DIA DO GOLEIRO

Cientistas, pensadores, revolucionários... e goleiros!

No livro 'Goleiros', autor conta que Che Guevara, Albert Camus, Arthur Conan Doyle e até o Papa João Paulo II vestiram a camisa 1


Papa João Paulo II, Che Guevara, Julio Iglesias, Albert Camus e Conan Doyle: líderes, carismáticos, pensadores… e goleiros! (Foto: Livro Goleiros)
 
Um bom goleiro precisa ter total conhecimento das leis da física. Precisa saber dominar o tempo e o espaço para poder estar na hora certa e no lugar exato para tocar a bola. deve subjugar a lei da gravidade e compreender a força centrípeta da trajetória de um cruzamento. ele deve ser também perito em geometria analítica, dominando as equações matemáticas que envolvem ângulos, senos, cossenos e tangentes, a fim de tapar a área de quase dezoito metros quadrados formada pelo espaço entre as 
duas traves laterais, distantes 7,32 metros uma da outra, o travessão e a linha de gol, separados por 2,44 metros.
 
Mas se no campo das exatas faltou aprofundar mais a relação entre ciência e o ofício do arqueiro, na área de Humanas foi possível compreender o lado antropológico da profissão. Entre tantos garotos que ousaram encarar a tarefa de defender uma meta, surgiram alguns homens que se destacaram por sua liderança, serenidade, segurança, sagacidade e seu carisma, capazes de arrastar multidões para onde iam, cujas palavras ganhavam milhões de ouvidos atentos, cujos atos foram usados como exemplos de altruísmo e personalidade. O papa João Paulo II foi goleiro. O líder revolucionário Ernesto Che Guevara foi goleiro.
 
O presidente Café Filho foi goleiro. O escritor Albert Camus foi goleiro. Arthur Conan Doyle, o criador do detetive Sherlock Homes, foi goleiro. O cantor romântico Julio iglesias foi goleiro. O ensaísta russo Vladimir Nabokov (1994) não foi goleiro, mas queria muito ter sido, como revelou: eu era louco para ser goleiro. Na rússia e nos Países latinos, esta arte altaneira sempre esteve cercada de um halo de fascínio singular. distante, solitário, impassível, o grande goleiro é seguido nas ruas pela meninada em transe. rivaliza com o toureiro e os aviadores como objeto de emocionada veneração. a camisa, o boné, as joelheiras, as luvas saltando dos bolsos da calça o distinguem do resto do time. É a águia solitária, o homem misterioso, o último defensor. os fotógrafos se ajoelham com reverência para imortalizá-lo em pleno salto espetacular, desviando com a ponta dos dedos um fulminante chute rasteiro, e o estádio ruge de aprovação, enquanto ele permanece estendido onde caiu durante uns instantes, com a meta ainda intacta. 
 
O idealizador de Lolita não se arriscou nas peladas, ele preferiu fazer das palavras a sua forma de atuação nessa utopia. Outro famoso escritor, no entanto, pôde provar do gosto dessa paixão. Na argélia ainda colonizada pela França, um jovem alto, magro, de aspecto físico frágil, defendia a meta do time da Universidade de argel no início dos anos 1930, quando o futebol começava a ser um denominador comum para as diversas nações do planeta, com a realização das primeiras copas do mundo. Albert Camus ainda não era o consagrado romancista de A peste e O estrangeiro, mas fazia do seu ofício de goleiro objeto de reflexões existencialistas.
 
Ele percebeu a lição de vida que a posição proporciona. camus gostava muito de futebol quando era menino, mas como não tinha muito dinheiro, acabava indo para o gol, onde o sapato gastava menos sola. Toda noite a avó de camus conferia as solas do guri e dava uma surra nele caso estivessem gastas. Não era um grande goleiro, mas já demonstrava ser um excelente observador e pensador, como mostraria nos seus livros. Do futebol, camus sempre declarou ter aprendido importantes lições: ser goleiro é um dos trabalhos mais solitários que existem.
 
Todas as defesas extraordinárias da história colocadas juntas não podem compensar um erro em um momento vital. Depois de muitos anos em que vivi numerosas experiências, seguramente tudo o que sei sobre moral e responsabilidade eu devo ao futebol.
 
Aprendi que a bola nunca vem para a gente por onde se espera que venha. Isso me ajudou muito na vida, principalmente nas grandes cidades, onde as pessoas não costumam ser aquilo que a gente pensa que são…
 
Outro famoso escritor, arthur conan doyle, foi o primeiro goleiro da história do Portsmouth Fc, o clube inglês do qual ele foi um dos fundadores em 1884, três anos antes de publicar As aventuras de Sherlock Holmes, o primeiro livro com o esperto detetive de humor um tanto peculiar que decifrava os mais enigmáticos casos policiais usando elaborados métodos científicos. Provavelmente, os mistérios do futebol eram elementares demais para sir Conan Doyle, que preferiu trocar a bola pela escrita. 
 
Este texto é um trecho do livro "Goleiros, heróis e antiheróis da camisa 1",  de Paulo Guilherme.
 
O livro está disponível para compra em versão capa dura na loja virtual da Editora Alameda ou como e-book na Amazon.
 
 
 
 
 

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