Delegado da Polícia Civil explica como é o dia a dia da profissão

Por Ayrina Pelegrino

 


Uma das carreiras mais cobiçadas no universo jurídico é a de delegado. Atualmente estão em andamento os concursos da Bahia, Paraná, Pará, Mato Grosso do Sul, Goiás e Espírito Santo. O Última Instância esclarece várias dúvidas para quem pretende seguir a profissão com Robson Gonçalves de Oliveira, que já é delegado da Polícia Civil do Estado de São Paulo há 20 anos.

"Os delegados são os dirigentes das Polícias Civis, logo coordenam e comandam as atividades de polícia judiciária, as atividades de investigação criminal. No âmbito interno, eles atuam nas mais diversas frentes: ações territoriais, especializadas (homicídios, narcóticos, patrimônio, etc.), inteligência policial entre outros", explica Oliveira.

Confira a entrevista:

Última Instância — Para ser delegado da Polícia Civil o candidato precisa ter um perfil específico?


Oliveira: Sim, é preciso ter vocação. Quem entra somente atrás de um emprego público, não sendo vocacionado, se frustra e se torna um profissional aquém do necessário. No mais, tem que preencher os requisitos do edital. Esse varia de Estado para Estado. As Polícias Civis são estaduais e tem no Distrito Federal também.

Última Instância — Quais são as principais atribuições do delegado da Polícia Civil?

Oliveira: Varia. Os delegados são os dirigentes das Polícias Civis, logo coordenam e comandam as atividades de polícia judiciária (formalização dos atos procedimentais), as atividades de investigação criminal (apuração das infrações penais, exceto as militares etc). No âmbito interno, eles atuam nas mais diversas frentes: ações territoriais, especializadas (homicídios, narcóticos, patrimônio, etc.), inteligência policial entre outros.

Última Instância — Quais os assuntos que o delegado lida no dia a dia?

Oliveira: São muitos. Alguns Delegados atuam em contato direto com a população nos Plantões Policiais, no atendimento, registro de ocorrências, elaboração de atos de prisão em flagrante etc. Outros atuam na investigação criminal (saem de um crime sem autoria e buscam desvendá-la). Outros atuam nos bastidores (operações de inteligência policial). Outros ainda atuam em situações de suporte (capturas, etc.).

Última Instância - Depois de aprovado no concurso público da Polícia Civil, o que o novo integrante faz?

Oliveira: O aprovado cursa a Academia de Polícia, faz estágio nas Delegacias e,depois, é designado para ocupar um cargo em alguma unidade policial. São três anos de estágio probatório para conseguir a efetivação.

Última Instância — Há cursos de atualização quando o profissional já está trabalhando?

Oliveira: São vários, dentro e fora da instituição. Podem ser presenciais ou à distância. Alguns são complementares, outros são de especialização ou de aperfeiçoamento. Há cursos são necessários para promoção ou para atuação num determinado segmento (inteligência policial, por exemplo).

Última Instância — Há níveis na carreira, promoções?

Oliveira:  Em São Paulo, a carreira se estabelece em quatro classes: 3.a (que dura cerca de 10 anos), 2.a (10 anos), 1.a (5 anos) e Especial. Para você atingir o último degrau você tem que fazer o Curso Superior de Polícia. É equivalente a um mestrado.

Última Instância — O senhor pode comentar alguns casos em que já trabalhou?

Oliveira: Foram muitos casos nesses 20 anos, mas eu me recordo de três casos interessantes. Houve o paradeiro de um assaltante e homicida que estava para ser desvendado à polícia por uma moradora do bairro. Numa noite tal moradora recebeu a visita do namorado e de um casal amigo. Na casa estavam, também, duas crianças, sendo a filha da moradora e o filho da amiga. O assassino e sua quadrilha invadiram a casa e mataram os dois casais, sendo que as crianças foram amarradas nos cadáveres das mães. Meus policiais e eu conseguimos apurar a autoria e os envolvidos foram a Júri onde e condenados à pena máxima.

Outro caso foi o que envolvia um traficante que dominava através do terror um determinado bairro. Uma investigação nossa conseguiu descobrir uma "mula" do tráfico que estava sendo ameaçada de morte pela quadrilha e ela acabou sendo incluída no serviço de proteção à testemunhas delatando os líderes do bando e suas ramificações. Outra condenação exemplar foi obtida.

Teve ainda o caso de um guarda municipal de folga foi morto na saída de um baile. O caso já estava arquivado sem que a autoria fosse descoberta. Anos depois meus policiais e eu descobrimos uma pista e começamos a investigá-la. Pedimos a exumação do cadáver e recuperamos o projétil da arma usada no crime. Fomos proceder a uma busca na casa do suspeito onde armas foram localizadas. Daí foi um passo para sua condenação.

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