ESPECIAL | ESCRAVIDÃO E LIBERDADE

Livro investiga caráter escravista de romance de José de Alencar

Para autora, revisar os clássicos pode ajudar a pensar problemas estruturais da atualidade

Dayana Façanha é  doutoranda em História Social pela Unicamp e autora do livro Escravidão e política em José de Alencar: O tronco do ipê, Sênio e os debates em torno da emancipação, 1870-1871 (272págs.), publicado pela Editora Alameda em 2017.

Em seu livro, Dayana investiga 'O tronco do Ipê (1871)', romance de José de Alencar ambientado numa fazenda escravista do Vale do Paraíba e escrito durante os debates que antecederam a Lei do Ventre Livre, esmiuçando tudo o que há de história entrelaçada com a literatura de Alencar.

Escritor e deputado do Partido Conservador na Câmara nacional, Alencar se opunha à Lei do Ventre Livre, datada do mesmo ano da publicação de seu romance. 

Para a autora, é importante "revisar interpretações é importante para fazer ver que não há clássicos por excelência, porém escolhas estéticas e políticas definidas dentro de contextos específicos, feitas por atores sociais, que promovem determinados aspectos num conjunto de obras ao passo que obscurecem outros".


 (Foto: Reprodução/Facebook)

Confira a entrevista completa: 

Painel Acadêmico: De onde partiu a escolha pelo tema da escravidão nas obras de Alencar, o que te motivou?

Dayana Façanha: Aconteceu sem querer, quando eu buscava um tema para fazer pesquisa de iniciação científica na graduação enquanto cursava História do Brasil Império. Fui conversar com o professor (Sidney Chalhoub) e ele me sugeriu; como eu gostava de literatura, topei e montamos um projeto de pesquisa. O tema da escravidão na obra de Alencar é marcado por nuances e ambiguidades, informações que se colhem nos detalhes, significados que se constroem aos poucos no cruzamento de fontes (um romance com outro romance, com o teatro, com texto de imprensa etc.), por isso desafia e interessa. Colocava-se o problema de entender o sentido político que Alencar conferia à forma como representava a escravidão no diálogo com seus pares.

Por um lado, se associava às vertentes mais conservadoras na proteção aos interesses escravistas, por outro, ao mesmo tempo, rejeitava estereótipos hostis ao negro, que politicamente flertavam com a ideia de varrer ex-escravos e elementos de matriz africana da paisagem nacional (tema do feiticeiro negro no capítulo 3 do livro). A hipótese de que Alencar dialogava com algum projeto de inserção social do negro após a escravidão, mesmo não sendo crítico humanitário do cativeiro, ainda é questão que tento aprofundar na pesquisa de doutorado, dentro de um conjunto amplo de obras antiescravistas.

Foi só aos poucos que entendi os interesses variados no tema da escravidão na literatura de Alencar e de outros e descobri como fazer minhas próprias perguntas às fontes. Discernir essas coisas é sempre um processo lento, mas também riquíssimo, e não só para a formação individual, também para o desenvolvimento da pesquisa de qualidade no país.

Seria bom se aumentassem, em vez de diminuir, os investimentos federais e estaduais em pesquisa, e em pesquisa em ciências humanas e sociais, num país que ainda precisa investir pesado em educação; que precisa entender a sua gente, conhecer a própria história, construir democracia realmente inclusiva e sólida, não só formar técnicos e produzir vacinas, o que também importa. Para essas coisas todas, precisa de ciências humanas e sociais, sem falar nas artes. Tem que investir e tem que deixar os pesquisadores trabalharem no seu tempo, que é um tempo lento e é importante porque é assim.

Painel: Qual o papel da literatura como fonte para os historiadores?

Dayana: No contexto da pesquisa em história, as obras literárias são fontes como outras. Seja romance, discurso parlamentar, notícia de jornal etc., toda fonte tem as próprias características formais, estilísticas; tem filtros, segue protocolos narrativos. O primeiro passo da leitura do historiador é sempre discernir esses elementos, respeitando a complexidade de cada tipo de documento e do discurso que ele compõe, aquilo que permite ver, que obscurece, esconde, desvia. Nunca é simples.

