LUTO

Em breve seremos alegres novamente

Em desabafo sensível, a autora de 'Eu preferia ter perdido um olho' homenageia Marielle Franco


(Foto: Mídia Ninja/Reprodução)

Outro dia escrevi sobre amor e meu texto fez um sucesso nas redes sociais. Pois bem, vou escrever sobre amor novamente, mas não sobre esse amor romântico que permeia o nosso imaginário geral. Vou falar sobre um amor que está muito enclausurado no tempo de hoje em um escaninho modesto chamado "lugar de fala" que é lido de modo pejorativo pelas classes dominantes.

No dia 14 de março Marielle Franco foi assassinada por alguém "que sabia atirar muito bem", segundo a análise balística que já está sendo divulgada pela grande mídia. Marielle Franco era uma grande referência para nós, mulheres negras que ousam fazer uma nova proposta de mundo e de sentimento de mundo na sociedade brasileira.

Fiquei sabendo de madrugada de sua morte terrível, muito provavelmente fruto de uma ação repressiva de milícias oriundas de veios corruptos da polícia militar carioca, essa instituição nefasta que serve tão somente para posicionar negros contra negros na história nacional.

Pensei no amor que nutro em profundidade por tantas mulheres negras como eu, diversas, e com as as quais tenho travado contato há alguns bons anos.

Pensei em Marielle e na saúde de minha irmã que dedica sua vida a uma militância negra socialista em SP e que não deu conta da morte da amiga e companheira de partido.

Pensei nas companheiras de minha irmã e de Marielle que também agonizaram com a notícia da execução dessa mulher que era (e é!) uma referência política nos meios institucionais que tanto nos rechaçam no mundo público.

Pensei em mim e em minha angústia de achar que pra sempre serei, na literatura, uma autora que tenha que falar do próprio estupro para ser ouvida porque o assunto é interessante hoje enquanto tema literário "pró-feminista". Chega de tematização, a mudança precisa estar no corpo e ser prática!

Pensei no meu corpo e no corpo de Marielle que era tão linda e que foi enterrada nos moldes de um caixão fechado por ter sido desfigurada por um país que não a deseja enquanto face de transformação.

Nossos corpos são desfigurados todos os dias, seja pelos padrões, seja pela ação genocida desse projeto de segurança pública que apenas afirma que a negritude é uma estética suspeita.

Pensei na narrativa d'O Golpe e como ela não contempla a perspectiva étnico-racial que foi silenciada ao longo de tantas décadas anteriores ao estupor da classe média branca sudestina em face do oportunismo das elites com as quais até o mais esquerdista de nossos governantes teve de fazer conchavos abomináveis e irreais em nome de um negócio chamado "governabilidade".

Dizem que a Marielle é a primeira de um processo ditatorial militar, mas e Cláudia Ferreira?, e Maria Eduarda Alves?, e Luana Reis? E os ativistas mortos no norte, nordeste e centro-oeste? - essas terras esquecidas e contraditoriamente epifânicas em momentos casuais para o sudeste brasileiro?

Marielle ousou dividir a sala com senhorzinhos e coronéis, ousou falar aos capitães-do-mato que estavam seguindo um caminho que fazia mal a si mesmos, por isso Marielle morreu. Porque denunciou o genocídio da população negra nas periferias e a perseguição de gênero típica das grandes ordens institucionais. Ela foi maior que nós todas.

Hoje eu chorei com várias companheiras desde as primeiras horas da manhã. Por Marielle e por todas nós, por perceber que podemos avançar mas só até o ponto em que é agradável às elites - TODAS AS ELITES.

Nunca gostei do termo "lacração" porque ele infere uma idéia de fechamento, hermetismo liberal, o discurso do "eu". Marielle não lacrou porra nenhuma, abriu, expandiu, lutou por todos nós. Pela sociedade brasileira.

Sua execução foi um recado claríssimo sobre quais devem ser nossos limites... Sua passagem para o outro plano (um plano no qual ela ocupa a posição que de fato lhe cabe, a de rainha, e não duvido de Xangô meu pai) nos alimenta de sede - ainda que dolorosamente - pela justiça dos povos, pela luta das classes subalternizadas.

Apesar da dor manteremos nossa conduta de ruptura. Nosso grito jamais será mudo. Nossas lágrimas são o verdadeiro sal da terra. Em breve seremos alegres novamente,
Isso é o amor.

Isso é o amor.

Isso é o amor.

Eu estou tomada por sofrimento mas não me furtarei de sentir amor.

Não me furtarei de sentir amor, embora esse seja o desejo dos fascistas que não sabem nada sobre o amor.

Confira