebrar" o militante. Muitas vezes a polícia já possuía a informação antes do interrogatório. Fazia parte da política de desmoralização da resistência. A tortura não poupou mulheres, claro. Muitas sofreram estupros, tiveram os seios destruídos, cabelos arrancados, dentes quebrados, e sofreram contínuas ameaças sobre a sorte de seus filhos. Outras foram presas grávidas e sofreram abortos. 

O estupro também apareceu como tema privado no interior das Clínicas do Testemunho. Estamos longe de fazer um debate aberto no Brasil no mesmo nível em que ele é realizado na Argentina, com todas as críticas que existem na sociedade argentina e mesmo com a polêmica que o livro Putas y Guerrilleras de Miriam Lewin e Olga Wornat gerou, por exemplo. Este livro, escrito por duas jornalistas argentinas, também ex-presas políticas trata do estupro de mulheres, e das críticas surgidas na democracia argentina, de que o que ocorreu com estas mulheres não foi uma violência sexual ou um crime de lesa humanidade, mas “sexo consentido”. O livro recém-publicado de Hugo Studart Correa, Borboletas e Lobisomens. Vidas, Sonhos e Mortes dos Guerrilheiros do Araguaia tem igualmente levantado criticas/denúncias de militantes e aberto um debate, quando o autor interpreta violência física (estupro) como uma relação de amor entre um militar e uma guerrilheira.


Capa do livro "Mulheres na Luta Armada", de Maria Claudia Badan Ribeiro (Editora Alameda, 2018)

Dei uma contribuição pessoal e episódica à CNV entrando em contato com algumas mulheres que prestaram depoimento no Rio de Janeiro sobre violência de gênero. Apesar de oficial e necessário, o trabalho da CNV avançou muito pouco, apesar do entusiasmo da equipe. Me encarreguei de procurar algumas militantes, uma situação delicada. Para complicar ainda mais um pouco, além da agenda apertada da CNV, a própria Comissão não definiu muito bem o que entendia por “violência de gênero”. No início, integraram à lista das entrevistadas aquelas que sofreram estupro, depois aquelas que sofreram tortura psicológica, depois as famílias atingidas e depois os efeitos do exílio político entre as mulheres... Não houve uma definição clara a respeito do assunto, como acho que até hoje não há no Brasil. Estupro continua dependendo de uma situação específica, da avaliação específica de um juiz ou de um promotor, e ainda sendo um assunto íntimo e privado (os casos de “abusos sexuais” no transporte público de São Paulo mostraram o tipo de atenção que é dada à questão hoje). Para quem atravessou esta experiência traumática naqueles anos, a vergonha ultrapassou infelizmente o delito, porque o assunto ainda é considerado tabu, algo relacionado à esfera privada. Poucas são as mulheres que conseguem falar do trauma.

A questão é como aparece no livro argentino: o estupro não é tratado como uma violência específica contra a mulher, mas como parte da tortura. E isso altera o modo como olhamos para ele. No livro, falo da tortura como método sistemático de obtenção de informações, de como as mulheres conseguiram se proteger ou sobreviver a ela e as táticas encontradas para isso individualmente, ou por interferência da organização. No livro aparecem também alguns levantamentos feitos por mulheres para a descoberta de centros de tortura clandestinos e ele termina com uma denúncia rara de Zilda Xavier sobre a sua prisão e tortura. O documento nunca veio a público, e foi descoberto casualmente no acervo de Luiz Carlos Prestes na Unicamp.

Sobre a autora: Maria Cláudia Badan Ribeiro é autora do livro Mulheres na Luta Armada, Bacharel em Letras (italiano e francês) pela Universidade Estadual Paulista (UNESP), Mestre em Sociologia pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), Doutora em História Social pela Universidade de São Paulo (USP), Pós-Doutora pelo Instituto de Altos Estudos da América Latina (IHEAL-Sorbonne Nouvelle) e pelo Programa de Pós Graduação em Sociologia da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).

 

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