Ser policial não é como mostrado nas novelas, diz delegado da Polícia Federal

Por Mariana Ghirello

“Ser policial é difícil. É como andar no fio da navalha. Ele deve ter conduta ilibada, procedimento irrepreensível e idoneidade moral inatacável, seja na atividade profissional ou na sua vida privada”. É o que afirma o delegado de Polícia Federal Andersson Pereira dos Santos, que também é coordenador de Recrutamento e Seleção. Segundo Santos, a imagem que as novelas constroem dos policiais é bem diferente do que é cobrado pela instituição.

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Vista como uma área promissora pelos interessados nas carreiras públicas, o cargo de delegado da Polícia Federal exige formação em Direito e um perfil bastante específico. “O policial federal deve ter aptidão física, capacidade de concentração e de suportar adversidades, raciocínio rápido e controle emocional”, alerta Andersson Santos. Está prevista a abertura de edital de concurso para preencher 150 vagas de delegado de Polícia Federal nos próximos meses.

Dentre as adversidades vivenciadas no dia a dia, Santos destaca a necessidade de tomar decisões rápidas e precisas. “A resolução de problemas quase sempre tem que ser feita na hora, com todos os riscos inerentes e com o mínimo de margem de erro. E a decisão é imediata, às vezes em frações de segundo, sem tempo para consultar livros, doutrina, jurisprudência”, diz o delegado.

“No entanto, apesar das eventuais adversidades e dificuldades, ser policial federal é gratificante”, comenta. Para ele, o serviço prestado de enfrentamento ao crime organizado, no combate à corrupção, por exemplo, “é uma honra”.

Além das funções exercidas pelo profissional, o delegado fala sobre os trabalhos que já desenvolveu e explica as peculiaridades do ingresso na carreira. Confira a entrevista:

Última Instância — Existe um perfil para ser policial federal?
Andersson Santos —
Sim, e não é o perfil mostrado nas novelas, normalmente um personagem agressivo, sorrateiro e que gosta de pegar no pé dos mocinhos. O policial federal deve ter aptidão física, capacidade de concentração e de suportar adversidades, raciocínio rápido, controle emocional, capacidade de memória e senso de dever. Também deve ter conhecimentos adequados à exigência do cargo, ser autoconfiante, altruísta, ponderado, assertivo, autodisciplinado, persistente, dinâmico e, acima de tudo, paciente.

Última Instância — Quais são as principais atribuições do delegado federal?
Andersson Santos —
As principais são instaurar e presidir procedimentos policiais de investigação de crimes contra a ordem política e social ou em detrimento de bens, serviços e interesses da União, dentre outros ilícitos, e planejar e coordenar operações policiais.

Última Instância — Com que assuntos o delegado lida no dia a dia?
Andersson Santos —
Os assuntos são muitos e bastante variados. Embora todas as unidades da Polícia Federal possuam as mesmas competências, existem assuntos que são mais tratados em umas unidades do que em outras. Depende, e muito, da cidade e da delegacia onde ele está lotado.

Última Instância — O senhor pode comentar casos em que já trabalhou?
Andersson Santos —
Quando fui lotado em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, trabalhei na Delegacia de Defesa Institucional. Lidava diariamente com a repressão ao trabalho escravo, tráfico de pessoas, pedofilia pela rede mundial de computadores, crimes contra os direitos humanos, segurança de dignitários e registro de arma de fogo. Também realizava entrevista para porte de arma, coordenei as operações de segurança nas eleições municipais de 2008 e lidei com a questão indígena.
Por conta do tipo de serviço desempenhado negociei a libertação de servidores da Funai (Fundação Nacional do Índio) mantidos reféns em aldeia. Conheci quase todas as áreas indígenas do Estado de Mato Grosso do Sul, à exceção dos Guatós, em Corumbá.

Última Instância — Como é o concurso para o ingresso nos quadros da Polícia Federal?
Andersson Santos —
É longo, difícil e concorrido. O certame dura, entre a inscrição e a posse no cargo, pouco mais de um ano e é dividido em duas etapas. Na primeira etapa, o candidato ao cargo de Delegado de Polícia Federal é submetido a provas de conhecimento (objetiva e discursiva), exame de aptidão física (barra fixa, impulsão horizontal, corrida e natação), avaliação psicológica e rigoroso exame médico. A partir do próximo concurso, que será realizado neste ano de 2012, poderão ser aplicadas outras exigências.

Última Instância — E depois de aprovado, o que o novo integrante faz?
Andersson Santos —
A segunda etapa é composta pelo Curso de Formação Profissional, realizado na Academia Nacional de Polícia, em Brasília, no qual são matriculados os candidatos aprovados na primeira etapa e classificados dentro do número de vagas previsto em edital.
O curso tem duração média de 20 semanas, é realizado em regime de internato e composto por mais de 30 disciplinas teóricas e práticas, desde armamento e tiro a direitos humanos, passando por defesa pessoal e ética. Ao final do Curso de Formação Profissional, os alunos são classificados a partir da média das notas obtidas nas mais de 30 disciplinas.
A Polícia Federal oferece um rol de vagas com o mesmo número de candidatos matriculados no curso e as vagas são escolhidas por ordem de classificação. Cerca de vinte dias após a cerimônia de formatura, o candidato é nomeado e deve tomar posse na capital do estado no qual escolheu a sua lotação. Desde 2009, a Polícia Federal adotou a sistemática de nomear os candidatos em estados situados no âmbito da Amazônia Legal ou em regiões de fronteira.

Última Instância — Existe algum tipo de curso de atualização que é aplicado quando o profissional já está trabalhando?
Andersson Santos —
Sim, a Polícia Federal realiza cursos de atualização para os seus servidores constantemente. É lógico que uma instituição espalhada pelo território, com unidades em mais de noventa cidades possui restrições orçamentárias e técnicas para capacitar todos os servidores. No entanto, por meio do trabalho realizado pela Academia Nacional de Polícia, a Polícia Federal tem oferecido cursos de especialização e de educação continuada, tendo avançado muito em educação à distância.

Última Instância — O senhor pode dar um exemplo?
Andersson Santos —
Posso citar que a Academia Nacional de Polícia realizará, apenas no primeiro trimestre de 2012, vinte e cinco eventos educacionais, dentre eles o curso de gerenciamento de crises envolvendo comunidades indígenas, o curso especial de condutores de embarcações do serviço público e o curso de dispositivos de clonagem de cartões bancários. Sem contar os cursos para promoção funcional e os cursos de especialização em andamento.

Última Instância — Existem níveis na carreira para fins de promoção?
Andersson Santos —
A carreira do policial federal é dividida em quatro classes. Os policiais ingressam na terceira classe. Após três anos de exercício ininterrupto no cargo, são submetidos a um curso de aperfeiçoamento. Os policiais aprovados neste curso e que tiveram avaliação de desempenho satisfatória nos três anos de exercício são automaticamente promovidos à segunda classe.
Para ingressar na primeira classe, os requisitos são os mesmos: avaliações de desempenho satisfatórias e conclusão, com aproveitamento, de curso de aperfeiçoamento. No entanto, o lapso temporal aumenta de três para cinco anos.
Após treze anos de carreira - três anos na terceira, cinco anos na segunda e cinco anos na primeira classe -, o policial é submetido a um novo curso de aperfeiçoamento e, caso aprovado e possua avaliações de desempenho satisfatórias, é alçado ao último nível, que é a classe especial.

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