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Afinal, foi golpe? Claro que foi: cinco livros para tirar qualquer dúvida

Em tempos de polarização política, sugira leituras para os amigos que discordam de você


(Foto: A Ditadura é Assim/Editora Média Vaca/Portal do Aprendiz)

Se você se pega sem fôlego para tantas discussões políticas e, ao mesmo tempo, está ansioso para corrigir equívocos históricos repetidos como “voz corrente”, essa lista foi feita para te ajudar. A maioria das pessoas já passou da fase de ter paciência para explicar o panorama histórico para que alguém interprete uma notícia, ou simplesmente quer voltar a discutir futebol e novela sem se indispor com ninguém.

Em vez de passar nervoso, sugira algum livro dessa lista para aquele amigo que insiste que o impeachment não foi golpe. Esses livros ajudam a compreender o processo histórico brasileiro e contextualizam os dados que consumimos em massa todos os dias nas redes sociais:

1) Da Pizza ao impeachment – uma sociologia dos escândalos no Brasil contemporâneo, Roberto Grün. 

Roberto Grün atua em pesquisas sobre sociologia econômica e das finanças e sociologia política. Publicou diversos artigos e livros sobre esses temas. Foi professor da UFSCar e, atualmente, está na UFABC. Passou também pelo Centre de Sociologie Européenne, em Paris, e pela Universidade de Stanford, nos EUA.
Neste livro, Grün mostra o poder político dos escândalos em sucessivas de disputas dos diversos espaços que compõem o campo do poder do Brasil contemporâneo. Produzir e repercutir escândalos de fundo político vai se tornando cada vez mais uma estratégia “vencedora” e vai sendo tentada por indivíduos e grupos que procuram melhorar suas posições de poder. Na mídia, no judiciário, na política, escandalizar torna-se uma necessidade, conferindo propósito àqueles que se destacam na atividade. Grün analisa diversos escândalos até chegar no que levou ao impeachment da presidenta Dilma Rousseff e diz: nunca ninguém perdeu dinheiro provocando um escândalo no Brasil.

2) Historiadores pela Democracia – O golpe de 2016: A força do passado – Hebe Matos, Tânia Bessone, Beatriz G. Mamigonian. 

Para os autores do livro, o processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff põe a democracia brasileira em risco. Reunindo textos e depoimentos de historiadores com carreira consolidada e jovens profissionais da área, a obra apresenta um diagnóstico historiográfico sobre o conturbado momento político do Brasil. O primeiro artigo do livro, publicado originalmente na imprensa em 2009, alerta sobre os possíveis caminhos que Michel Temer poder seguir para derrubar Dilma. Trata também das manifestações de 2013 e as articulações históricas e sociais que levaram ao impeachment, passando ainda pelo infame pato da FIESP. Um verdadeiro registro histórico, em textos de leitura objetiva, mas com rigor acadêmico. Entre os autores, estão Sidney Chaloub, Luiz Felipe de Alencastro, James Green, Luiz Carlos Villalta, Kátia Gerab Baggio, Martha Abreu, Silvia Hunold Lara e Suzette Bloch.

3) Autoritarismo e golpes na América Latina, Pedro Serrano.

Jurista experiente e professor de Direito Constitucional da PUC-SP, Pedro Serrano desenvolveu o livro durante seus estudos de pós-doutorado na Universidade de Lisboa quando se debruçou na análise das novas formas de autoritarismo e ameaças à democracia, a partir do século 21. O livro destaca as experiências dos golpes que ocorreram em 2009, em Honduras; há quatro anos, no Paraguai; e no Brasil em 2016. É uma obra importante para entender o papel decisivo do Poder Judiciário na aplicação de mecanismos autoritários, restringindo ou suprimindo direitos democráticos na vida social e política de diferentes países. 

4) À espera da Verdade – empresários, juristas e elite transnacional. Histórias de civis que fizeram a ditadura militar, Joana Monteleone, Haroldo Ceravolo Sereza, Vitor Sion, Felipe Amorim e Rodolfo Machado.

Um livro para entendermos que a ditadura não está tão longe de nós e que parte de seus protagonistas ainda está viva e trabalhando para manter o silêncio sobre o que ocorreu no país entre 1964 e 1985. Os textos exploram como agem os líderes civis que se respaldam nas forças armadas para fazer valer seus interesses de classe. O livro mostra que uma ditadura precisa estar articulada com empresários, juristas e políticos. As forças armadas podem ter sido centrais nos 21 anos de ditadura, mas não atuaram sozinhas nem são sempre centrais no processo. O livro oferece análises divididas entre as partes “Antes do golpe”, “O Direito na Ditadura”, “Empresas”, “Relações internacionais” e “A Comissão Nacional da Verdade e o futuro”. Uma leitura instigante para demonstrar que nenhuma movimentação histórica acontece do nada.

5) O abismo na história – ensaios sobre o Brasil em tempos de comissão da verdade, Edson Teles.

Professor de filosofia política na Unifesp, o autor oferece uma reflexão necessária e crítica sobre a história política recente do Brasil, desde a transição da ditadura militar até os dias de hoje. Teles conecta as práticas político-institucionais de ontem e de hoje, revela as linhas de continuidade entre o passado e os acontecimentos atuais. Em três capítulos, o autor mostra como a transição democrática foi marcada pela impunidade, pela política do silêncio e pela manutenção das lógicas e estruturas do aparato repressivo, e ajuda na reflexão de quem se pergunta qual é o real problema da política brasileira. As evidências mostram, defende Teles, que há um processo para criar uma democracia formal, com um jogo político de baixa capacidade transformadora, que potencializa o terror do Estado nas periferias e tenta sufocar as iniciativas dos movimentos sociais de resistência e de rearticulação da política e do político em outras bases. O livro mostra o golpe institucional de 2016 como o passo em direção ao abismo. Nas palavras de Bruno Boti Bernardi, que assina a contracapa do livro: “Trata-se de leitura obrigatória não só para entender os mais recentes retrocessos no Brasil, mas também para orientar as discussões sobre novos modelos de ação política e caminhos para a resistência frente às estratégias autoritárias”.

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