MOVIMENTO SINDICAL

Livro resgata trajetória de José Ibrahim, líder da greve de Osasco de 1968

Para autora, a greve foi um grande marco e pode auxiliar na formação dos futuros líderes

José Ibrahim foi diretor do Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco aos seus 20 anos, líder da greve de 1968 na cidade, enfrentou a ditadura, foi preso, torturado e banido do país em troca de embaixador americano. Viveu cerca de 10 anos de exílio em Cuba, Chile e Bélgica.

No livro José Ibrahim, O líder da primeira grande greve que afrontou a ditadura (260págs), com lançamento previsto para o dia 2 de maio, pela Editora Alameda, a pesquisadora Mazé Torquato Chotil resgata a memória do sindicalista.


Ibrahim junto aos outros presos políticos trocados pelo embaixador americano Charles Burke Elbrick

“Ibrahim ainda é pouco lembrado quando se discute o movimento sindical brasileiro”, afirma Mazé, que teve apoio do Centro de Documentação e Memória do Sindicato dos Metalúrgicos para contar a história que foi abafada pela ditadura.Ao escrever o livro, Mazé desejava "colocar a participação dos trabalhadores em evidência. Mas também havia a vontade, de resgatar memória para entender o presente e pensar o futuro. Outra razão, a mesma que para o exílio de trabalhadores, é que os estudantes, intelectuais e artistas tinham podido falar de suas participações nos movimentos sociais brasileiros no período, o que não aconteceu com a contribuição dos trabalhadores, de importância capital”, explica a autora.

A autora conta que estava estudando jornalismo e trabalhando na imprensa de Osasco no final dos anos setenta quando conheceu Ibrahim, na sua volta do exílio. Anos mais tarde, morando na França e trabalhando numa empresa que tem relação com a central sindical francesa, a CFDT, ficou sabendo que um grupo de trabalhadores brasileiros teve ajuda dessa central durante o período de exílio forçado pela ditadura brasileira.

“Fiquei interessada na história e fui ver o Afrânio Garcia, professor da EHESS (Ecole des Hautes Études en Sciences Sociales), a fim de trabalhar sob sua direção em um projeto de pesquisa de pós-doutorado. Terminando a pesquisa, a publiquei em francês, “L'exil ouvrier : la saga des Brésiliens contraints au départ, 1964-1985” que traduzi para o português “Trabalhadores exilados: a saga de brasileiros forçados a partir (1964-1985)”, ela conta.

Para a pesquisadora, o sindicalista não teve o espaço que merecia na história do sindicalismo brasileiro, já que no final dos anos setenta, quando voltava do exílio, o movimento de contestação foi deslocado para a região do ABC. Em 1968, esse movimento se estendia para Contagem e Osasco.

“Quando a ditadura é instaurada, em 1964, os militantes mais combativos foram afastados dos sindicatos”, lembra Mazé.

O jovem operário-estudante, trabalhador da Cobrasma, pensou que sua geração deveria retomar a luta dos trabalhadores afastados dos seus órgãos de representação e entrou na luta de cabeça.

Defendeu uma sindicalização, ajudou a desenvolver o Comité de sua empresa que vai ser reconhecido pela Cobrasma em 1965, chegou à presidência do Sindicato dos metalúrgicos de Osasco e região em 1967, nos seus 20 anos.

Uma vez na presidência do sindicato, organiza o MIA - Movimento Intersindical Anti-arrocho, a ideia de uma central sindical. Foi o idealizador do primeiro de maio unitário de 1968, na Praça da Sé, um ato de trabalhadores para trabalhadores, contestando a participação do regime.

Afastado do sindicato pela intervenção do governo e sem alternativa, Ibrahim entra na clandestinidade, vai militar na VPR até ser preso, torturado, banido do país em troca do embaixador americano. É o grande líder neste momento e suas ideias vão ser seguidas. Na volta dos seus 10 anos de exílio, onde milita pela anistia e pela causa dos trabalhadores, a indústria ferroviária da região de Osasco é suplantada pela indústria automobilística da região do ABC.

Ele integra as lutas dos companheiros do ABC e de São Paulo. E desta vez, ao contrário de 1968, o governo enfraquecido pelos movimentos peal anistia, pelas “diretas já”, pelo desejo da sociedade da redemocratização do país, não pode mais segurar a barra e a abertura começa a ser uma realidade.

No exílio, juntou-se a outros sindicalistas e simpatizantes da causa dos trabalhadores, para formar o grupo GAOS (Grupo de Apoio à Oposição Sindical), com o objetivo de mostrar no exterior a situação dos trabalhadores brasileiros sob a ditadura.

Tiveram o apoio da central sindical francesa, a CFDT que colocou à disposição do grupo um local, meios de comunicação e de formação, assim que seus conhecimentos e contatos com sindicatos, federações e centrais sindicais europeias e mundiais, de forma que este grupo pôde entrar em contato, encontrar sindicalistas do mundo inteiro, aprender com eles e realizar um encontro em maio de 1979, com a participação destes responsáveis sindicais. Relações importantes na reconstrução do sindicalismo brasileiro que Ibrahim pode colocar à disposição da criação da CUT e posteriormente da Força sindical e da UGT.

Mazé considera que elementos como a organização dos trabalhadores pelas bases, em comitês de empresa, as chamadas “Comissões de fábrica”, a formação e a conscientização dos operários e assalariados de todo tipo, de forma que pudessem aderir à luta dos trabalhadores são essenciais ao movimento sindical de ontem e de hoje.

Segundo a autora, "as lutas localizadas em Osasco devem ter espaço na história do sindicalismo brasileiro, assim como Contagem tem. E seus líderes devem ser lembrados. Memórias de experiências que devem ajudar as reflexões dos sindicalistas de hoje e a formação dos futuros líderes".

Osasco foi o fruto de movimentos sindicais do passado, mas, como disse Ibrahim, “Se não houvesse Osasco de 1968, não haveria o ABC de 1978. Sinalizamos um caminho que o movimento sindical tinha que brigar pela resistência contra a ditadura, pela democracia. Esse foi o grande legado. Tanto é que durante todo o período da resistência a grande referência era a greve de Osasco e acho que hoje, para muita gente dentro do movimento sindical, a greve de Osasco é o grande marco”, lembra a autora.

Mazé Torquato Chotil, é jornalista, escritora e doutora em Ciências da Informação pela Universidade de Paris VIII.

 

Lançamento da biografia “José Ibrahim: o líder da primeira grande greve que afrontou a ditadura”

Quarta-feira, 2 de maio, às 18h30

Local: Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco e Região: Rua Erasmo Braga, 307 – Presidente Altino - Osasco

Livro: José Ibrahim
Autor: Mazé Torquato Chotil
Edição: Alameda (tel. 11 3862-0850)
Preço e número de páginas: R$ 52,00 (260págs)
ISBN:  9788579395451
Formato: 14x21cm - Brochura

 

Assista abaixo à entrevista com Mazé Torquato Chotil produzida pelo TUTAMÉIA


(Reprodução/Youtube)

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