MULHERES NA LUTA ARMADA

A importância de resgatar o passado das lutas femininas no Brasil

Para pesquisadora, "a ditadura usou os critérios de sexo para definir as relações humanas"


Fotos do processo da guerrilheira Maria Alice Campos Freire (Foto: Arquivo Edgard Leuenroth - AEL/UNICAMP)

É sempre importante resgatar as experiências femininas ao longo da história, pois as mulheres foram por longos anos silenciadas pela igreja, pelo casamento, pela política e pela cultura do comportamento. Até passado recente, por exemplo, as mulheres não tinham igualdade jurídica com os ho¬mens. Uma mulher casada não podia abrir conta em banco, nem se inscrever numa universidade, nem sair desacompanhada. O divórcio até o ano de 1962 era classificado como um aspecto patológico. Uma mulher desquitada, por exemplo, não podia prestar concurso público.

Falar, porém, sobre as lutas das mulheres sob a ditadura ajuda a se produzir uma história revigorada contada pelas suas próprias protagonistas. Um tipo de “feminismo” que enfrentou os autoritarismos: da ditadura, da família patriarcal, da escola, dos espaços do trabalho, e por fim do Estado.  Representou uma ruptura com uma série de coisas que existiam no passado, o fim dos chamados “anos dourados” e a construção de uma subjetividade revolucionária, como definiu Alejandra Oberti.

A entrada na luta armada respondeu ao desejo e à convicção dessas mulheres. Ela provocou uma mudança de referencial em relação ao que se entendia como “uni¬verso cultural feminino”, provocando o rompimento definitivo com as “leis simbólicas” definidas para a mulher. Considera-se mais frequentemente mulheres como vítimas dos conflitos políticos do que como sujeitos capazes de administrar o combate e a morte. Esse tipo de comportamento rebelde e contestador das mulheres contrastava, entretanto, com o padrão moral criado pela ditadura onde a naturalização das diferenças entre macho e fêmea encontrou um campo fértil no Brasil da época. A ditadura militar recuperou o discurso universal das diferenças entre homens e mulheres, e dificultou um projeto de liberação feminina (e também masculina) que vinha se dando na esfera pública e privada e em consonância com os avanços da sociedade urbano-industrial. Se a historiografia não se debruçou muito sobre a experiência da mulher em grupos armados, a ditadura acabou por soterrar as suas experiências, quando produziu um corpo.

A conversão obrigatória aos ditames morais da ditadura encontrou no corpo o local privilegiado de informações “subversivas”, no corte de cabelo, no vestuário, no penteado. E foi nas relações entre mulheres e na normatividade que se refere ao feminino onde se viu uma concreta, ordenada, drástica e sistemática, punida com humilhação pública e com o estigma social da mulher transgressora, da rebelde, da mulher que passou a ocupar o espaço público varrendo para longe a ideia do “sexo frágil”. Priscila Paula de Souza, pesquisadora da Unicamp, ao estudar as fichas de qualificação das mulheres presas mostra como as informações sobre o corpo eram relevantes para o regime quando ele descrevia aspectos físicos e psicológicos. As descrições eram: peito saliente (para mulheres), efeminado (para homens), masculinizada (para mulheres) ou personifica o sexo oposto. Como ela afirmou, “logo dando entrada no presídio, as questões ligadas à sexualidade já eram definidoras dos encarcerados”, e consideradas importantes para o aparato repressivo.

Assim, a ditadura usou os critérios de sexo para definir as relações humanas, e sua preocupação com a “moral” reforçou cada vez mais a intervenção de Estado. O golpe militar de 1964 trouxe um repertório de violência, controle e regulação da vida cotidiana. Diferentes esferas da vida social foram controladas, moldadas e disciplinadas à luz de um projeto de ordem homogêneo que exacerbou as diferenças de gênero, instaurou hierarquias raciais (veja-se como era tratado o negro, por exemplo), impondo novas formas de segregação e de discriminação.  A ditadura criou um código de conduta específico, lançando mão de sanções, exclusões e instaurando o que na sua compreensão representava o bem, o mal, a ordem, a desordem, a retidão e o desvio. A perseguição não atingiu apenas a guerrilheira de armas na mão, mas sujeitos que se opunham à defesa da ordem tradicional e conservadora, que naquele momento estava sendo questionada. A censura manteve as tesouras firmes, por exemplo, contra Cassandra Rios, e sua ficção sobre a lesbianidade.

A luta armada é parte das lutas a serem integradas à história brasileira, e não descartada. A ação política radical que se manifestava na época tinha, claro, a guerra como elemento simbólico, o que significava contestar os cânones da institucionalidade, e para a mulher, a posição de mãe e boa esposa, alterando as regras do jogo. O simples fato de a mulher fazer parte da resistência, agregando-se às redes de apoio e logística, se inserindo no núcleo armado ou mantendo uma atuação camuflada e conspirativa contra a repressão de Estado, já mostra do que ela foi capaz. Não se pode, por isso, tratar da militância feminina apenas como uma excepcionalidade presente em épocas de crise. Suas experiências tem que ser incorporadas definitivamente a historia pública, destacando a importância que a presença da mulher assumiu nas estruturas de guerra.

A condição feminina não era irrelevante na luta armada, e Carlos Marighella sabia disso. Marighella defendia a participação política da mulher. Dentro do partido, era comum vê-lo conversando com seus quadros, no intuito de convencê-los de que deviam incorporar suas mulheres ao processo. Na ALN (Ação Libertadora Nacional) ele integrou muitas delas, e nos documentos oficiais da organização a participação política da mulher já ganha destaque desde seus primeiros textos, quando ele diz, “na luta revolucionária, não há homem que queira retroceder quando na vanguarda encontra a mulher combatendo”. Foi pela interferência de Carlos Marighella junto aos cubanos que as mulheres puderam participar do treinamento de guerrilha rural na ilha, já que eles alegavam que as mulheres eram fatores de divisão na tropa. Zilda Xavier foi a Cuba para comunicar a posição do dirigente: se as mulheres não fossem aceitas, não haveria mais treinamento em Cuba. Entrevistando as mulheres da ALN percebemos que muitas delas já liam literatura de teor feminista, que a liberação da mulher estava em crescente processo nos anos anteriores à ditadura e que a incorporação dessas mulheres à luta armada só foi possível graças a esse espírito. 