As obras literárias às vezes oferecem outro ângulo para observar determinado problema. Às vezes, por meio delas se diz coisas, ou se diz coisas com determinadas nuances, que não estão em outro lugar. O recurso a figuras de linguagem, à construção de múltiplas vozes dentro de um mesmo texto, os truques da relação autor, narrador, pseudônimo, constroem estruturas de significados em camadas, às vezes imprevistas pelo autor. Existe uma coisa interessante em O tronco do ipê, de Alencar, por exemplo, que é a cena em que o escravo Benedito ajuda a salvar a filha do barão de um afogamento. A cena é sobre isso. Ao mesmo tempo, indiretamente, constrói um testemunho eloquente e impressionante (rico de imagens e metáforas) sobre a violência da escravidão, como era desvantajosa para o escravizado. Só que não dá para saber até que ponto Alencar calculou todas as interpretações possíveis à cena. A violência do cativeiro é algo que ele evita discutir diretamente no romance, algo que o narrador dele controla, então talvez Alencar tenha construído uma armadilha para os próprios argumentos. Essa característica, de poder acolher sentidos interpretativos múltiplos e concomitantes, faz da obra literária uma fonte incrível, complexifica a reflexão sobre o problema de pesquisa em vista.

Painel: Qual a importância de retomar a discussão sobre a escravidão dos anos 1870-71 na atualidade?

Dayana: É fundamental. Como se sabe, a escravidão no Brasil durou até 1888, último país das Américas a abolir a instituição, num processo que se omitiu de criar políticas adequadas de inserção social para os libertos do cativeiro, cujas consequências aprofundam a experiência de desigualdade e exclusão social da população negra no país; problema ainda em pauta. De meados da década de 1860 até 1871 se fortaleceram no Brasil debates políticos e pressões, internas e externas, para que se aprovasse alguma lei de emancipação, que se tivesse em vista algum desenho sobre o fim da escravidão. Setembro de 1871 marca a aprovação da chamada Lei do Ventre Livre: a partir de então os filhos das escravas nasciam livres, cortando assim a última fonte de produção de escravizados (o tráfico fora abolido em 1850, tendo persistido de forma ilegal no país desde 1831).

A lei era importante porque, além desse elemento principal, garantia outros mecanismos para a emancipação gradual de cativos, por exemplo, o direito escravo à compra da própria alforria por meio de suas economias, algo que afrontava o direito costumeiro dos senhores de escravizar e, ao sabor de sua vontade, alforriar. Ou seja, no fundo, era um debate sobre como reposicionar os sujeitos no jogo das relações sociais de escravidão e liberdade, os interesses senhoriais no parlamento querendo manter seus privilégios. 

Durante as discussões em torno do que se tornou a Lei do Ventre Livre ainda havia enorme apego à escravidão como prática social comum no país, embora começasse a surgir vergonha em se admitir isso. As discussões foram intensas em meio aos matizes de conservadorismo. À parte exceções deixadas de lado, não havia propostas humanitárias de emancipação, porém preocupações senhoriais variadas para guiar o processo de forma a alterar o menos possível a hierarquia de relações sociais e acesso a privilégios. É dentro desse ambiente que o livro investiga as ideias de José de Alencar sobre escravidão e emancipação, na literatura e no parlamento (Alencar era deputado). Trata-se de discernir naquele momento os projetos políticos em jogo, como situavam, além do cativeiro, a presença da população africana, afrodescendente e os elementos de matriz africana na composição da sociedade vigente e imaginada pós-emancipação; num contexto de racialização que começava a se afirmar. Por tudo isso e por ter se tornado momento decisivo no processo de fim da escravidão no Brasil, 1871 é considerado período chave na história política e social do país. Conhecer as questões em debate na época é entrar em contato com algo de essencial sobre o que guiou a formação brasileira, ilumina problemas estruturais que ajudam a pensar a atualidade.

Escravidão e política em José de Alencar: O tronco do ipê, Sênio e os debates em torno da emancipação, 1870-1871

Autora: Dayana Façanha

Editora: Alameda

Páginas272

Preço: 46,00

 

Confira