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Do diamante ao aço, livro conta a história da primeira fábrica de ferro do brasil

Entrevista com o historiador Américo Antunes, autor do livro “Do diamante ao aço: O ilustrado Intendente Câmara e a verdadeira história da primeira fábrica de ferro do Brasil”


(Foto: Divuldação)

O livro “Do Diamante ao Aço” conta a história do ilustrado Intendente Câmara, um dos pioneiros no processamento de ferro em alto-forno no Brasil.

Nascido em 1764 em Itacambira, no Norte de Minas, Manuel Ferreira da Câmara Bethencourt e Sá, tinha raízes fincadas na Bahia, onde seus antepassados fizeram fortuna na senhoria de canaviais e engenhos e na administração colonial. Formado na versão portuguesa do Iluminismo, Câmara dominava pelo menos seis idiomas e legou trabalhos sobre os mais diversos campos das ciências, desde a metalurgia, mineração, mecânica, química e botânica até a agricultura e a legislação das minas, como, aliás, era comum entre os naturalistas do seu tempo.

O Painel Acadêmico conversou com o historiador Américo Antunes, autor que está lançando a segunda edição do livro Do Diamante ao Aço pela Editora Alameda.

Confira a entrevista completa abaixo.

Painel: O que despertou o seu olhar para o tema do livro?

Américo: Em tempos do aqui e agora, como o que vivemos hoje, o descaso com a memória e a História tornou-se regra, infelizmente. Pouco conhecemos do nosso passado e, quando muito, personagens que marcaram determinados períodos históricos são apenas nomes de monumentos ou logradouros públicos. No caso do desembargador Manuel Ferreira da Câmara de Bethencourt e São, o Intendente Câmara, a situação é ainda pior. Embora tenha sido pioneiro no processamento de ferro em alto-forno no Brasil – minério que, aliás, até hoje é carro-chefe da economia mineira –, ele é lembrado apenas no nome de uma usina siderúrgica em Ipatinga ou pelas ruínas mal-conservadas da fábrica que começou a implantar em 1809 em Morro do Pilar e cuja produção em escala industrial teria início em 1815, há mais de 200 anos.

No Distrito Diamantino, primeiro enclave diamantífero descoberto pelos portugueses no Ocidente e do qual foi o primeiro intendente brasileiro, entre 1807 e 1822, a sua governança é também pouco referenciada. Mas foi ele, por exemplo, que iniciou a mecanização da extração dos diamantes, que fabricou no Distrito a pólvora - então importada da Europa - para uso nas lavras e que foi responsável pela introdução de sistemas de canalização de esgotos e águas fluviais no antigo Arraial do Tijuco, bem como pela pavimentação de estradas, a exemplo do famoso Caminho dos Escravos, e pela utilização do ferro em larga escala no embelezamento das sacadas dos casarões.

Em 1999, quando Diamantina estava em campanha para o seu reconhecimento como Patrimônio Mundial, tudo isso começou a ser investigado, diante das recomendações da UNESCO de resgate da História, da Cultura e de personagens singulares que marcaram a formação da cidade. Alertados pelo então prefeito João Antunes, foi aí então que nos deparamos com as extraordinárias contribuições do Intendente Câmara não só para a cidade, mas também para a História de Minas e do Brasil.  

Painel: Qual a importância de trazer para a luz da historiografia brasileira uma figura como o Intendente Câmara?

Américo: Na história da siderurgia brasileira o Intendente Câmara acabou relegado a um papel secundário, sob a acusação de que a Real Fábrica de Ferro do Morro do Gaspar Soares não passou de uma miragem, um engodo. Devido à mecanização da exploração de diamantes, ele enfrentou no Tijuco forte oposição da elite, cujas rendas provinham da locação de escravos para a Intendência, sendo acusado de desperdiçar vultosos recursos da administração diamantina em uma “fábula do ferro”. Tais críticas eram corroboradas na corte no Rio de Janeiro pelo engenheiro alemão Wilhelm Eschwege, membro do Real Gabinete de Mineralogia do príncipe regente Dom João, e mais tarde pelo diplomata e historiador Francisco Adolfo de Varnhagen. Em sua “História Geral do Brasil”, o historiador anotou que o alto-forno da fábrica do Morro do Pilar sequer chegou a produzir, atribuindo a primeira corrida de ferro no Brasil à Real Fábrica de São João de Ipanema, em São Paulo, ocorrida em 1818 pelas mãos de seu pai, o engenheiro também alemão Guilherme Varnhagen.