Propaganda revolucionaria da ALN (Ação Libertadora Nacional) (Foto: Arquivo Edgard Leuenroth - AEL/UNICAMP)

 

A fala de Maria Lygia Quartim sobre a urgência da luta ilustra bastante a escolha radical, “quando a Juliete Mitchell esteve em 1968 no Brasil, até que eu li o artigo e achei interessante, mas a gente estava completamente engajada na luta armada”. Precisamos assim entender o contexto da ditadura e o vanguardismo destas mulheres naquele momento, dentro do pensamento que esta época produziu, sem exigir mais dessas mulheres, interpretando suas ações e movimentos dentro de um feminismo de caráter renovado nos dias hoje, que rompe com muitos conceitos e não mostra o quadro de pensamento da época. Também acho desonesto afirmar como já li, que a relação de poder estabelecida pela ditadura contra a mulher e seu comportamento machista, possam ser equiparados ao machismo dos grupos armados. É um absurdo pensar isso em relação à ALN, que não funcionou desta forma, dando espaço e um tratamento diferente à mulher, a se considerar que elas estavam em todos os locais da militância, e que a ALN por ser uma organização com um perfil horizontal permitiu essa integração mais ampla. Maria Lygia escutava em colégio religioso, “melhor casar que abrasar”. Em anos muito difíceis as mulheres foram capazes de propor muitas rupturas não só em relação à sua participação na luta armada, mas quanto à sexualidade: a virgindade, o casamento, o sexo dissociado da maternidade/reprodução, estavam sendo questionados. Enquanto a mulher avançava o regime punia, desmoralizava, humilhava. Essas mulheres eram “prostitutas”, “desviantes”, “subversivas”.

Basta lembrar que ainda durante a ditadura houve campanhas para esterilização feminina, defendidas como “controle de natalidade”, e que os movimentos LGBTs também foram alvos do Estado, quando no ano de 1980 em São Paulo foram realizadas a chamada “Operação Limpeza” promovida pelo delegado Jose Wilson Richetti, em que polícia civil e militar saiu prendendo e espancando prostitutas, travestis e homossexuais, e a “Operação Sapatão”, com a prisão arbitrária de lésbicas devido a sua orientação sexual.

Algumas passeatas gays também sofreram intervenção, quando carregavam cartazes com a inscrição: Cure seu Preconceito! Falei de um tipo de “feminismo” durante a militância armada que não é o feminismo como o entendemos hoje, em suas variadas formas e correntes: um feminismo que reemerge modificado, considerando o papel das mães da periferia (como as mães de Acari, mães da Cinelândia, etc) e ao mesmo tempo integrando a teoria queer às novas análises de gênero. O feminismo mais radical começou no exilio francês e com a volta das militantes políticas ao Brasil, mas nem todas as mulheres que pertenceram à ALN fizeram parte dele como integrantes ativas (por questões variadas).  Lá se formou o chamado movimento autônomo das mulheres, com a criação dos grupos de consciência e palavras de ordem como “Nossos corpos nos pertencem”. Maira Abreu trabalhou em seu livro com estes grupos, o Grupo Latino-Americano de Mulheres em Paris (1972-1976) e o Círculo de Mulheres Brasileiras em Paris (1976-1979), o chamado “feminismo de Segunda Onda”, que defendia o pessoal como político como passo decisivo para a autonomia da mulher entrando às vezes em conflito com a esquerda marxista, que enfatizava apenas a luta de classes como a mola propulsora da revolução. As teorizações feministas foram assim, introduzidas no Brasil por experiências pessoais ou pelos percursos acadêmicos de cada mulher que com elas se identificaram. As mulheres na França costumavam reproduzir uma frase de Gloria Steinem escrita num adesivo: “As mulheres precisam de um homem assim como um peixe precisa de uma bicicleta”.

Podemos dizer que a emancipação feminina se desenvolveu como prática para as mulheres no enfrentamento contra a ditadura e será depois pensada em termos teórico-científicos na Europa, com a inserção de outras pautas como a politização do vivido, as questões sobre o direito ao aborto, a divisão sexual do trabalho, entre outras. A politização dos novos temas nos movimentos sociais vem no bojo destas mudanças. Houve graus diferentes de emancipação até se chegar ao movimento feminista propriamente dito, que não são muito considerados na historiografia e vistos como movimentos difusos. Mostro um pouco no livro como essas atividades desempenhadas por mulheres antes do golpe de 1964 foram importantes para sua conscientização e participação política fazendo parte de um processo de liberação feminina anterior e que teria efeitos determinantes no que viria após o golpe de Estado, que acabou com todo o trabalho político de ligas femininas, e com a maior parte das associações de bairros, movimentos contra a carestia de vida, e com outros grupos de mulheres.

Maria Cláudia Badan Ribeiro é autora do livro Mulheres na Luta Armada, Bacharel em Letras (italiano e francês) pela Universidade Estadual Paulista (UNESP), Mestre em Sociologia pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), Doutora em História Social pela Universidade de São Paulo (USP), Pós-Doutora pelo Instituto de Altos Estudos da América Latina (IHEAL-Sorbonne Nouvelle) e pelo Programa de Pós Graduação em Sociologia da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).

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