CULTURA POPULAR

Livro resgata memória e da identidade das Folias de Reis em Florínea-SP

Entrevista com a historiadora Rafaela Sales Goulart sobre seu novo livro “Sentidos da folia de reis: um estudo da memória e da identidade da celebração popular em Florínea/SP”

A Folias de Reis é uma festa religiosa de origem portuguesa que consiste na visita às casas dos devotos e promesseiros. Cantadores e instrumentistas percorrem as ruas entoando versos que anunciam o nascimento do menino Jesus e homenageiam os Reis. Usualmente, os integrantes do grupo vestem roupas bastante coloridas e saem para o festejo no período de 24 de dezembro a 6 de janeiro, dia de Reis, peregrinam pelas ruas à procura de acolhida, oferendas ou em direção a algum presépio.

A partir do contato estreito, durante 3 anos com a comunidade de Florínea-SP, responsável e apaixonada pelo festejo popular, surgiu a pesquisa de mestrado da qual resulta o livro “Sentidos da Folia de Reis: um estudo da memória e da identidade da celebração popular em Florínea/SP”, produção essa viabilizada pela parceria entre a Alameda Editorial e a FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), de Rafaela Sales Goulart.

Para Rafaela, que conversou com o Painel Acadêmico sobre sua publicação, “ o estudo, embora esteja metodologicamente delimitado em uma comunidade e cidade do interior do Estado de São Paulo, ele possibilita reflexões sobre outros lugares e sobre a própria celebração popular que tende a se perder ou se reconfigurar, o que implica e justifica sua relevância social.”

Confira a entrevista completa abaixo:

Painel:  Por que você escolheu trabalhar com o tema da cultura popular?

Rafaela: É interessante quando sou questionada sobre isso, pois me vem à mente um “curta” da minha ainda breve trajetória acadêmica. Na iniciação científica, pesquisava Oswald de Andrade como um porta-voz de uma história intelectual e política, nos primórdios do século XX, e, de repente, resolvi reverter minhas reflexões em história dando vazão, na especialização e no mestrado, a uma cultura popular viva. Falando assim, parece que não havia relação alguma, mas quem lê Oswald sabe o quanto ele defendia esse “modo de ser” popular, tão rico e característico da nossa variada e sábia população brasileira.

Sendo mais específica, a escolha do tema da pesquisa se deu, pois na época morava em Tarumã/SP, cidade localizada no sudoeste paulista, que fica próxima a Florínea e, também, a Assis, lugar em que realizei meu mestrado. Nesse sentido, estava perceptível a mim tal tradição e permanência das folias de reis nessa região. Entretanto, só no momento em que decidi mudar minha reflexão, de fato, para a cultura popular, é que comecei a pensar quais eram as manifestações festivas com uma longa história e ainda recorrentes na região que nasci, pois além desse meu anseio por uma nova temática, também gostaria de contribuir, de alguma maneira, com a comunidade, de modo que minha pesquisa fosse agregada aos seus objetivos, sendo estes ligados a sua vontade de continuidade, ou seja, de manter viva sua identidade e patrimônio cultural. Assim, ao estabelecer os primeiros contatos com a comunidade, pude ter certeza de que meu trabalho seria muito bem-vindo, o que me levou à consolidação dessa ideia e à elaboração e aprovação do projeto de mestrado na Unesp. Importante dizer também que, na região, tal estudo era inédito, o que contribuiu à defesa e relevância social do mesmo.

Painel: Na sua pesquisa, você usa diversos tipos de fontes, qual a importância dessa variedade vozes na construção da narrativa popular?

Rafaela: Essa questão me leva primeiro à discussão das dificuldades e das responsabilidades que envolvem a pesquisa histórica dentro desse tipo de temática que requer uma conversa com outras disciplinas das ciências sociais, como, por exemplo, a antropologia. Ora, seria impossível escrever uma história aos moldes tradicionais (i. é. utilizando apenas documentos escritos) da cultura popular, sobretudo, quando se trata de uma celebração, nesse caso da folia de reis, que é tão dinâmica e que continua a ser celebrada no tempo presente. Nesse sentido, no princípio de toda a pesquisa, mesmo decidindo o que estudaria: a folia de reis; precisei também fazer uma longa investigação composta também por leituras que me levassem à delimitação de onde, quando, por que e como estudaria tal temática. Após delimitação e levantamento prévio de poucas fontes escritas, fui levada a trabalhar essencialmente com a metodologia da história oral e, para minha felicidade, foi através desse ofício de campo (contato e levantamento de vozes e fontes diversas) e de entrevistas aplicadas à comunidade, que consegui finalmente ter mais discernimento sobre o que pesquisava, dando corpo ao meu trabalho, ao mesmo tempo em que dava voz à comunidade. Após essa etapa, no entanto, retornei ao enclausuramento da análise científica em história, transcrevendo, analisando e contrastando as fontes orais com as demais e, assim, podendo chegar ao texto final.

Portanto, essa variedade de fontes que aparecem na pesquisa, surtiu inicialmente de uma necessidade da própria metodologia histórica apresentada, de levantamento de documentações diversas, as quais dão condições, seriedade e mais sentido à análise de comunidades e culturas que sobrevivem essencialmente através da oralidade. Dessa maneira, tal multiplicidade de vozes fortalece a narrativa popular, contribuindo com a sua preservação e salvaguarda, na medida em que demonstra, ao mesmo tempo, sua individualidade e variedade e, portanto, sua identidade no lugar, riqueza cultural e dinamicidade; sendo a última característica encarada como uma estratégia social de sobrevivência dessa cultura e tradição popular, que insiste em fazer parte do que entendemos enquanto “modernidade líquida”, como chamou Bauman. Daí, também, vem a ideia de “SENTIDOS da folia de reis”, ou seja, quais são as memórias da festa, como elas se constituíram ao longo do tempo e como se reconstituem no tempo presente e o que isso tem de relação com o que vivemos atualmente. Tais perguntas só seriam passíveis de resposta se levássemos em consideração toda uma variedade de vozes.