Acontece, porém, que tais críticas não resistem aos fatos, como, aliás, já havia mostrado Marcos Carneiro Mendonça no livro “Intendente Câmara”, lançado em meados do século passado. Seguindo as pistas de Carneiro Mendonça, encontrei farta documentação que comprova que o Intendente Câmara não só teve sucesso no empreendimento do Morro do Pilar, como fez também despencar os preços escorchantes do ferro importado até então utilizado em Minas Gerais. Entre estes documentos, destaco a edição nº 66 do jornal “Investigador Português em Inglaterra”, editado em Londres, que reporta as festas celebradas em Diamantina em outubro de 1815 pela chegada do primeiro carregamento de ferro produzido na fábrica do Morro do Pilar e cartas do mestre-fundidor alemão Schönewolf ao próprio Eschwege, entre outros documentos.

Portanto, o pioneirismo do Intendente Câmara merece seu devido lugar na historiografia brasileira, da mesma forma que as trajetórias esquecidas de inúmeros outros personagens decisivos para a formação econômica, social, política e cultural do Brasil.       
         
Painel: De que maneira a cultura e política da época podem ser observadas através da história da mineração?

Américo: A virada do Século XVIII é fascinante. Sob os acordes do Iluminismo e do primado da razão rebelam-se as colônias inglesas americanas e marcha a Revolução Francesa, entre outros movimentos que sacudiram o mundo e os mares em um longo período de guerras e revoltas, como no Brasil a Inconfidência Mineira e a Revolta dos Alfaiates na Bahia. Em Portugal, com a Ilustração - a versão lusa do despotismo esclarecido -, o Marquês de Pombal tentou modernizar a administração do Estado e das colônias, superar o atraso econômico português e retomar a mineração de ouro e diamantes do Brasil, a primeira já em franca decadência desde a década de 1760.

E é este ambiente de profundas transformações políticas, econômicas e culturais - e que se estenderão aos primeiros anos do Século XIX no Brasil com o traslado da família real portuguesa, a independência e o império -, que contextualiza a trajetória de personagens envolvidos diretamente na busca de novos caminhos de desenvolvimento - da mineração ao comércio, da indústria à agricultura -, como o Intendente Câmara ou o seu colega na Universidade de Coimbra, José Bonifácio de Andrada, com quem também revezou na presidência da Assembleia Constituinte em 1823.

Além de estudarem em Coimbra, então centro de formação das elites tanto de Portugal quanto das colônias, os dois viajaram por oito anos em missão científica pela Europa, visitando desde centros industriais a escolas de química, biologia, mineralogia e metalurgia na Inglaterra, Itália e Alemanha, quando foram também testemunhas oculares da marcha dos acontecimentos políticos que sacudia o mundo desde a independência americana e a Revolução Francesa. Formados na Ilustração portuguesa e com a bagagem intelectual eclética, de naturalistas e metalurgistas de profissão, ambos voltariam ao Brasil – Manuel Ferreira da Câmara em 1800 e José Bonifácio em 1819 – imbuídos da missão de modernizá-lo em todas as áreas, em prol de um império português unido. Ao ilustrado Intendente Câmara caberia traduzir em ações, em especial, os planos de mecanização da exploração de diamantes e da implantação da siderurgia em escala industrial no Brasil.

Américo Antunes é jornalista formado pela PUC-MG, foi repórter dos jornais Diário do Comércio, Diário de Minas e O Globo e presidiu o Sindicato dos Jornalistas de Minas Gerais e a FENAJ (Federação Nacional dos Jornalistas). Atuante nas causas de preservação de bens históricos, culturais e naturais, ele coordenou a vitoriosa campanha Diamantina Patrimônio Cultural da Humanidade e organiza na cidade mineira o Festival de História, evento bienal único no País das artes e do ofício de reportar a história. Pela Editora Alameda, Américo publicou em 2016 o romance histórico Nós, que amamos a revolução.

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