Painel: Qual o perigo de perder no tempo a memória popular que rodeia as Folias de Reis?

Rafaela: Por se tratarem de memórias que sobrevivem essencialmente através de oralidades, dos modos de fazer e de costumes e tradições que são passados de geração em geração, os perigos que a englobam devem ser pensados na medida em que percebemos, por exemplo, o desenvolvimento e modernização dos lugares/cidades em que se encontram tais celebrações populares, o que, ao mesmo tempo, nos encaminha para pensarmos como as comunidades também se modificam e, consequentemente, modificam suas práticas culturais. Alguns entrevistados disseram que possuem essa preocupação com a possível extinção da festa, pois afinal ela partiu de uma realidade rural que se distancia, por exemplo, da condição atual da nossa vida moderna nas cidades, inclusive, de cidades como Florínea, lugar pequeno inserido no interior paulista, mas que é produto também de uma realidade globalizante que enquadra e, ao mesmo tempo, exige uma remodelação social, pelo fato de haver um mercado de trabalho e de estudos que requer muito tempo dos trabalhadores e estudantes, dificultando assim a organização e realização do festejo, tal como era realizado na realidade rural. No campo, as folias de reis eram vistas como um momento de encontro e de sociabilidade entre pessoas que estavam inseridas em um tempo social diferente.

O trabalho, as crenças e os rituais eram distintos do que é sentido hoje em dia nas cidades. Lembro-me de entrevistados que falaram, inclusive, da possibilidade de extinção do tradicional giro das duas bandeiras de folia de reis de Florínea pela sua região - momento em que o grupo se divide para arrecadar prendas (bebidas, comidas e dinheiro) e levar às comunidades orações, músicas, danças e performances que englobam tal manifestação cultural, ritual que ainda ocorre entre os dias 25 de dezembro, findando-se no dia de encontro das bandeiras no dia 6 de janeiro, dia dos Santos Reis, no Parque de Tradições de Florínea. Segundo os relatos esse giro poderia ser extinto pelo fato dos envolvidos terem que trabalhar e, ao mesmo tempo, perceberem uma falta de incentivo público e de vontade da nova geração de foliões, a qual também está envolvida nos novos anseios da atualidade globalizada (estudos, mercado de trabalho e novas formas de sociabilidade). Nesse caso, fica explícita a importância de pesquisas como esta, no âmbito acadêmico, bem como a importância de pensarmos junto às comunidades, cidades e Estado, políticas públicas em prol da memória popular que é parte do patrimônio histórico e cultural brasileiro. 

Essa pesquisa, vale ressaltar, teve uma receptividade por parte dos detentores dos bens culturais, logo que eles também possuem a consciência de que a celebração e sua memória podem perder-se com o passar do tempo

Painel: Qual o papel social da festa na vida das pessoas que a constroem e do brasileiro, de maneira geral?

Rafaela: Penso que o principal papel da festa é manter viva entre as comunidades, sua memória, história, identidade e, portanto, seu patrimônio cultural imaterial/intangível. Patrimônio este que, embora possa ser documentado em livros como o meu, não é totalmente materializável. Dessa forma, a permanência e a reconfiguração de celebrações tais como as folias de reis representam a luta e a defesa social do direito à memória, do direito e dever de salvaguardar experiências e práticas socioculturais que são sentidas e que dão sentido à vida das pessoas envolvidas. No Brasil, de um modo geral, temos muitas folias de reis e demais festividades que, muitas vezes se confundem, pela riqueza e variedade sociocultural que formou e forma nossa história. Hoje temos mais claro dentro de instituições públicas da federação, tais como o IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), que se dedicam a mapear e a pensar políticas de incentivo e de preservação dos múltiplos patrimônios culturais brasileiros, a preocupação com os sujeitos, mantenedores e detentores das festas e demais patrimônios imateriais, reforçando assim o papel social das comunidades festivas, em conjunto com tais órgãos. Entretanto, vale dizer também que ainda não temos o reconhecimento nacional, pelo IPHAN, da folia de reis como um bem imaterial brasileiro, o que ressalta a importância de continuarmos lutando e aprimorando nossa consciência social sobre a memória e sobre o patrimônio cultural.

No caso do grupo em que estudei, foi perceptível o uso de suas estratégias e remodelações sociais em prol da celebração popular, principalmente quando passaram a habitar o espaço da cidade em meados do século XX. Eles escolheram Florínea como lugar e, com a ajuda de alguns líderes da festa, institucionalizaram-se no Parque de Tradições em 1989, local onde é realizada anualmente a folia de reis do dia 6 de janeiro, e também se oficializaram enquanto Associação em 2013. Nesse aspecto, fica mais uma vez evidente a importância do papel social e da união dos detentores dos bens culturais junto às esferas do poder público (municipal, estadual e federal), em prol da folia de reis e dos demais patrimônios que englobam nossa história.

Sobre a autora: Rafaela Sales Goulart é mestre em História e Sociedade pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP/Assis), na linha de pesquisa Cultura, Historiografia e Patrimônio. É especialista em História e Humanidades pela Universidade). É membro do Grupo de Pesquisa Patrimônios - Unesp/Campus Experimental de Ourinhos, na linha de pesquisa Patrimônio Imaterial e Identidades.

 

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